Para finalizar o registro desta semana de trabalho e novos contatos no Porto, conheci o Vítor Guerreiro, colega tradutor e filósofo, com doutorado em filosofia da música, responsável por uma das duas últimas traduções portuguesas da Origem, que saiu primeiro em 2009 pela Editora Guimarães e pelo Círculo dos Leitores, e depois pela Verbo-Babel em 2011. Vítor nasceu no Barreiro, do outro lado do Tejo, estudou filosofia na Universidade de Lisboa, mas mudou-se para o Porto, segundo ele levado pelo coração, onde terminou o doutorado recentemente. Às vezes oferece cursos livres e seminários na Universidade do Porto, ainda existe um vínculo acadêmico informal. É autor de um livro sobre filosofia da música e coautor de um dicionário escolar de filosofia, além de artigos e, claro, várias traduções, inclusive no site Crítica na Rede, que eu até já conhecia de outros carnavais. Evidentemente, a filosofia foi onipresente nessa conversa. Falamos um pouco de história da filosofia e história da ciência, além de literatura, cinema e política.
Vítor é um tradutor prolífero e metódico, que está no mercado há cerca de 12 anos e que, de maneira geral, consegue escolher o que vai traduzir. Apesar de se reconhecer como um tradutor, que, por definição, acaba sendo um especialista em várias coisas, ou melhor, um generalista - ele mesmo já estudou tintas, ourivesaria, além de piano e línguas, entre diversos outros assuntos -, sua produção tradutória está mais relacionada à filosofia.
Eu diria que ele é também um tradutor-filósofo, que pensa sobre o que faz e que vive com intensidade o tema da vez. Claro que não poderia ser diferente com a Origem, principalmente pelo caráter filosófico desse livro e por seu interesse pelo assunto já anterior à tradução, com leituras transversais e de comentadores, inclusive durante a graduação. Apesar de a família ser da construção civil, lembra-se da biblioteca do avô como referência marcante na sua vida, inclusive com a presença de Darwin.
Gostei de algumas coisas que ele disse, como "traduzir bem é ter ouvido para a música da língua materna", ou "a tradução é um contributo para alargar as fronteiras da língua". Mas discutimos um bocado sobre a questão da invisibilidade da tradução, já que ele, a princípio, defendeu que tradutor bom é tradutor invisível, fiel ao autor, ao texto e à língua de chegada. Como assim, cara pálida? Aí eu puxei a própria tradução dele, na qual já tinha dado uma olhada na BNP, e que me tinha chamado muito a atenção justamente por uma bela nota no título, que eu, como leitora do Darwin e tremendamente incomodada com certas escolhas terminológicas tipicamente novecentistas dele, adorei. Ou seja, ele, o tradutor, mostrou a sua cara de cara, fazendo escolhas explícitas e justificando. Isso está bem longe das noções de invisibilidade e de fidelidade que o Vítor estava defendendo. Mas isso, diz ele, é nota de tradutor, não conta. Como não?
Sobre a sua tradução da Origem, foi um convite de Jorge Reis Sá, da Editora Quasi, mas, quando ele terminou o trabalho, seis meses depois, esse projeto já estava com a Guimarães. Diz que foi relativamente bem pago, e - que os editores não nos leiam! - que o faria mesmo de graça. Para Vítor, a Origem é um tipo de tradução que se faz pelo prazer, pela satisfação do trabalho bem feito (estampada na cara dele na foto acima). Ademais, para ele, a escrita de Darwin é boa, flui, parece um texto escrito ontem. Claro que exigiu muita pesquisa e, ao final, ele fez um cotejo linha a linha com o original, além de contar com a revisão técnica de Paulo Gama Mota, a quem consultou de vez em quando, bem como outras traduções, para comparar soluções de problemas específicos. Aliás, ele trabalhou sobre um original fac-símile da primeira edição, que doou para a Universidade do Porto quando terminou o trabalho.
Ótimo papo! Assim como a Ana, parecia que éramos velhos amigos. Aliás, quem sabe numa próxima vez não promovo um encontro desses dois tradutores de Darwin? Seria giro. Depois dessa conversa, ele me desafiou para um gamão, que eu não jogava há séculos (joguei muito isso com o meu pai). O papo continuou, e ele ganhou o desafio por 2 a 1. Agora me deve uma revanche!
Eu diria que ele é também um tradutor-filósofo, que pensa sobre o que faz e que vive com intensidade o tema da vez. Claro que não poderia ser diferente com a Origem, principalmente pelo caráter filosófico desse livro e por seu interesse pelo assunto já anterior à tradução, com leituras transversais e de comentadores, inclusive durante a graduação. Apesar de a família ser da construção civil, lembra-se da biblioteca do avô como referência marcante na sua vida, inclusive com a presença de Darwin.
Gostei de algumas coisas que ele disse, como "traduzir bem é ter ouvido para a música da língua materna", ou "a tradução é um contributo para alargar as fronteiras da língua". Mas discutimos um bocado sobre a questão da invisibilidade da tradução, já que ele, a princípio, defendeu que tradutor bom é tradutor invisível, fiel ao autor, ao texto e à língua de chegada. Como assim, cara pálida? Aí eu puxei a própria tradução dele, na qual já tinha dado uma olhada na BNP, e que me tinha chamado muito a atenção justamente por uma bela nota no título, que eu, como leitora do Darwin e tremendamente incomodada com certas escolhas terminológicas tipicamente novecentistas dele, adorei. Ou seja, ele, o tradutor, mostrou a sua cara de cara, fazendo escolhas explícitas e justificando. Isso está bem longe das noções de invisibilidade e de fidelidade que o Vítor estava defendendo. Mas isso, diz ele, é nota de tradutor, não conta. Como não?
Sobre a sua tradução da Origem, foi um convite de Jorge Reis Sá, da Editora Quasi, mas, quando ele terminou o trabalho, seis meses depois, esse projeto já estava com a Guimarães. Diz que foi relativamente bem pago, e - que os editores não nos leiam! - que o faria mesmo de graça. Para Vítor, a Origem é um tipo de tradução que se faz pelo prazer, pela satisfação do trabalho bem feito (estampada na cara dele na foto acima). Ademais, para ele, a escrita de Darwin é boa, flui, parece um texto escrito ontem. Claro que exigiu muita pesquisa e, ao final, ele fez um cotejo linha a linha com o original, além de contar com a revisão técnica de Paulo Gama Mota, a quem consultou de vez em quando, bem como outras traduções, para comparar soluções de problemas específicos. Aliás, ele trabalhou sobre um original fac-símile da primeira edição, que doou para a Universidade do Porto quando terminou o trabalho.
Ótimo papo! Assim como a Ana, parecia que éramos velhos amigos. Aliás, quem sabe numa próxima vez não promovo um encontro desses dois tradutores de Darwin? Seria giro. Depois dessa conversa, ele me desafiou para um gamão, que eu não jogava há séculos (joguei muito isso com o meu pai). O papo continuou, e ele ganhou o desafio por 2 a 1. Agora me deve uma revanche!










