A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
Hoje o evento de jazz no meu quintal teve continuidade, e evidentemente fui lá conferir:
Numa praça a três quadras daqui rolou primeiro um trio simpático de jovens músicos, baixo-teclado-batera, Luis Lélis, Gonçalo Maia e Miguel Fernandez, todos estavam ontem no Lusitano da Penha de França:
Depois veio um grupo mais complexo, tocando e cantando as músicas do novo disco, "Em terra alheia sei onde ficar", do guitarrista João Espadinha, que também estava lá ontem no Lusitano. Amei este som, segue aqui um pequeno clipe na praça:
O último lance do evento foi num outro cafofo lisboeta bem giro, Penha Sco, aqui do lado. O que vi não foi exatamente jazz, mas foi uma performance musical bastante exótica, divertida e inusitada do grupo Trincket Knick-Knack Bauble. Acho que dá para sentir no pequeno vídeo que fiz:
Muito bom curtir um programinha de jazz no quintal de casa!
Hoje, Angélica e eu almoçamos no Psi, restaurante vegetariano que eu queria conhecer desde 2008, e que entrou para o rol dos melhores de Lisboa, ganhando dos Tibetanos por conta do ambiente. Fica no meio de uma praça aprazível, há mesas na parte de dentro, mas o melhor é o clima de quintal charmoso das mesas do lado de fora, ou esplanada, como dizem por aqui:
À noite, depois de uma boquinha no Tati, um boteco simpático aqui na rua ao lado, fomos prestigiar o jazz no bairro. Foi só subir quatro quadras e lá estávamos no glorioso Clube Lusitano da Penha de França:
Foi lá que rolou o primeiro dia do evento Penha Jazz:
Foi muito giro, a malta estava toda lá, e o clima é totalmente de clube social mesmo. O inusitado é que o espaço é quase todo no subsolo, coisa que aqui é bem comum, constituindo literalmente um cafofo lisboeta, onde as pessoas se encontram, convivem e cultivam as artes. Aliás, o clube foi fundado em 1953, tem uma história interessante e reflete uma atividade viva de bairro, que aqui se chama freguesia e que elege seus representantes, o que aproxima a política do cotidiano das pessoas. Depois do concerto de baixo-batera-teclado, começou a rolar uma jam session, e o improviso correu solto entre os músicos que estavam na audiência.
Está rolando aqui em Lisboa um festival de ópera no jardim do Museu Nacional de Arte Antiga, o Operafest. O primeiro espetáculo foi justamente este aí do cartaz acima, e Teresa e eu fomos conferir na sexta-feira. Só ver gravações ou ouvir é uma coisa, e eu tenho minha coleçãozinha de ópera em casa, mas ver ao vivo toda aquela tragédia com pitadas cômicas cantada e encenada realmente é uma experiência incrível. Ainda mais num jardim a céu aberto, testemunhando uma história emocionante que fala de máscaras e destino escrito nas estrelas (na palma da mão e pelo capeta). Tudo bem que, apesar de estarmos no verão e até devidamente agasalhadas (finalmente usei meu casaco de couro, que achei que nem ia ter oportunidade de usar diante do calor e da secura que têm rolado por aqui), acabamos ficando com frio... Brrrr
Foto gira que a Teresa fez do local antes de lotar
Para além da obra em si e da óbvia referência a questões astrológicas clássicas - destino, determinismo -, essa ópera me tocou também por conta da onda pessoana que estou vivendo. Não dá para não lembrar das máscaras de Pessoa: "Quando eu quis tirar a máscara ela estava pregada à cara". E já que falamos de Pessoa, o último espetáculo do programa será uma adaptação de um conto do seu grande amigo Mário de Sá-Carneiro, "O homem dos sonhos". Parece interessantíssimo ver isso em ópera! Detalhe curioso é que esse último dia contará também com uma rave operática que, segundo o programa, é "para acabar em delírio e em festa dançante com múltiplas surpresas, a edição do Operafest deste ano!" Viva Baco! E já que falamos dele:
Belo exemplar de vinho verde que acompanhou o almoço chinês no restaurante Grande Palácio Hong Kong
Ontem voltei a um dos meus lugares preferidos de Lisboa, e já muito citado aqui no blog, o clube de jazz Hot Clube de Portugal. Estava rolando um concerto muito giro de Ricardo Pinto Sexteto. Além do trompetista Ricardo Pinto, havia lá dois saxofonistas, Ricardo Toscano e Bernardo Tinoco, o pianista Óscar Graça, o batera Luis Candeias e o baixo de André Rosinha. Vejam o sexteto no estúdio preparando seu último álbum que ouvimos ontem em primeira mão:
Uma maravilha, quase inacreditável mesmo, tendo em vista a pandemia-pandemônio, que me fez crer que a vida seria para sempre daquele jeito. Nesses últimos dois anos e meio acompanhei de longe o HCP pelo canal do youtube e, inicialmente preocupada com a sua sobrevivência, vi o fechamento por causa do lockdown, seguida da reabertura gradativa com lives, depois com público escasso, depois com público normal e máscaras, e agora estou testemunhando todos se sentindo finalmente libertos da pandemia, provavelmente vacinados e sem máscara, celebrando o jazz. Aliás, aqui em Lisboa só no transporte público é obrigatório o uso de máscaras, mas isso deve cair já na semana que vem. Eu relutei um bocado com a minha paranoia, mas tenho falado bastante sobre isso com a Teresa, que tem me ajudado a racionalizar essa questão e afastar o medo.
Maravilha de noitada musical! Como nunca tirei nenhuma foto no Hot Clube, aproveitei o ensejo:
Só faltou dizer que comemos tapas na Taberna Ibérica, que é pertinho do HCP, antes de irmos para lá. Boa comida espanhola regada a uma sangria de cava. Tintim!
Os verdes anos é um filme de Paulo Rocha (1963) que inaugura, junto com mais dois ou três outros, o cinema novo português. Tive a oportunidade de ver esse filme na Cinemateca Portuguesa nesta minha última semana em Lisboa. Belo filme que, entre outras coisas, nos brinda com uma Lisboa dos anos 1960 (muito giro foi ver a universidade, esse lugar onde estou e por onde ando todo dia, ainda no meio do mato, antes de ser incorporada propriamente à cidade) com uma música maravilhosa de Carlos Paredes. Vejam só os primeiros minutos do filme nos quais, além de viajarmos no tempo, ouvimos essa bela canção:
Nas cenas na universidade, os protagonistas deslizam pela reitoria e pelos dois prédios que existiam na época (os das faculdades de direito e de letras), onde justamente se encontram os desenhos do Almada Negreiros. Por isso esse filme entrou no ciclo sobre o Almada da cinemateca (acompanhando a exposição sobre a qual já falei aqui). Quando o filme estreou em Portugal, ele disse, entre outras coisas, o seguinte:
Aceito sempre convites que, como este, não se dirigem a competência minha. É pois sem competência que digo que a realização do Paulo Rocha "Verdes anos" me surpreende e que a aguardava.
Ainda nesse ciclo, vi também uma sessão com três curtas/médias: o documentário Almada Negreiros, vivo hoje, de António de Macedo (1969); Entrevista ao Zip Zip, de 1969; e SWK4, de Edgar Pêra (1993). Gostei mais dos dois primeiros, pois pude ver o próprio Almada falando, o que foi um presente. Figura bem-humorada, lúcida e que, apesar da perturbação natural do artista subversivo, irradia uma tranquilidade e uma sabedoria que aquecem o coração. O primeiro está inteiro lá no youtube:
Despedi-me do Hot Clube na jam session desta terça-feira, que foi muito gira. Mais um pouquinho do jazz que rola por lá para vocês:
Dia de passear no Retiro, o parque central da cidade. Já tinha ido lá, mas, como ele é bem grande, andei por cantos que não tinha andado das outras vezes. E que calor! Aliás, esses dias foram de muito calor, chegando a 35 graus. Pelo menos havia sombra e água fresca, se não teria sido impossível.
Euzinha e o Palácio de Cristal ao fundo.
Olhem que coisa mais linda de perto também:
E agora lá dentro, onde estava rolando uma pertinente exposição sobre os trânsitos do sol.
Quando saí (por um lado diferente do que entrei), achei a Cuesta de Moyano, uma rua de pedestre bem na saída do parque, onde rola diariamente uma feira de livros e, no final, uma feira de artesanatos, roupas orientais, doces, comidinhas etc. Como estou proibida de comprar livros, pois já comprei demais, fiquei só olhando de longe:
Além disso, hoje começou a Feira do Livro de Madri, no Parque do Retiro, vi a malta preparando o espaço. Pelo que soube, Portugal vai ser o país homenageado, o presidente deve ter ido lá inaugurar a feira.
Aliás, a quantidade de livrarias e alfarrábios, além de muita literatura à solta pelas ruas do Bairro das Letras, é um assombro. Há também galerias de arte, lojas, cafés, bares e restaurantes ótimos. Muita coisa para turista, é vero, mas muita coisa dos locais também, como os veganos, por exemplo, ou o Caixa Fórum, espaço do qual falarei em breve. Vi também várias vezes excursões de escolas pelos espaços culturais, históricos e pelas ruas do bairro. Muito giro ver a meninada animada nesses lugares, tendo suas aulas de história, literatura, ou seja lá o que for, a céu aberto. Eu estava como eles, totalmente disponível para esse aprendizado.
A noitada foi no clube de jazz Clamores, perto da estação Bilbao do metro. Tive o privilégio de testemunhar o último show da turnê de John Patitucci com seu quarteto, que, além dele no baixo, conta com duas guitarras e um batera. Além de músicas de sua autoria, ele mandou clássicos de Monk e King de arrepiar os cabelos. Para quem nunca viu ou ouviu falar, uma canja do youtube com o moço e sua trupe em Oslo um pouquinho antes de irem a Madri:
No domingo, dia 30 de abril, o HCP comemorou o dia internacional do jazz com uma programação que não lhe é usual, já que normalmente não abre aos domingos e muito menos à tarde:
Combinei de ir lá conferir o evento com a minha amiga Teresa, que estava acompanhada do maridão Brilha (de passagem por Lisboa) e do amigo Pedro, que já apareceu aqui no dia do Cais do Sodré. Chegamos no Hot Clube, mas (in)felizmente não conseguimos entrar, saía gente pelo ladrão. Em vez de tentarmos ver qualquer coisa na ponta dos pés na porta do clube (não temos mais idade para isso), resolvemos salir de marcha (para usar este maravilhoso termo espanhol, já mencionado aqui). Subimos até o Príncipe Real, sentamos no bar dessa bucólica praça lisboeta, pedimos imperiais e ficamos jogando conversa fora. Sinceramente, tem coisa melhor? Vidinha chata essa...
O frio foi apertando e resolvemos andar meio sem destino pelas ruas do Bairro Alto, até que decidimos ir à Casa do Alentejo. Então descemos pela Calçada da Glória, onde passa o Elevador - ou Funicular - da Glória (aliás, ele anda cheíssimo de turistas e coloridíssimo, qualquer hora dessas vou fotografar, apesar de já ter fotos das duas outras temporadas, como se pode ver aqui e aqui) e atravessamos a Avenida da Liberdade em direção ao Largo de São Domingos. Daí mais um pulo pela Rua das Portas de Santo Antão e chegamos. Não tirei fotos, conheci o restaurante em 2008 com a nau espanhola e o camarada indiano, como se pode ver aqui, mas vejam só o local (fotos capturadas no site do local e no acervo wiki commons):
Olhando de fora não se dá nada...
Mas olhem só que belezura por dentro.
Aqui é um dos salões do restaurante, onde jantei em 2008 com os amigos gringos.
E aqui a taverna, onde ficamos no domingo. Espaço mais despojado, aberto, mas protegido do frio que estava rolando do lado de fora. Estava perfeito, apesar do serviço lento. O papo luso-brasileiro, como de costume, foi uma alegria. Tomamos vinho da casa (acho que uma jarra e meia) e comidinhas alentejanas, como a sopa de tomate com ovo escalfado (o bom e velho pochê) deliciosamente temperada, pão, queijo de ovelha (virei fã deste e do de cabra, danou-se), azeite, azeitonas, chouriço assado e carne de porco barrada com pimentão e alho. De babar, não? E até rolou um jazzinho de vez em quando, entre outras músicas, inclusive alentejanas.
Para finalizar, ginjinha:
Sem elas, claro, porque já conheço esse trem de outros carnavais, como se pode ver aqui.
Além dos concertos pagos nas grandes salas, devidamente noticiados aqui, e da meninada com menos de 15 anos que se apresentou no Jardim de Inverno (espaço grátis e mais despojado do evento),
Testemunhei coisas muito giras nos fins das tardes de sábado e domingo, como as escolas de jazz de Braga, Cascais e Coimbra. No sábado ainda contei com a companhia ilustre de Carlos e Dani, com quem ainda tive o prazer de passear pela feira de alfarrabistas do Chiado e comer um pastel de nata na Manteigaria quase em frente ao Camões.
Quem quiser ver a entrevista de um dos organizadores do evento, clique abaixo:
Quem quiser ver um pequeno pot-pourri da festa do ano passado, clique abaixo:
Aproveite e veja também um pouco do que eu vi e ouvi na semana passada no Hot Clube, eles acabaram de botar no youtube:
Só tenho uma coisa a declarar: amo esta cidade! Andar por essas ruas, respirar esses ares, ouvir esses falares, sentir-me estrangeira mas ao mesmo tempo em casa, adoro tudo isso... E ainda há as gostosuras:
Estes pães são de lascar! Haja malhação para queimar todo esse carboidrato...
Este queijo é de ovelha, tipo um requeijão, não se come a casca e é para abrir em cima como uma tampa. Família Fraga, reparem só no selo preto: Queijos Fraga.
Na segunda, atendendo a um pedido do Ricardo, fiz uma intervenção feyerabendiana na aula dele da pós. Foi bem giro! Fiz um panorama geral da vida e da obra do Feyerabend, figura que sempre vale a pena ver, ou ler, de novo. Além disso, o trabalho na Biblioteca Nacional (BNP) é uma alegria - em outra postagem coloco as novidades da pesquisa -, o lugar é mágico, confortável e inspirador. Ontem ainda dei uma de cicerone e fiz um tour por lá com Carlos e Dani, que adoraram. Depois saí com eles pelo campus da universidade. Vale lembrar que a BNP é praticamente dentro da Universidade de Lisboa.
E lá estávamos nós, debaixo de um céu azul e de um sol de rachar, andando pela alameda principal, onde se encontram o prédio da reitoria em posição central, em frente ao qual há um enorme gramado. Da reitoria, olhando para o gramado, à direita vê-se o prédio da faculdade de Direito e, logo depois, o das faculdades de Psicologia e Educação, onde fomos prestigiar o novo endereço da Livraria Metamorfose, do simpático casal Joana e Humberto, que visitamos na semana passada. À esquerda da reitoria, vê-se o prédio das faculdades de Letras e Filosofia e, logo depois, a Torre do Tombo. Atrás dela, os blocos da Faculdade de Ciências, por onde tenho andado. Quem quiser rever fotos e impressões passadas, clique aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Despedimo-nos no metro, de onde ainda lhes apontei, ao longe, o enorme Estádio Universitário (um complexo esportivo que tem de tudo, até campo de golfe), o principal bandejão e o hospital.
E para comemorar tudo isso, fui ao Hot Club na terça e na quarta. Ontem com a Teresa e anteontem com o Carlos, a Dani e o amigo deles, Felipe. Assim como na terça passada, rolou jam session com entrada grátis nos dois dias, sendo que ontem, antes da jam session, teve um pequeno concerto de dois representantes da velha guarda do jazz lisboeta - Barros Veloso no piano e Binau Moreira no baixo acústico -, que convidaram o trompetista residente, João Moreira. Um luxo só ver esse desfile de músicos excelentes no palco do HCP. Deem uma sacada no trio em outro evento no ano passado:
De quebra, nas minhas andanças achei mais uma livraria, a Artes e Letras, que fica na Rua Elias Garcia, uma transversal da Cinco de Outubro. É um sebo com uma velharia de alto nível, coisas do arco da velha, e que demandam muito tempo de garimpagem. Praticamente ao lado achei isso:
Nunca poderia imaginar que o Mircea Eliade morou em Lisboa...
Finalmente Hot Club Portugal (HCP)! Para os novatos neste blog, isto não é um inferninho, e sim um clube de jazz, um dos mais antigos da Europa, funciona desde o final dos anos 40. Quem quiser saber mais, clique aqui. Eu conheci este que para mim é um dos melhores lugares de Lisboa em 2008, quando estive cá pela primeira vez. Fui várias vezes nessa primeira temporada de seis meses, a primeira registrada aqui e algumas das outras aqui e aqui. O HCP pegou fogo em 2009 e ficou fechado um bom tempo, tanto é que, quando voltei em 2011, ainda estava fechado. Mas ontem ele estava bem aberto e oferecendo uma jam session de deixar gente grande rindo à toa. E foi este o meu caso e da Teresa, amigas no jazz também. Às terças sempre rola essa jam session com entrada grátis (é isso mesmo, pasmem!) levada por membros do grupo residente que, depois do primeiro set, convidam os músicos presentes para tocar. Depois de botarem a casa abaixo, os residentes (não sei os nomes, mas havia baixo acústico, batera, guitarra e trompete), comandados pelo batera Rui Pereira, deram lugar a uma meninada que também botou a casa abaixo, alegrando o coração da plateia. Vejam aqui um vídeo do que rolou na semana passada por lá (isso está no canal do HCP no youtube):
Para dar continuidade a essa onda de felicidade, acordei tarde, mas deu tempo de dar um abraço (mais um! vejam os outros aqui e aqui) no Pessoa lá no Chiado:
E seguir para um dos meus vegetarianos preferidos da cidade, o Tao, que já foi mencionado aqui e aqui. O giro é que ele continua exatamente como eu o deixei há cinco anos, só que anda mais movimentado. Qualquer hora dessas faço um roteiro dos vegetarianos numa postagem separada. A foto abaixo tirei de um site de rango vegetariano:
Rua dos Douradores, 10 - Baixa
Hoje também foi dia de conferir uma mostra de cinema, "América, América, para onde vais?", que está rolando na reitoria (clique aqui para ver a programação), que, diga-se de passagem, é aqui ao lado do apartamento onde estou.
Para deleite da minha mãe, vi o último filme do James Dean, O gigante, de George Stevens (1956), baseado num livro de Edna Ferber. Parece que ele nem viu o filme, morreu antes da estreia. Além dele, os protagonistas são Elizabeth Taylor e Rock Hudson, e há uma ponta do Rod Taylor super brotinho. O filme é giro pois retrata os latifundiários do Texas com suas questões de classe, raça e gênero. Há uma fala da personagem da Elizabeth Taylor que é um excelente exemplo feminista, e o personagem do James Dean, a despeito do seu charme de rebelde sem causa, retrata um bocado das questões sociais e econômicas. O pano de fundo é, claro, o petróleo da região e a luta do capital, que desumaniza as pessoas. Vejam o trailer:
Lembrou-me de um filmaço que vi com mamãe antes de viajar, durante a nossa maratona pré-Oscar, mas que se passa nos dias de hoje, no mesmo Texas agora em crise pós-2008:
Hoje, depois de um dia de trabalho produtivo, eu fui ao CCB (Centro Cultural Belém) assistir a um concerto de jazz recomendadíssimo pela minha amiga Teresa: Carlos Bica e Azul. O moço é um compositor e contrabaixista português prestigiado no meio, que já toca há anos com dois amigos gringos, Frank Möbus na guitarra e Jim Black na batera. Como diz o Pedro, eles botaram a casa abaixo. O show foi muito giro, algo entre cool, fusion e free jazz (para quem viu a exposição do Miles no CCBB, esses termos já estão no vocabulário cotidiano). Tive a sorte de estar aqui para testemunhar esse show único. Parece que eles deram uma canja ou algo do gênero ontem na FNAC do Chiado, vejam só a parte mais cool do show:
Ah! Faltou dizer que, como estava nas redondezas, aproveitei para degustar os deliciosos Pastéis de Belém. Já havia esquecido a sua peculiaridade: massa finíssima e creminho gostoso pouco carregado no açúcar (normalmente os pastéis de nata genéricos são dulcíssimos e as massas nem chegam perto do de Belém). Só para dar água na boca de vocês:
Também assisti a uma exposição muito doida que estava sendo inaugurada no CCB - A arte da guerra - sobre a propaganda da II Guerra Mundial. É de arrepiar os cabelos!
Hoje finalmente vi um filmão do Clint Eastwood que já queria ver há algum tempo: Bird. É a história do Charlie Parker, magnificamente interpretado pelo Forrest Whitaker. Já tinha lido uma pequena biografia do Bird, mas realmente com imagem e som é sempre mais interessante, ainda mais porque o filme evidentemente é recheado de música. Olhem só o trailer:
A curta vida do cara (34 anos), apesar de sofrida paca, foi realmente produtiva. Vou citar só algumas: Ornithology, A night in Tunisia e All the things you are:
Hoje, depois das minhas atividades estudantis e de pesquisa (com direito a três versões do Tetrabiblos dos século XVI na sala de reservados na biblioteca geral da universidade), resolvi sair para um programinha na noite salmantina. Primeiro, fui ao concerto de um grupo de música antiga, acho que daqui de Salamanca mesmo, o Trío Passamezzo Antico (violino, violoncelo e cravo). O nome do show era La pace: fantasía e invención en el barroco italiano, ou seja, rolou Vivaldi, Corelli e cia., tudo isso num pequeno teatro de um espaço cultural da Universidade. Adorei! Saí de lá andando nas nuvens, mas com os pés firmes nas ruas salmantinas, até a barriga roncar. Comi, então, um sanduba de jamón ibérico (finalmente provei o famoso presunto tipicamente espanhol) com cerveja, fiz uma horinha debaixo de uma bela lua crescente que às vezes sumia atrás das nuvens, perambulando pelas ruas medievais iluminadíssimas e movimentadíssimas, contemplando os detalhes da cidade (cada dia reparo numa coisa nova, apesar de passar quase sempre pelos mesmos lugares), e finalmente encarei o El Corrillo, um restaurante que, na cave, tem um clube de jazz. O lugar é bem legal, com cara de clube mesmo, no entanto, a banda era uma merda. Fui lá para ouvir jazz e tive que me contentar com uma apresentação de música pop-latina-sei-lá-mais-o-quê, que às vezes me dava a impressão de estar num daqueles filmes do Tarantino... Não recomendo o tal Depedro (este é o nome da banda), formado por um guitarrista-cantor meia-bomba, um trompetista que também toca teclado e guitarra, um baixista e um batera. Pedi uma cerveja para encarar o gato que comprei no lugar da lebre, saí no primeiro intervalo e vim andando calmamente e satisfeita, apesar do fraco show que acabara de assistir. Esta foi a minha primeira noitada em Salamanca, já era quase uma da manhã, voltei andando traqüilamente, passei na Plaza Mayor, na Calle Toro, na Avenida Portugal... Os termômetros marcavam 7 graus, o friozinho estava gostoso... Agora vou encarar uma cama quentinha e repor as energias para mais um dia nessa bela cidade.
Hoje é dia de atrasar os relógios por aqui: acaba o horário de verão. Com isso, a diferença para o Rio passa a ser de apenas duas horas. Pois bem. Esta semana trabalhei bastante. Entre outras coisas, acabei botando a mão (na verdade só os olhos, porque foi em microfilme) numa das três únicas impressões antigas do Tetrabiblos em grego, a que saiu no Speculum Astrologiae, do Francisco Junctinus, de 1581, que é um enorme tratado de astrologia com mais de duas mil páginas. Muito giro! Tenho que me organizar esta semana, para deixar meus estudos bem documentados, pois no sábado vou para Salamanca e só retomo os trabalhos por aqui em dezembro. Não quero perder o fio da meada... Lá vou tentar pelo menos fazer o levantamento das obras astrológicas antigas, só vai depender de como será o esquema de trabalho, pois vou ter aula de espanhol todos os dias, além das outras que também me inscrevi. Em Madri, a função é bem definida: botar a mão na tradução espanhola do Tetrabiblos e, se possível, copiá-la. O que vier além disso é lucro. Além de trabalhar, esta semana também me diverti, conheci gente nova e fiz um contato astrológico muito importante, com a Academia de Estudos Astrológicos. A Academia é uma escola de astrologia tradicional com ênfase em pesquisa, ou seja, totalmente alienígena ao quadro geral da astrologia praticada hoje na maior parte do mundo. Como também faço parte do grupo de alienígenas da astrologia, foi extremamente revigorante o encontro com esse pequeno oásis astrológico: Helena Avelar e Luís Ribeiro. Na quarta à noite jantei com o pai do Antonio Augusto, que se chama Antonio Luciano, e sua mulher, Maria Adelaide. Ele mora aqui há mais de 20 anos, onde se aposentou pela Universidade de Évora, lecionando história da ciência (filho de peixe, peixinho é). Mas a sua formação é em física, tendo participado de passagens importantes da história da física no Brasil. Maria Adelaide, que é portuguesa, também é professora, só que de matemática, e leciona na Faculdade de Ciências da Universidade Lisboa. Ambos são muito gracinhas, ótimo papo, vieram me apanhar na residência e me levaram para jantar num restaurante aqui perto, no Lumiar, onde eles costumam ir. Fomos de comida típica: salames de entrada, sopa alentejana, dois pratos de peixe (que não me lembro mais o nome, acho que um é jaquinzinho, e o outro não me lembro mesmo, só sei que o peixe veio ao prato mordendo o próprio rabo, para horror dos leitores vegetarianos) acompanhados de arroz de grelos (!), tudo isso regado a um divino vinho verde. De sobremesa, um tal de leite creme, que é exatamente o delicioso créme brulé que provei em Paris. Ficamos de nos falar de novo e marcar uma ida a Sintra, onde eles têm casa. Muito giro! Ontem à noite fui novamente ao Hot Clube, mas, dessa vez, com a minha nova amiga, a Teresa. Ela combinou de ir jantar fora com um amigo, o José, e me chamou para acompanhá-los. Fomos numa casa de massas, o Casanova, lá em Santa Apolónia, tomamos um espumante delicioso (na verdade, dois) e eu comi pizza de berinjela (massa fininha, lenha, bom recheio). Rolou também uma massa e um carpacio, mas me detive mais na minha pizza (o engraçado é que eles acham divertido eu botar azeite na pizza). Batemos um papo bem legal. O interessante é que, apesar do Atlântico entre nós, as experiências de vida dos três quarentões foi bem parecida. Falamos de música, política, astrologia, comida, diferenças de costumes e falares etc. Depois fomos só nós duas ao Hot Clube, porque o José não arrumou vaga (ter carro em Lisboa, como no Rio, é programa de índio). Chegamos lá por volta da meia-noite e pegamos o fim do primeiro concerto. Esperamos o segundo concerto bebericando um vinho branco no bar e conversando. Lá estava o Joaquim, que apresentei para a Teresa. Não é que ela ficou surpresa de ver que a brasileira aqui num único dia sozinha no Hot Clube já tinha feito até amizade? Coisas da terrinha... Pois bem, mais um concerto de jazz indescritível, Laurent Filipe "The Song Band", este num clima mais Chet Baker, porque o cara do trompete, o tal do Laurent Filipe, também cantava. Saímos, pegamos um taxi e adentramos à residência lá pelas duas da manhã. Ótimo programa! Hoje passei o dia escrevendo.