A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
A temporada portenha se encerrou com um contato astrológico. Não pude ir, mas o Edil foi lá nos representar junto à nossa colega argentina, a Silvia Ceres. Ela agradeceu deveras pelo exemplar do meu livro que lhe mandei e também nos passou um exemplar do seu, sobre Fernando Pessoa. Diante da felicidade de ambos os lados por renovar os laços e reencontrar nossos pares no tão conturbado meio astrológico, ficou a promessa de tentar um trabalho comum em breve. Todas essas emoções e informações eu acompanhei por telefone enquanto acompanhava a família nas últimas comprinhas e no almoço, que rolou no simpático Los inmortales da Paraná (há mais três ou quatro filiais):
Este é mais um motivo para voltar a essa cidade tão gira. Confiram o site editado pela Silvia: Gente de Astrología. Ela organiza todos os anos um congresso em BA, mas eu ainda não consegui ir. Quem sabe agora, né? Outra coisa que não consegui fazer foi ver o novo filme do Darín in loco, mas fica registrada aí a intenção:
Também faltou adquirir um livro do Cortázar in loco, até porque não consegui fazer as devidas garimpagens nas livrarias e nos sebos da cidade (mais um motivo para voltar!), mas fui na divina livraria Guadalquivir (nome do rio que passa por Sevilha e Córdoba devidamente retratado e mencionado em posts anteriores deste blog), que é especializada em humanidades, e adquiri o meu primeiro Ernesto Sábato: El tunel. Já comecei a ler e estou adorando.
Na quinta à noite, depois do dia de turista, das milanesas e de um reconfortante descanso, Pedro e eu nos animamos para ir ao Palermo Soho, onde eu já tinha ido com mamãe, Edil e Andrea alguns dias antes. Pegamos o subte da Callao até a Plaza Italia, andamos pela calle Jorge Luis Borges, vimos a casa em que nosso querido escritor portenho morou na sua infância e desaguamos na Plazeta Cortázar, onde rola um burburinho de bares, pubs e restaurantes. O lugar é moderninho e a malta estava toda lá. Depois de dar um giro no local, sentamos para tapas e cañas no Cronico Bar: gente bonita, bons videos de música, ambiente simpático e quilmes com patatas bravas. Uma boa noitada em Buenos Aires!
Na sexta, as meninas foram às compras na calle Florida e nós fomos namorar no parque. Realmente os parques de Palermo valem a viagem. Começamos indo de subte até a Plaza Italia e ficando à toa no Jardim Botânico. Pequeno e simpático, trata-se de um oásis no meio da cidade:
Saturnália
Rômulo e Remo mamando e preparando a fundação mítica de Roma
Um corredor bucólico oferecendo uma tão necessária sombra num dia quente e úmido
Depois de bons momentos de ócio, nada melhor que mais ócio. Dirigimo-nos, então, ao Jardim Japonês:
Almoçamos no japa do próprio parque, passeamos mais um pouco e voltamos para o apart de 102. À noite, enquanto as moças foram a um show de tango no Café Tortoni, nós fomos a um clube de jazz - Jazz e Pop - na Paraná logo depois da Corrientes. O lugar é charmoso, a música ambiente divina (trata-se de uma cave mesmo, um típico clube de jazz), mas está precisando urgentemente de uma manutenção e um tratamento contra a umidade, pois o cheiro era de mofo. Relaxamos, tomamos uma cerveja e assistimos a um belo show de jazz-tango-folk levado por Willy González Nuevo Trío. Olhem só um pouco do trabalho deles (só mudou o bandoneonista, que aliás me encantou):
Repararam no tom gauchesco e no baixo de seis cordas do moço? Pois... Extremamente engajados política e literariamente, contaram algumas histórias, cantaram algumas letras aparentemente históricas, mas o que definitivamente me emocionou foi uma música inspirada no Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Não pude conter as lágrimas quando eles falaram do livro e do autor.
Fechamos a noite no Palacio de las papas fritas (na Corrientes), comendo o melhor bife de chorizo que provei em território portenho. Claro, acompanhado de papas fritas. A especialidade do restaurante são aquelas batatas estufadinhas, também chamadas de pastel ou suflê.
Na quinta de manhã, o Edil deixou alguns livros dele comigo para aliviar um pouco da sua bagagem (ele volta para o Rio na segunda, depois de uma temporada de seis meses em BA), conversamos um pouco e combinamos de nos encontrar para almoçar num restaurante peruano perto do Congresso. Acabamos num self-service genérico, porque o peruano estava fechado, mas tudo beleza. Juntou-se a nós a Melina, amiga peruana do Edil que já havíamos conhecido no Natal. Segue o registro que a mamãe fez:
Depois fomos ver a manifestação das Mães da Praça de Maio, que acontece toda quinta-feira à tarde há décadas. Tirei a foto abaixo, mas tive que parar porque a parada é realmente triste. A manifestação é pelos desaparecidos durante a ditadura, mas a praça é realmente uma ágora ocupada por todo tipo de luta.
Depois disso, só a arte salva: emendamos no Malba...
E olha quem estava lá! A gloriosa Tarsila...
Belo museu, bom tamanho, mas o meu estado era deplorável, estava muuuito cansada e com dor nas costas, então o aproveitamento foi mínimo. Mais um bom motivo para voltar... Finalizamos o dia numa pizzaria perto do apart - El cuartito (Talcahuano 937) - considerada por alguns a melhor da cidade. Ótima pizza, atendimento usual (ligeiramente rude), ambiente barulhento nos padrões de qualquer restaurante família (tipo Majórica ou parmê) e com as paredes cheias de fotos antigas de figuras ilustres do país, clubes de futebol, filmes etc.
Ontem pegamos um daqueles ônibus de turismo amarelinhos tão recomendados pela Tânia e nos divertimos deveras zanzando pela cidade sobre quatro rodas ao lado de um monte de outras gentes. Ele passa em todos os pontos turísticos e, como o bilhete vale para um dia inteiro e é possível saltar e embarcar de novo onde e quando bem se quiser, este é um passeio que vale muito a pena. Pude rever algumas coisas e ver outras que ainda não tinha visto, isso sem falar no panorama geral da cidade que se pode ter numa volta desse tipo. O site é este aqui: http://www.buenosairesbus.com/, e olhem só o busum (foto capturada aqui):
Saltamos na Recoleta e fomos comer no El club de la milanesa (Azcuénaga 1898), em frente ao cemitério e ao lado do Recoleta Mall. Ambiente moderninho especializado nessa iguaria típica. Como já não aguentava mais comer carne, pedi uma de peixe (delícia!) e saladinha para acompanhar, mas vale lembrar que o purê de batata que a Tia Leyla pediu estava divino. Mamãe e Julia ainda embarcaram de novo no busum para conferir o Caminito, mas as minhas costas clamavam por uma banheira e água quente.
Na terça de manhã fomos conhecer os parques de Palermo, que são grandiosos e lindos, um ótimo passeio. Pena que, por ser feriado, alguns estavam fechados, como o Jardim Japonês e o Roseiral. Mas tudo bem, este é um bom motivo para lá voltar:
O tempo estava super agradável, a temperatura baixou bem e tivemos que nos agasalhar um pouco. Lá também se encontra o planetário Galileu Galilei. É uma construção modernosa, tipo o cogumelo de concreto da Biblioteca Nacional já devidamente registrado num post anterior.
Enterramos os ossos numa macarronada feita a quatro mãos e regada a mais um ótimo vinho nacional (já havíamos nos preparado e ido ao supermercado, já que no dia primeiro de janeiro quase nada abre por aqui) e, no fim da tarde, fomos procurar a Mafalda numa esquina de San Telmo. E não é que a encontramos? Olhem só: