sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Última sessão de cinema da temporada

Em ritmo de despedida, hoje vi o último filme relacionado ao Pessoa do Ciclo João Botelho, o tão esperado O ano da morte de Ricardo Reis, de 2020, baseado no livro homônimo do Saramago, escrito em 1984, que ainda não li, mas que acabou de subir para os top 10 na minha lista de prioridades.

Este é o trailer do filme:

Belíssimo filme em preto e branco que dá a cara do nosso querido Chico Diaz (excelente!) ao Ricardo Reis de Pessoa-Saramago. Não tenho como comparar com o livro ainda, nem sei se quero, mas o que vi foi suficiente para me deliciar. A fotografia e o climão remetem aos filmes da época - a história se passa entre o final de 1935, logo depois da morte de Fernando Pessoa, e o início de 1936 - e a conturbada história de Portugal nesse período salazarista, atravessada pelos fascismos europeus, carrega uma dolorosa contemporaneidade. O que mais me tocou, no entanto, foram os amores do Ricardo Reis por duas mulheres completamente diferentes e sobretudo os encontros entre ele e o finado Fernando Pessoa, que acabam estabelecendo uma crise existencial na criatura: quem eu sou? Os diálogos entre eles são fabulosos.



quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Encontros sem fotos, vegetarianos e Saramago

Esta semana revi duas pessoas queridas e muito importantes para o meu trabalho: Carolino e Ricardo. Esqueci de tirar fotos, mas ambos já foram devidamente incensados aqui neste blog em outros carnavais. Sempre bom encontrar nossos pares d´além mar, fortalecer os laços de amizade e nos incentivar mutuamente numa realidade nada fácil não só no Brasil, mas no mundo como um todo. 

Com o Ricardo tomei um chá perto da universidade e, com o Carolino, almocei num vegetariano no Chiado, Jardim das Cerejas, no qual já tinha ido há 5 anos. Simpático e honesto vegetariano em esquema de bufê no coração de Lisboa (Calçada do Sacramento 36):

Como estava nas redondezas, resolvi conferir o outro vegetariano, A Colmeia, que "absorveu" os órfãos do Tao, restaurante que frequentei muito das outras vezes, na Rua dos Douradores, e que infelizmente fechou. Acho que este é o mais antigo de Lisboa, e, assim como o Tao, parece ser um restaurante vegetariano à moda antiga, estilo macrô. Não entrei, só o localizei na Rua da Emenda 110, mais um no coração da cidade:


Ali ao lado é o Museu Nacional de Arte Contemporânea, onde eu já sabia que estava rolando uma exposição sobre o Saramago. Entrei para conferir:


O título é ótimo (lembrando que aqui os porquês têm regras diferentes) e, logo de cara, já nos deparamos com a postura questionadora de Saramago: "A minha posição é de constante interrogação." A ideia da exposição é boa, mostrar artistas contemporâneos que trabalharam temas caros ao pensamento do nosso querido escritor, então ela foi dividida em quatro: direitos humanos, memória e palavra, identidade e alteridade, e sustentabilidade. Pequena exposição que, junto com trechos de Saramago espalhados pelas paredes, nos convida a reparar nos detalhes e a pensar e agir, sempre lembrando que "toda a literatura é um palimpsesto".


segunda-feira, 26 de setembro de 2022

As casas do Pessoa em Lisboa

 

Quando vi este mapa na biografia do Pessoa quase enlouqueci. Para começar, adoro mapas e, depois de analisá-lo, vi que havia alguns endereços bem aqui pertinho (de 9 a 14), além de dois que eu já conhecia e que já estavam devidamente registrados aqui no blog (1 e 15). Claro que não resisti e me coloquei o desafio de fazer o roteiro completo. E não é que eu consegui???!!!! Algumas etapas já mencionei em postagens anteriores, mas vou juntar tudo aqui com as devidas imagens e informações da biografia.

1 - Largo de São Carlos, 4

Fotografei a casa onde Maria Madalena Pinheiro Nogueira deu à luz Fernando Pessoa (13 de junho de 1888 às 15:20h) nos meus primeiros dias em Lisboa em 2008, quando se comemoravam os seus 120 anos:




A casa é num largo, e bem em frente a ela é o Teatro São Carlos, onde seu pai - Joaquim de Seabra Pessoa - fazia seu trabalho noturno de crítico musical e teatral. De dia, ele era funcionário público. Como a casa era no quarto andar, eles tinham uma bela vista para o Tejo.

2 - Rua de São Marçal, 104

Esta rua é uma das transversais da Rua da Escola Politécnica, hoje exatamente em frente à Livraria da Travessa. Desci duas ou três quadras e achei a casa para onde a família do Pessoa se mudou depois que o pai morreu de tuberculose em 1893. Ele morou lá até embarcar para Durban, África do Sul, em 1896, pois seu padrasto, João Miguel Rosa, fora nomeado cônsul:




3 - Av. Dom Carlos I, 109

Em 1902, depois de férias em Lisboa, a família regressa para Durban, mas Pessoa fica com familiares para fazer o exame do segundo grau. Durante esse tempo vive nesse endereço, que é a uma quadra do Parlamento e perto do Jardim de São Bento. Foi aí que escreveu seu primeiro poema que foi publicado num jornal sério, O Imparcial.




4 - Rua de São Bento, 98

Em 1905, Pessoa volta a Lisboa, de onde nunca mais sairá. Como dizia ele: "Viajar é para quem é incapaz de sentir" ou "Viajar! Perder países! Ser outro constantemente/ Por a alma não ter raízes/ De viver de ver somente!". Mas ainda vai se mudar muito nessa cidade das sete colinas. Neste endereço viveu quase um ano.




5 - Calçada da Estrela, 100

Cobri os endereços de 2 a 6 numa única tacada. São próximos, apesar deste da Calçada da Estrela ser numa subida considerável. Pena que não há nenhuma placa informando que ali viveu o moço. O casario parece da época, mas hoje é tipo um shopping center moderninho. Ele morou no primeiro andar junto com a família que veio de férias entre 1906 e 1907:


6 - Rua da Bela Vista á Lapa, 17

Esta rua se encontra numa transversal da Calçada da Estrela bem perto do endereço anterior. Mas infelizmente também não há nenhum aviso de que ele morou ali, no primeiro andar, entre 1907 e 1909, depois que a família voltou para Durban. Foi aí que recebeu a notícia do assassinato do rei D. Carlos.





Esses dois últimos endereços são bem ao lado da Basílica da Estrela, cuja bela cúpula se destacou meio de lado quando entrei numa transversal:


Agora a foto mais convencional, que capturei na internet:


 7 - Rua da Glória, 4

Em novembro de 1909, Pessoa achou que era empresário e abriu a Empresa Ibis, tipografia e editora na Rua da Conceição da Glória 38-40 que durou menos de um ano. Nesse endereço, atualmente, funciona um restaurante ao lado de um prédio aparentemente residencial sem nenhuma placa: 


Nesse mesmo mês, ele se mudou para o apartamento da Rua da Glória, que é bem ao lado da tipografia, mas que, infelizmente não existe mais. A Rua da Glória hoje pula do número 2 para o número 6 com um vão entre eles que parece os fundos de outro prédio:



8 - Largo do Carmo, 18-20

No início de 1911, alguns meses depois de proclamada a Primeira República em Portugal, Pessoa se muda para o primeiro andar deste prédio:



9 - Rua Passos Manuel, 24

Alguns meses depois, muda-se para o apartamento da tia, onde viverá até 1914. Foi nessa época que conheceu Mário de Sá-Carneiro, publicou seu primeiro artigo de crítica literária e um trecho do Livro do desassossego em seu próprio nome. É desse período também o primeiro poema datado de Alberto Caeiro.




10 - Rua Pascoal de Melo, 119

É nesse endereço, nos poucos meses que Fernando Pessoa aqui viveu, que nasceram Álvaro de Campos e Ricardo Reis:


Teresa e eu fomos lá conferir


11 - Rua Dona Estefânia, 127

Entre 1914 e 1916, Pessoa morou neste endereço, onde deu à luz o astrólogo Rafael Baldaya e o neopagão António Mora, completou a primeira tradução da Blavatsky, entre outros teósofos, publicou em Orpheu 1 e 2, e onde recebeu a notícia da morte de Mário de Sá-Carneiro e do AVC da mãe na África do Sul.


Angélica e eu fomos lá conferir


12 - Rua Cidade da Horta, 58

Em outubro de 1916, Pessoa se muda para este endereço, onde mora no primeiro andar do lado direito:





13 - Rua Bernardim Ribeiro, 17

Menos de um ano depois, em 1917, muda-se para o primeiro andar deste espaçoso apartamento. É daqui que ele recebe a notícia do golpe de estado e, no ano seguinte, do assassinato do ditador Sidónio Pais e de uma insurreição monárquica que foi esmagada pelos republicanos. Por isso fez o monárquico Ricardo Reis emigrar para o Brasil.




14 - Rua Capitão Renato Baptista, 3

Muda-se para cá em 1919, onde fica menos de um ano, período em que recebe a notícia da morte do padrasto e conhece Ofélia Queiroz.




15 - Rua Coelho da Rocha, 16

Em 30 de março de 1920, Pessoa se muda com a família para a sua última morada, que hoje é a Casa Fernando Pessoa, sobre a qual já falei em postagem anterior. É lá onde ele produz todo o resto da sua obra e completa a sua jornada mortal em 30 de novembro de 1935. 


Depois, a imortalidade...