Ontem dei uma aula remota na disciplina de História da Tradução que a minha ex-orientadora, a gloriosa professora Marcia Martins, ministra no curso de mestrado e doutorado em Estudos da Tradução da PUC-Rio. Foi giro retornar ao material da minha tese estando aqui em Lisboa. Veja a capa dos slides e, se quiser ver o resto, clique aqui ou na imagem:
A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
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quinta-feira, 22 de setembro de 2022
domingo, 28 de maio de 2017
189 - Tradução dos três primeiros capítulos do Tetrabiblos
Clique aqui para ver a tradução dos três primeiros capítulos do Tetrabiblos (tem uma versão comentada e uma sem comentários). Essa publicação tão esperada é fruto de um trabalho de 10 anos que fiz com o Marcus e do qual nos orgulhamos deveras. Parabéns para a gente!!! Em breve esse material sairá em livro, junto com os estudos que fizemos sobre a obra de Ptolomeu e as cosmologias antigas. Vale lembrar que, por incrível que pareça, este é o primeiro texto de Ptolomeu traduzido direto do grego para o português.
quinta-feira, 18 de maio de 2017
182 - Darwin, Antero de Quental e o pavão branco
Antero de Quental (1842-1891) retratado por Almada Negreiros (1943)
- Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX (1890): uma história crítica da filosofia e da ciência, na qual Antero apelida o panorama cultural português de "caverna do esquecimento";
- Causas da decadência dos povos peninsulares (1871): discurso proferido nas conferências democráticas que identifica três grandes causas da decadência no âmbito do pensamento, da política e do trabalho, respectivamente, o catolicismo trentino, o absolutismo e as conquistas longínquas;
- O que é a Internacional (1871): texto didático-panfletário que contém as seguintes seções: "O socialismo contemporâneo", "O programa da Internacional" e "Organização da Internacional";
- Bom senso e bom gosto (1865): controvérsia com várias pessoas em textos diversos sobre a escola literária de Coimbra, que se desdobra numa reflexão mais ampla sobre a questão literária;
- A indiferença em política (1862): texto sobre a liberdade e contra a reação e os reacionários;
- Sobre traduções (1860): belo texto que fala da impossibilidade da tradução, dando exemplos e refletindo sobre o problema.
Uma das várias gratas surpresas que tive em Lisboa com a minha pesquisa foi descobrir que o Antero de Quental - autor do qual, confesso, nunca havia lido nada - se inscreve na história da recepção de Darwin em Portugal. Isso me foi revelado logo nas primeiras leituras que fiz na BNP, já mencionadas aqui. Boa desculpa para explorar a obra desse moço que, além de poesia, produziu muita prosa. E mais, seu esforço foi sempre no sentido de conciliar metafísica e ciência. Segundo Ana Leonor Pereira (2001, p. 17): "Se o poeta filósofo não é toda a filosofia portuguesa, entre 1865 e 1914, a verdade é que ele foi o único que lutou pela salvação filosófica da ciência, em particular, da teoria científica da evolução."
Então mãos à obra. Quando terminei tudo o que tinha planejado fazer, resolvi conhecer um pouco mais sobre esse poeta, tradutor, filósofo e revolucionário, que flertava com o liberalismo e o positivismo, era evolucionista, e viveu uma vida intensa, produtiva e atormentada até se matar aos 49 anos de idade. Acho que isso ainda dá muito pano para manga, mas vejam só alguns títulos (com ortografia atualizada) que me chamaram a atenção e sobre os quais me debrucei:
- A filosofia da natureza dos naturalistas (1894): neste texto fica claro que, para Antero, evolução é sinônimo de progresso e implica uma finalidade, mas me parece estar longe de ser uma simplificação à la Spencer, merece um aprofundamento maior; clique aqui para ver o PDF na BNP;
- Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX (1890): uma história crítica da filosofia e da ciência, na qual Antero apelida o panorama cultural português de "caverna do esquecimento";
- Causas da decadência dos povos peninsulares (1871): discurso proferido nas conferências democráticas que identifica três grandes causas da decadência no âmbito do pensamento, da política e do trabalho, respectivamente, o catolicismo trentino, o absolutismo e as conquistas longínquas;
- O que é a Internacional (1871): texto didático-panfletário que contém as seguintes seções: "O socialismo contemporâneo", "O programa da Internacional" e "Organização da Internacional";
- Bom senso e bom gosto (1865): controvérsia com várias pessoas em textos diversos sobre a escola literária de Coimbra, que se desdobra numa reflexão mais ampla sobre a questão literária;
- A indiferença em política (1862): texto sobre a liberdade e contra a reação e os reacionários;
- Sobre traduções (1860): belo texto que fala da impossibilidade da tradução, dando exemplos e refletindo sobre o problema.
Antero de Quental pintado por Columbano Bordalo Pinheiro em 1889
Há uma coletânea da obra filosófica de Antero de Quental, organizada por Joel Serrão e publicada em 1989. São 10 textos escritos de 1860 a 1890, alguns já citados acima:
1. Na sentida morte do meu condiscípulo e amigo Martinho José Raposo;
2. A bíblia da humanidade de Michelet;
3. O sentimento da imortalidade;
4. Arte e verdade - I. Caráter positivo da arte;
5. Espontaneidade;
6. O futuro da música;
7. Programa para os trabalhos da geração nova (1871-1875);
8. Ensaio sobre as bases filosóficas da moral ou da filosofia da liberdade;
9. A filosofia da natureza dos naturalistas;
10. Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX.
Alguns comentadores que li ou dei uma passada d´olhos:
CATROGA, Fernando. A ideia de evolução em Antero de Quental. Separata de Biblos, 56, Coimbra, p. 357-388; homenagem a Joaquim de Carvalho, 1981.
COIMBRA, Leonardo. O pensamento filosófico de Antero de Quental. Lisboa: Guimarães Editores, 1991 [1921].
FERNANDES, José Manuel Guerreiro. A ideia de natureza em Antero de Quental. Dissertação de Mestrado em Filosofia da Natureza e do Ambiente. Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, 2004.
COIMBRA, Leonardo. O pensamento filosófico de Antero de Quental. Lisboa: Guimarães Editores, 1991 [1921].
FERNANDES, José Manuel Guerreiro. A ideia de natureza em Antero de Quental. Dissertação de Mestrado em Filosofia da Natureza e do Ambiente. Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, 2004.
TAVARES, Manuel; FERRO, Mário. O pensamento de Antero de Quental. Lisboa: Editorial Presença, 1995.
terça-feira, 16 de maio de 2017
180 - Cronologia da Origem em Portugal
Olhem que capa mais linda!
Não faço a menor ideia de que edição seja esta.
Se alguém descobrir, por favor entre em contato.
1877 - Tradução de um pequeno trecho do capítulo 3 da Origem por Teófilo Braga em seu livro Traços gerais de filosofia positiva (sem informação se foi direto do inglês);
1882 - Tradução (do inglês) de vários trechos da Origem em artigos científicos de Francisco de Arruda Furtado, que também era correspondente de Darwin;
1886 - Tradução de uma seção inteira - "O instinto escravagista das formigas" - do capítulo 8 da Origem por tradutor anônimo no jornal O Povo de Aveiro (sem informação se foi direto do inglês);
1913 - Tradução completa da Origem (sexta edição), a partir de uma tradução francesa, feita por Joaquim Dá Mesquita Paul e publicada pela Livraria Chardon, de Lelo e Irmão (depois Lello & Irmão);
1939 - Tradução dos dois primeiros capítulos da Origem por Lobo Vilela em seu livro Seleção artificial (sem informação se foi direto do inglês);
2005 - Primeira tradução portuguesa completa da Origem feita diretamente do inglês (primeira edição) por Dora Batista para as Publicações Europa-América;
2007 - Tradução dos capítulos 3, 4, 6 e parte final do último, feita por Susana Almeida para a Editora Coisas de Ler (sem informação se foi direto do inglês);
2009 - Reedição revisada por João Arrepia da tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul feita por Lello Editores;
2009 - Tradução completa da Origem diretamente do inglês (sexta edição), feita por Ana Afonso para a Editora Planeta Vivo (atual Editora Exclamação)
2009 - Tradução completa da Origem diretamente do inglês (primeira edição), feita por Vítor Guerreiro para a Editora Guimarães (saiu também pela Círculo de Leitores);
2011 - Publicação da mesma tradução do Vítor Guerreiro pela Editora Verbo-Babel.
quarta-feira, 10 de maio de 2017
176 - Tertúlia com caracóis
Depois de passar três dias sem internet, o que me rendeu uma crise de abstinência daquelas, retomo os escritos com mais uma tertúlia organizada pela Teresa e sua amiga, Elvira, mas agora sobre caracóis. Ao contrário da outra vez, que foi na casa da Ana e cujo tema era o amor (clique aqui para ver o registro), agora o pessoal escolheu um restaurante que serve a iguaria para fazer o encontro. Já tinha visto várias plaquinhas "há caracóis" em restaurantes da cidade, mas nunca dei a menor bola. Desde que o assunto foi definido para a tertúlia, comecei a reparar e fiquei pensando no que eu poderia levar para esse encontro. Claro que a primeira coisa que me passou pela cabeça - e que de fato levei, apesar de o barulho do restaurante não ter permitido a audição - foi o "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", do rei Roberto Carlos (1971) em homenagem ao exilado Caetano Veloso.
Não sei se esta é a única música com teor político do rei, mas ele não é exatamente reconhecido por esse tipo de produção. No entanto, compôs essa linda música de protesto travestida de música romântica, que era como eu a compreendia quando ouvia este vinil durante a infância e adolescência. Só anos depois fiquei sabendo dessa história entre Roberto e Caetano. Ouça abaixo a faixa no disco:
Os dois juntos em 1992, cantando e falando (no final) sobre a música:
Voltando à tertúlia:
Em torno da mesa, da esquerda para a direita, os tertulianos da noite:
Ana Rita, Francisco, Elvira, Fernando, Eu, Teresa, João, Isabel, João e Ana Paula.
Cheguei a ver a ocorrência do termo na Origem e como isso foi tratado nas traduções. Curioso é que este é justamente um dos termos - shell e variações - que foi objeto de nota do editor da Planeta Vivo, Nuno Gomes, no prefácio e no rodapé (p. 295) da tradução da Ana Afonso, para falar do problema da tradução de termos técnicos da obra (Nuno e Ana foram apresentados aqui; a versão em pdf desta tradução se encontra aqui).
Também acabei me deparando "acidentalmente" com outras referências a caracóis em meio a outras leituras, como esta abaixo, do Jornal de Horticultura Prática, que estava folheando porque contém um texto de Júlio Augusto Henriques sobre Darwin já mencionado aqui:
"Será que vou ser capaz de comer um caracol?",
pensei eu desde que começamos a falar disso.
Sim, eu comi! Alguns...
Provavelmente não vou repetir, mas valeu a experiência e, claro, a tertúlia.
Aqui vemos o João, que já trabalhou com caracóis, "dando uma aula" sobre essas criaturas. Incrível a variedade desses bichinhos, suas conchas e hábitos (há caracóis terrestres, marinhos e de água doce).
Teresa, João, Isabel, João e Ana Paula
Por incrível que pareça, toda a malta tinha alguma coisa para dizer sobre caracóis. A Isabel e a Ana Rita até já pensaram em criar esses bichos, e falaram um pouco disso. A Ana Paula levou uma poesia do Lorca (já muito falado e chorado neste blog quando estive em Granada, como se pode ver aqui e aqui), "Os encontros de um caracol aventureiro". Seu companheiro, Francisco, levou uma poesia dele. Outros tertulianos falaram de receitas, lugares e curiosidades. Incrível como o tema rendeu!
Ana Rita, Francisco, Elvira e Fernando
Para finalizar, vamos lembrar dos caracóis do bom e velho Caetano botando a boca no trombone, com destaque para uma passagem em que, no meio da raiva, ele fala poetando: "não sei o que sou, ainda não decidi".
domingo, 30 de abril de 2017
172 - Papo de tradutor 2
Para finalizar o registro desta semana de trabalho e novos contatos no Porto, conheci o Vítor Guerreiro, colega tradutor e filósofo, com doutorado em filosofia da música, responsável por uma das duas últimas traduções portuguesas da Origem, que saiu primeiro em 2009 pela Editora Guimarães e pelo Círculo dos Leitores, e depois pela Verbo-Babel em 2011. Vítor nasceu no Barreiro, do outro lado do Tejo, estudou filosofia na Universidade de Lisboa, mas mudou-se para o Porto, segundo ele levado pelo coração, onde terminou o doutorado recentemente. Às vezes oferece cursos livres e seminários na Universidade do Porto, ainda existe um vínculo acadêmico informal. É autor de um livro sobre filosofia da música e coautor de um dicionário escolar de filosofia, além de artigos e, claro, várias traduções, inclusive no site Crítica na Rede, que eu até já conhecia de outros carnavais. Evidentemente, a filosofia foi onipresente nessa conversa. Falamos um pouco de história da filosofia e história da ciência, além de literatura, cinema e política.
Vítor é um tradutor prolífero e metódico, que está no mercado há cerca de 12 anos e que, de maneira geral, consegue escolher o que vai traduzir. Apesar de se reconhecer como um tradutor, que, por definição, acaba sendo um especialista em várias coisas, ou melhor, um generalista - ele mesmo já estudou tintas, ourivesaria, além de piano e línguas, entre diversos outros assuntos -, sua produção tradutória está mais relacionada à filosofia.
Eu diria que ele é também um tradutor-filósofo, que pensa sobre o que faz e que vive com intensidade o tema da vez. Claro que não poderia ser diferente com a Origem, principalmente pelo caráter filosófico desse livro e por seu interesse pelo assunto já anterior à tradução, com leituras transversais e de comentadores, inclusive durante a graduação. Apesar de a família ser da construção civil, lembra-se da biblioteca do avô como referência marcante na sua vida, inclusive com a presença de Darwin.
Gostei de algumas coisas que ele disse, como "traduzir bem é ter ouvido para a música da língua materna", ou "a tradução é um contributo para alargar as fronteiras da língua". Mas discutimos um bocado sobre a questão da invisibilidade da tradução, já que ele, a princípio, defendeu que tradutor bom é tradutor invisível, fiel ao autor, ao texto e à língua de chegada. Como assim, cara pálida? Aí eu puxei a própria tradução dele, na qual já tinha dado uma olhada na BNP, e que me tinha chamado muito a atenção justamente por uma bela nota no título, que eu, como leitora do Darwin e tremendamente incomodada com certas escolhas terminológicas tipicamente novecentistas dele, adorei. Ou seja, ele, o tradutor, mostrou a sua cara de cara, fazendo escolhas explícitas e justificando. Isso está bem longe das noções de invisibilidade e de fidelidade que o Vítor estava defendendo. Mas isso, diz ele, é nota de tradutor, não conta. Como não?
Sobre a sua tradução da Origem, foi um convite de Jorge Reis Sá, da Editora Quasi, mas, quando ele terminou o trabalho, seis meses depois, esse projeto já estava com a Guimarães. Diz que foi relativamente bem pago, e - que os editores não nos leiam! - que o faria mesmo de graça. Para Vítor, a Origem é um tipo de tradução que se faz pelo prazer, pela satisfação do trabalho bem feito (estampada na cara dele na foto acima). Ademais, para ele, a escrita de Darwin é boa, flui, parece um texto escrito ontem. Claro que exigiu muita pesquisa e, ao final, ele fez um cotejo linha a linha com o original, além de contar com a revisão técnica de Paulo Gama Mota, a quem consultou de vez em quando, bem como outras traduções, para comparar soluções de problemas específicos. Aliás, ele trabalhou sobre um original fac-símile da primeira edição, que doou para a Universidade do Porto quando terminou o trabalho.
Ótimo papo! Assim como a Ana, parecia que éramos velhos amigos. Aliás, quem sabe numa próxima vez não promovo um encontro desses dois tradutores de Darwin? Seria giro. Depois dessa conversa, ele me desafiou para um gamão, que eu não jogava há séculos (joguei muito isso com o meu pai). O papo continuou, e ele ganhou o desafio por 2 a 1. Agora me deve uma revanche!
Eu diria que ele é também um tradutor-filósofo, que pensa sobre o que faz e que vive com intensidade o tema da vez. Claro que não poderia ser diferente com a Origem, principalmente pelo caráter filosófico desse livro e por seu interesse pelo assunto já anterior à tradução, com leituras transversais e de comentadores, inclusive durante a graduação. Apesar de a família ser da construção civil, lembra-se da biblioteca do avô como referência marcante na sua vida, inclusive com a presença de Darwin.
Gostei de algumas coisas que ele disse, como "traduzir bem é ter ouvido para a música da língua materna", ou "a tradução é um contributo para alargar as fronteiras da língua". Mas discutimos um bocado sobre a questão da invisibilidade da tradução, já que ele, a princípio, defendeu que tradutor bom é tradutor invisível, fiel ao autor, ao texto e à língua de chegada. Como assim, cara pálida? Aí eu puxei a própria tradução dele, na qual já tinha dado uma olhada na BNP, e que me tinha chamado muito a atenção justamente por uma bela nota no título, que eu, como leitora do Darwin e tremendamente incomodada com certas escolhas terminológicas tipicamente novecentistas dele, adorei. Ou seja, ele, o tradutor, mostrou a sua cara de cara, fazendo escolhas explícitas e justificando. Isso está bem longe das noções de invisibilidade e de fidelidade que o Vítor estava defendendo. Mas isso, diz ele, é nota de tradutor, não conta. Como não?
Sobre a sua tradução da Origem, foi um convite de Jorge Reis Sá, da Editora Quasi, mas, quando ele terminou o trabalho, seis meses depois, esse projeto já estava com a Guimarães. Diz que foi relativamente bem pago, e - que os editores não nos leiam! - que o faria mesmo de graça. Para Vítor, a Origem é um tipo de tradução que se faz pelo prazer, pela satisfação do trabalho bem feito (estampada na cara dele na foto acima). Ademais, para ele, a escrita de Darwin é boa, flui, parece um texto escrito ontem. Claro que exigiu muita pesquisa e, ao final, ele fez um cotejo linha a linha com o original, além de contar com a revisão técnica de Paulo Gama Mota, a quem consultou de vez em quando, bem como outras traduções, para comparar soluções de problemas específicos. Aliás, ele trabalhou sobre um original fac-símile da primeira edição, que doou para a Universidade do Porto quando terminou o trabalho.
Ótimo papo! Assim como a Ana, parecia que éramos velhos amigos. Aliás, quem sabe numa próxima vez não promovo um encontro desses dois tradutores de Darwin? Seria giro. Depois dessa conversa, ele me desafiou para um gamão, que eu não jogava há séculos (joguei muito isso com o meu pai). O papo continuou, e ele ganhou o desafio por 2 a 1. Agora me deve uma revanche!
171 - Papo de tradutor 1
Ana Afonso nasceu em Viana do Castelo, formou-se em letras (estudos da tradução) pela Universidade do Porto, e o seu trabalho com tradução é eventual e em várias áreas, sendo que traduziu por um bom tempo, e com um certo reconhecimento, no ramo de vinhos do Porto. Ela é a responsável pela tradução de uma das duas últimas traduções portuguesas da Origem, que saiu pela Editora Planeta Vivo (atual Exclamação) em 2009.
No nosso papo de tradutoras num fim de tarde no Bairro das Artes, além de muita coisa em comum, como o gosto pelas artes (ela mora e trabalha por ali), pela política (ela trabalha no sindicato dos professores!) e pelo trabalho investigativo da tradução (até contato com a sociedade columbófila ela fez para dar conta da terminologia técnica da Origem), a Ana revelou mais alguns detalhes sobre essa edição.
Gostei do termo que ela usou ao se referir à sua aceitação do desafio de traduzir a Origem: "ignorância atrevida". Embora tenha sido o trabalho mais mal pago da sua vida, que lhe exigiu quatro meses de dedicação exclusiva (foi morar com os pais para poder dar conta do recado), a Ana não se arrepende da experiência, diz que ficou satisfeita com o resultado final, apesar do gosto amargo de não lhe ter sido permitido fazer a revisão que gostaria. Parece que rolou uma pressão da editora, que planejava a publicação para novembro de 2009, na mesma época em que, 150 anos antes, saiu a primeira edição da Origem. Ademais, reclamou de uma revisão inicial feita pelo editor: "Ele mexeu nas minhas vírgulas!". Para uma tradutora-revisora exigente, isso é inadmissível, sei bem como é. Ela também não gostou da diagramação final do livro, que também passou pela sua mão, ocupando-lhe tempo precioso que poderia estar sendo gasto com revisão.
Uma coisa interessante sobre o processo tradutório dela é que, às vezes, quando a vista estava cansada, ela ouvia uma versão em áudio do livro e já ia se familiarizando com o texto original. Outra coisa é que ela consultou outras traduções, inclusive em outras línguas, para comparar as soluções de problemas cabeludos.
O papo fluiu como se fôssemos velhas amigas, inclusive, claro, mudando de assunto diversas vezes, mas um ponto me chamou a atenção: o preconceito com traduções brasileiras, que ela relatou ser comum por aqui. Eu não sabia disso. Bem, nunca tinha me tocado disso, mas, se pensarmos bem, o contrário também acontece. Várias vezes já ouvi conterrâneos reclamando de traduções portuguesas, até da própria literatura portuguesa, por não se reconhecerem ali naquelas construções gramaticais e estilos tipicamente lusitanos. Pois...
Saímos dali caminhando pelos altos e baixos dessa bela cidade, conversando animadamente sobre música, arte em geral, política e a revitalização da cidade. Uma sensação boa de camaradagem. Ela me acompanhou até a estação do metro Trindade, onde ainda paramos e continuamos a conversa. Curioso é que, quando ela fez um comentário sobre a presença das gaivotas no Porto, que estão cada vez mais entrando na cidade como se fossem pombos, deslocadas dos arredores do rio em busca de comida, não deu para não lembrar da Origem e de Darwin, um dos primeiros ecólogos. Será que ela se tocaria disso se não tivesse traduzido esse livro?
Saímos dali caminhando pelos altos e baixos dessa bela cidade, conversando animadamente sobre música, arte em geral, política e a revitalização da cidade. Uma sensação boa de camaradagem. Ela me acompanhou até a estação do metro Trindade, onde ainda paramos e continuamos a conversa. Curioso é que, quando ela fez um comentário sobre a presença das gaivotas no Porto, que estão cada vez mais entrando na cidade como se fossem pombos, deslocadas dos arredores do rio em busca de comida, não deu para não lembrar da Origem e de Darwin, um dos primeiros ecólogos. Será que ela se tocaria disso se não tivesse traduzido esse livro?
sábado, 29 de abril de 2017
170 - Palmas ao tradutor
Palmas ao tradutor, esforçado xavante,
Guarani culto e sábio ou famoso tupi,
Mestre no deglutir [...]
(Carlos Drummond de Andrade, Amar se aprende
amando)
Estes são os tradutores das duas últimas edições portuguesas do livro A origem das espécies, de Charles Darwin, ambas publicadas independentemente em 2009 pelas editoras Guimarães e Planeta Vivo, e de originais diferentes. A da Guimarães é uma tradução da primeira edição (1859), e a da Planeta Vivo, da sexta (alguns consideram sétima), de 1876. Tive o prazer de conhecê-los na minha visita ao Porto da semana passada. Olhem que caras boas apareceram para esse papo de tradutor:
Estes são os tradutores das duas últimas edições portuguesas do livro A origem das espécies, de Charles Darwin, ambas publicadas independentemente em 2009 pelas editoras Guimarães e Planeta Vivo, e de originais diferentes. A da Guimarães é uma tradução da primeira edição (1859), e a da Planeta Vivo, da sexta (alguns consideram sétima), de 1876. Tive o prazer de conhecê-los na minha visita ao Porto da semana passada. Olhem que caras boas apareceram para esse papo de tradutor:
À esquerda, Ana Afonso e eu em frente ao Centro Comercial Bombarda, no chamado Bairro das Artes, e com o (segundo ela) coração mais famoso da cidade ao fundo. À direita, Vítor Guerreiro e eu no restaurante Divan, com a Origem traduzida por ele para a editora Guimarães numa mão e um tabuleiro de gamão na outra, que ele trouxe num dos alforges da sua bicicleta.
Palmas também ao editor da ex-Planeta Vivo, agora editora Exclamação, Nuno Gomes, que comprou um barulho daqueles com um projeto tradutório ambicioso, que pretende publicar a obra completa de Darwin pela primeira vez em português. Ao contrário do que eu pensava, pois tivera acesso ao arquivo eletrônico desse livro há cerca de quatro anos, há uma versão impressa dessa edição, como se vê na foto abaixo:
Foi um prazer conhecer essas pessoas, cada uma com suas histórias e experiências, compartilhadas comigo generosa e amigavelmente. Nuno, por exemplo, nasceu em Viseu, é biólogo e mestre em ecologia pela Universidade do Porto. Além de editor, trabalha com o desenvolvimento de tecnologias de tratamento de água e se interessa por Darwin desde a graduação, quando leu a Origem por conta própria e logo percebeu problemas de tradução. Aqui, como no Brasil, a formação em biologia não requer essa leitura, o que sempre lhe causou espanto, pois considera a teoria da evolução por seleção natural como o cerne da biologia, fundamental para conhecer o humano e as relações ecológicas, apesar de a seleção natural não explicar tudo. Na nossa conversa, deu para perceber o entusiasmo dele com essa teoria, que lhe permite entender a diversidade da vida no nosso planeta.
Quanto ao projeto, do qual se orgulha deveras, a ideia é publicar a obra completa de Darwin. Além da já publicada Origem, cuja tradução é de Ana Afonso, estão no forno os livros A ascendência do homem e Variação sob domesticação I. O primeiro traduzido por Paulo Lima Santos, e o segundo, por José Bernardo Madeira. Nuno confessa que foi ingênuo no início, achando que daria para realizar esse projeto em cinco anos. Aos poucos, ele viu que isso não seria possível, que a tradução é uma etapa complicada, trabalhosa e cara, bem como a diagramação, que foi refeita, inclusive da Origem, que deve ganhar uma edição revisada e de cara nova em breve (na foto, ao lado dos livros, há uma folha com o planejamento de todos os 20 volumes dessa coleção). A meu ver, é um projeto para a vida toda. Sobre como escolher os originais, Nuno diz que adotou o critério de publicar sempre as últimas edições, pois elas foram revistas em vida por Darwin, mas sabe que este é só um critério, não é melhor nem pior que outros.
Quanto ao projeto, do qual se orgulha deveras, a ideia é publicar a obra completa de Darwin. Além da já publicada Origem, cuja tradução é de Ana Afonso, estão no forno os livros A ascendência do homem e Variação sob domesticação I. O primeiro traduzido por Paulo Lima Santos, e o segundo, por José Bernardo Madeira. Nuno confessa que foi ingênuo no início, achando que daria para realizar esse projeto em cinco anos. Aos poucos, ele viu que isso não seria possível, que a tradução é uma etapa complicada, trabalhosa e cara, bem como a diagramação, que foi refeita, inclusive da Origem, que deve ganhar uma edição revisada e de cara nova em breve (na foto, ao lado dos livros, há uma folha com o planejamento de todos os 20 volumes dessa coleção). A meu ver, é um projeto para a vida toda. Sobre como escolher os originais, Nuno diz que adotou o critério de publicar sempre as últimas edições, pois elas foram revistas em vida por Darwin, mas sabe que este é só um critério, não é melhor nem pior que outros.
Eis o cartaz de divulgação da coleção Planeta Darwin da Editora Exclamação. Vida longa!
O Nuno me passou o contato da Ana, a tradutora da Origem dessa coleção, de quem falarei em postagem separada.
quarta-feira, 12 de abril de 2017
163 - Prato do dia: Darwin
Esta imagem, já conhecida dos membros do GP que participaram da leitura da Origem, não foi escolhida ao acaso para ilustrar essa postagem, já que anteontem, graças a esse trabalho que temos feito há quatro anos na UEM, pude oferecer esse mesmo prato do dia para os alunos do Ricardo. O que era para ser apenas uma intervenção na aula de História Experimental da Ciência acabou sendo a aula inteira, o que foi muito giro.
Falei de Darwin, da Origem, de algumas questões relacionadas à teoria e à escrita do livro, e, claro, das traduções. Sugeri filmes, livros, sites e, evidentemente, o blog do GP. Até Walking Dead e X-Men compareceram... Deu para falar brevemente das principais ideias de Darwin (origem comum, descendência com modificação, seleção natural, gradualismo), do seu estilo de escrita e do uso da analogia, dos habituais mal-entendidos (teleologia, progresso, sobrevivência dos mais fortes), dos seus usos indevidos (darwinismo social, eugenia), de alguns problemas terminológicos (melhoria, aperfeiçoamento etc.) e tradutórios (como o problema da tradução do termo "origem" em alemão, ou o pato que virou canário na tradução portuguesa de 1913 que é oriunda do francês, ou a péssima tradução brasileira da Editora Escala), que repercutem, sem sombra de dúvida, na educação científica. Atravessei alguns autores e suas influências, semelhanças e diferenças, como Lyell, Hooker, Huxley, Wallace, Lamarck e Spencer. Enfim, um pouquinho de tudo o que temos discutido, portanto obrigadíssima ao GP de Science Studies da UEM, especialmente à minha querida Marta Bellini, cuja presença forte eu sinto aqui comigo por essas terras quando toco nesse assunto que lhe é tão caro. Quem ficou curioso, clique aqui para ver o nosso Espaço Darwin.
Mudando de assunto, mas não muito.
Sim, Pedro, num post anterior fiz referência ao Samuel Butler, autor de Erehwon. Aparentemente, na minha leitura dinâmica do Evolution, old and new, o problema dele com o Darwin é a falta de telos na evolução por seleção natural. Para Butler (e, talvez, para Darwin também; vide último parágrafo da última edição da Origem), ciência e religião não se excluem. Parece que ele ainda escreveu mais dois outros livros sobre evolução. Traduzi (provisoriamente) o sumário do Evolution, veja só:
1. Estado da questão - opinião corrente contra a teleologia
2. A teleologia de Paley e dos teólogos
3. Impotência da conclusão de Paley - a teleologia do evolucionista
4. Falha dos primeiros evolucionistas em perceber sua posição como teleológica
5. A evolução teleológica do organismo - a filosofia do inconsciente
6. Esquema do resto do trabalho - esboço histórico da teoria da evolução
7. Evolução pré-buffoniana e alguns autores alemães
8. Buffon - biografia
9. Método de Buffon - o caráter irônico de seu trabalho
10. Supostas flutuações de opinião - causas do meios de transformação das espécies
11. Buffon - citações completas
12. Esboço da vida do dr. Erasmus Darwin
13. Filosofia do dr. Erasmus Darwin
14. Citações completas do Zoonomia
15. Biografia de Lamarck
16. Mal-entendido geral em relação a Lamarck - sua posição filosófica
17. Resumo da Philosophie zoologique
18. Sr. Patrick Mattew, sra. Étienne e Isidore Geoffrey St. Hilaire e sr. Herbert Spencer
19. Principais pontos de concordância e diferença entre as teorias da evolução antiga e nova
20. A seleção natural considerada como um meio de modificação - a confusão que essa expressão causa
21. A defesa do sr. Darwin da expressão "seleção natural" - o professor Mivart e a seleção natural
22. O caso dos besouros da Madeira como ilustração da diferença entre a evolução de Lamarck e do sr. Charles Darwin - conclusão
Anexo: resenhas de Evolution, old and new; Roma e panteísmo
Índice remissivo
sexta-feira, 7 de abril de 2017
161 - Mais alguns personagens da história da Origem em Portugal - 2
Continuando a minha seleção de comentadores de Darwin que tenham alguma relação com a tradução da Origem, apresento agora o Alberto Candeias (1891-?), que, dentre vários outros títulos de sua autoria ou traduzidos, publicou A vida e a obra de Darwin (1941) e A personalidade e a obra de Darwin (1940). O segundo foi uma conferência lida no liceu Gil Vicente em dezembro de 1938, e parece uma versão preliminar do primeiro.
Dei uma boa lida nesse material e vi que o segundo livro não contém referências, afinal, é um texto que foi lido. Mas no primeiro, entre outros livros de Darwin, Candeias traduz vários trechos da sexta edição inglesa da Origem, devidamente citados com paginação e referência completa das fontes, um típico trabalho acadêmico. Bom e belo livro rosa sobre CD, que comenta suas ideias e seus livros, contextualizando com a discussão da época. Não sei se dá para ler o sumário na capa, então segue abaixo para vocês darem uma olhada (ortografia atualizada por mim):
1. A família de Darwin e o ambiente social do seu tempo;
2. Os primeiros anos;
3. A viagem do Beagle;
4. Darwin na sua casa de Down;
5. O livro A origem das espécies;
6. As polêmicas levantadas em volta da ideias de Darwin;
7. As outras publicações científicas de Darwin.
Outro botânico português relacionado com essa história é o Carlos das Neves Tavares (1914-1972):
Foto capturada aqui
Ele traduziu e comentou diversas obras sobre evolução entre os anos 1950-70, dentre elas, algumas que folheei esses dias: 1) "Ch. Darwin e a origem da flora dos Açores", artigo que se refere à Origem, mas sobretudo às cartas de CD; 2) Código internacional de nomenclatura botânica, com tradução, introdução e notas de CNT, incluindo um elogio ao objetivo didático da tradução; e 3) "Quatro cartas inéditas de Charles Darwin para Francisco D´Arruda Furtado", artigo que comenta detalhadamente o conteúdo das cartas trocadas entre CD e FAF (depois reimpressas no livro que mencionei no post anterior sobre a correspondência de Arruda Furtado).
Evidentemente há outras obras que tratam do assunto, como essa tradução de 1939 feita por Anibal G. Pereira (supostamente do alemão):
E também estas, dentre outras, que, apesar de até terem sido boas leituras, não aportaram grandes coisas à minha pesquisa atual:
BUTLER, S. Evolution, old and new; or, the theories of Buffon, dr. Erasmus Darwin, and Lamarck, as compared with that of Charles Darwin. Londres: A. C. Fifield, 1911.
GIRALDES, A. "O darwinismo ou a origem das espécies". In: ___. Questões de filosofia natural. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1878, p. 37-82.
MARQUES, P. Colocação actual do problema da origem das espécies. Separata da Revista Rumo, jan-61.
QUINTANILHA, A. O problema da delimitação e origem das espécies do ponto de vista da biologia experimental. Separata do Boletim da Sociedade Broteriana, v. xvii, 2a. série, 1943, p. 159-165.
160 - Mais alguns personagens da história da Origem em Portugal - 1
Há vários comentadores de Darwin (CD) em Portugal, mas destacarei aqui alguns que me interessam por sua atividade tradutória, e sobre os quais me debrucei essa semana. Um deles, que já foi citado em postagem anterior, é o Júlio Augusto Henriques (1839-1928), botânico pioneiro na introdução do darwinismo em Portugal. Com ele fica claro o papel da tradução como divulgação do conhecimento científico.
JAH escreveu as seguintes dissertações em seu acesso à Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra: As espécies são mudáveis? (1865); e Antiguidade do homem (1866). Nessa última, ele cita Darwin pelo menos uma vez (p. 26), mas sem grandes aprofundamentos. Cita também Humboldt, Lamarck, Cuvier, Quatrefages, Lyell, Huxley (de quem traduz trechos, p. 24-5) e outros. É um texto mais de apresentação de evidências do que de discussão teórica.
O que mais me interessa é que ele também traduziu outros autores darwinistas, como Hooker (Elementos de botânica, em 1877) e De Candolle (C. Darwin - causas do sucesso de seus trabalhos e importância deles, em 1882-2). Uma curiosidade sobre o primeiro texto é o aviso legal (com ortografia atualizada por mim): "A propriedade desta tradução pertence ao império do Brasil, para todos os efeitos legais, ao exmo. snr. Luiz D´Andrade, cidadão brasileiro." Quanto ao segundo, vê-se uma nota do tradutor destacando a importância de Darwin para justificar a tradução. Clique aqui para ver o artigo no periódico O Instituto.
Ele publicou muito material didático ou paradidático, vários com ilustrações e todos sem citações ou referências, como Rudimentos de botânica (1889), Terminologia botânica (1885) e Elementos de agricultura (1881), só para citar alguns. Entre seus escritos, destacam-se, para os meus interesses atuais, os seguintes (clique no link da referência para ver ou baixar o arquivo):
HENRIQUES, J. A. Carlos Darwin. Jornal de Horticultura Prática, Porto, v. xiii, n. 3, mar 1882, p. 41-4.
___. Carlos Darwin 1809-1909. Boletim da Sociedade Broteriana, Coimbra, v. xxiv, 1908-9, p. 5-6.
___. Celebração do centenário do nascimento de Ch. Darwin. Boletim da Sociedade Broteriana, Coimbra, v. xxiv, 1908-9, p. 245-6.
Outro personagem que se destaca é o "Fritz Müller português": Francisco de Arruda Furtado (1854-1887). Digo isso porque, assim como Müller, o "nosso naturalista" alemão radicado em Santa Catarina, FAF também se correspondeu com CD. Apesar da sua curta vida, esse moço fez história e é reconhecido desse lado do Atlântico como discípulo de Darwin. Recentemente foram publicadas a sua obra e correspondência científica em dois livros enormes, com introdução, levantamento e estudo de Luís M. Arruda.
Fonte: Biblioteca Digital de Botânica da Universidade de Coimbra.
Clique aqui para ver a ficha completa do moço.
JAH escreveu as seguintes dissertações em seu acesso à Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra: As espécies são mudáveis? (1865); e Antiguidade do homem (1866). Nessa última, ele cita Darwin pelo menos uma vez (p. 26), mas sem grandes aprofundamentos. Cita também Humboldt, Lamarck, Cuvier, Quatrefages, Lyell, Huxley (de quem traduz trechos, p. 24-5) e outros. É um texto mais de apresentação de evidências do que de discussão teórica.
O que mais me interessa é que ele também traduziu outros autores darwinistas, como Hooker (Elementos de botânica, em 1877) e De Candolle (C. Darwin - causas do sucesso de seus trabalhos e importância deles, em 1882-2). Uma curiosidade sobre o primeiro texto é o aviso legal (com ortografia atualizada por mim): "A propriedade desta tradução pertence ao império do Brasil, para todos os efeitos legais, ao exmo. snr. Luiz D´Andrade, cidadão brasileiro." Quanto ao segundo, vê-se uma nota do tradutor destacando a importância de Darwin para justificar a tradução. Clique aqui para ver o artigo no periódico O Instituto.
Ele publicou muito material didático ou paradidático, vários com ilustrações e todos sem citações ou referências, como Rudimentos de botânica (1889), Terminologia botânica (1885) e Elementos de agricultura (1881), só para citar alguns. Entre seus escritos, destacam-se, para os meus interesses atuais, os seguintes (clique no link da referência para ver ou baixar o arquivo):
HENRIQUES, J. A. Carlos Darwin. Jornal de Horticultura Prática, Porto, v. xiii, n. 3, mar 1882, p. 41-4.
___. Carlos Darwin 1809-1909. Boletim da Sociedade Broteriana, Coimbra, v. xxiv, 1908-9, p. 5-6.
___. Celebração do centenário do nascimento de Ch. Darwin. Boletim da Sociedade Broteriana, Coimbra, v. xxiv, 1908-9, p. 245-6.
Outro personagem que se destaca é o "Fritz Müller português": Francisco de Arruda Furtado (1854-1887). Digo isso porque, assim como Müller, o "nosso naturalista" alemão radicado em Santa Catarina, FAF também se correspondeu com CD. Apesar da sua curta vida, esse moço fez história e é reconhecido desse lado do Atlântico como discípulo de Darwin. Recentemente foram publicadas a sua obra e correspondência científica em dois livros enormes, com introdução, levantamento e estudo de Luís M. Arruda.
Dei uma olhada em ambos os livros esta semana. As cartas de/para CD estão entre as páginas 105 e 118. São quatro cartas de CD para FAF, e seis de FAF para CD. Curioso é que FAF escrevia em francês e CD em inglês.
No livro sobre a obra científica, FAF cita CD direta e indiretamente em vários artigos, traduz longas citações da Origem do inglês e faz algumas outras sem citar a fonte. A mais antiga delas, pelo que vi, é de 1882, passando a ser, então, a segunda tradução de trechos da Origem em Portugal, ficando a do jornal O Povo de Aveiro (1886) agora em terceiro lugar. Acho que eu vou ter que fazer uma linha do tempo em breve para organizar essa cronologia...
Infelizmente, o Arruda Furtado deturpou um bocado a leitura de Darwin sobre as mulheres e as noções de raça e civilização . Vejam só que tristeza:
"A evidência da superioridade intelectual do homem, encarada friamente, longe de ser humilhante para a mulher, é preciosa neste sentido, em que ela deixa ver em todo o seu valor o lugar insubstituível de cada um. Estudado à luz da história e da antropologia, esse abismo intelectual que separa o homem da mulher, tanto mais, quanto mais superior é a raça e mais avançada a civilização, diz-nos que o homem está fatalmente condenado a ser cada vez mais homem, e a mulher cada vez mais mulher." (p. 484)
E ainda tem coisa pior (se é que é possível):
"Somos pela educação científica da mulher; a ciência, já o dissemos, vai sendo a única sanção da moral do futuro. Julgamos que a mulher pode saber muito mais coisas do que aquelas que lhe ensinam, e a nossa tese reduz-se unicamente à questão de saber se é possível educá-la e instruí-la como se educa e instrui o homem. É isto o que julgamos impossível, e a experiência tem-nos já demonstrado." (p. 615)
Deuses! Quase vomitei lendo isso... Ossos do ofício.
terça-feira, 4 de abril de 2017
158 - Traduções recentes da Origem em Portugal
Pelo que vi até agora, as edições mais recentes da Origem aqui em Portugal são as seguintes:
Essas três edições, respectivamente da Editora Babel (2011), Guimarães Editores (2009) e Círculo de Leitores (2009), contêm a mesma tradução de Vítor Guerreiro (com quem já marquei uma entrevista no Porto no final de abril) e um prefácio do Michael Ruse escrito especialmente para a versão portuguesa.
Edição eletrônica da Editora Planeta Vivo (2009), traduzida por Ana Afonso, com quem não consegui contato, mas já marquei entrevista (também no Porto) com o revisor e editor Nuno Gomes. Clique aqui para baixar o arquivo.
Esta é uma tradução parcial (só os capítulos 3, 4, 6 e parte final do último), feita por Susana Almeida, publicada pela Editora Coisas de Ler em 2007. Não há paratextos, portanto não tenho nenhuma informação sobre essa edição.
Aparentemente, esta é a primeira tradução portuguesa completa da Origem feita direto do inglês. A tradutora é Dora Batista, com quem tentei contato, mas ainda não obtive resposta. Saiu nas Publicações Europa-América em 2005.
segunda-feira, 27 de março de 2017
152 - De Darwin a Feyerabend via Lobo
Esta é a capa do livro que contém os dois primeiros capítulos da Origem traduzidos por António Eduardo Lobo Vilela, que também fez uma "Notícia acêrca de Darwin" como introdução. Este livro foi publicado em 1939 pelo Editorial Inquérito, em Lisboa, do qual ele foi sócio de 1938 a 1942.
Não há informações do original, portanto não sei se foi traduzido direto do inglês, mas esta é uma séria candidata à primeira tradução de trechos da Origem direto do original (os de Teófilo Braga e do jornal de Aveiro, postados aqui, também podem ser). Independentemente disso, hoje mergulhei neste e em outros textos do Lobo Vilela e fiquei encantada. Primeiro, vejam a cara simpática do moço (capturada da Wikipédia):
Na introdução do livro, ele faz uma breve biografia de Darwin, apresenta seus precursores e um pouco da história já clássica que vai do fixismo ao transformismo, destacando a importância de Malthus na concepção darwiniana. Ele meio que resume assim a coisa: "A obra de Darwin é o estudo consciencioso dos meios empregados pela natureza para produzir a variação das espécies e das leis que a regulam." (p. 11)
Hoje acabei descobrindo mais algumas coisas sobre ele. Para começar, foi um tradutor prolífero e eclético. Além de Darwin, traduziu Platão, Aristófanes, Schopenhauer, Oscar Wilde, entre outros. Ademais, escreveu deveras sobre ciência, democracia, universidade, espiritismo etc. Ativista político desde os 17 anos de idade, quando ainda estava no Colégio Militar, lutou pela república, pela democracia, pelo socialismo e contra o fascismo. Em 1933 escreveu A crise da universidade, aparentemente sob influência de Ortega y Gasset e seu Misión de la universidad, de 1930.
Mas a cereja do bolo ainda estava por vir em 1955, quando ele publicou (feyerabendianos, pasmem!) Ciência e poesia, recém reeditado por seu filho, António da Costa Lobo Vilela (2012):
Pequeno livro com os seguintes capítulos: 1) Ciência e poesia; 2) Arte e ciência; 3) Poesia e verdade; 4) Do espírito poético; e 5) Da expressão poética. No que parece ser um elogio à inter-trans-multi-disciplinaridade, passando pelos clássicos, por Pessoa, Einstein, entre outros, esse livro me lembrou deveras o Wissenschaft als Kunst (Ciência como arte), de Paul Feyerabend (1984), cuja introdução acabei de traduzir. Aviso quando ela for publicada (em breve).
Vejam algumas passagens, entendendo "sábio" como "cientista":
"O poeta é mitómano por natureza, por temperamento emocional; o sábio é mitómano por educação, por disciplina intelectual. Um e outro são criadores de ficções; mas, enquanto o poeta se satisfaz com os elementos da experiência interna, o sábio procura na experiência externa a justificação das suas ficções." (p. 40)
"O sábio é poeta na medida em que ultrapassa a legalidade dos fenómenos para idealizar o seu mecanismo oculto. O poeta invade os domínios da ciência sempre que assume uma atitude especulativa." (idem)
"O maior sábio é, afinal de contas, um simples aprendiz de feiticeiro... Mas o poeta não! O poeta é um feiticeiro consumado!" (p. 41)
"A ciência é a mais simbólica de todas as artes e, por isso mesmo, a mais transfiguradora. [...] Buffon, na sua História natural, recorreu algumas vezes aos poemas didáticos de Opiano, cujas descrições apresentam as características de exactidão científica. Por outro lado, a teoria atómica de Epicuro forneceu matéria poética a Lucrécio, o qual precedeu Darwin com as suas ideias da 'seleção natural'." (p. 51)
Aparentemente, todos os caminhos me levam a Feyerabend... Ou então eu estou vendo coisas nessa recepção de Darwin em Portugal, o que é bem provável... Mas que é gira a série de figuras interessantes que estão aparecendo nessa história, isso ninguém pode negar.
quinta-feira, 23 de março de 2017
149 - Mais sobre os primeiros textos de Darwin em português
Como falei em postagem anterior, o primeiro Darwin em português parece ser de 1877 e é uma citação longa da terceira seção do terceiro capítulo da Origem, traduzida por Theophilo Braga no último capítulo deste livro, cuja cópia eu trouxe hoje para casa:
Logo depois, em 1886, saiu uma seção inteira do capítulo 8 da Origem. Confiram, abaixo, a primeira página do jornal (devidamente copiada hoje), o destaque na parte inferior onde se encontra o texto "O instincto escravagista das formigas" na seção Folhetim e, em seguida, a assinatura, Charles Darwin. Sem crédito de tradução.
E finalmente o livro todo, traduzido do francês por Joaquim Dá Mesquita Paul (JMP) e publicado pela Livraria Chardon, de Lelo e Irmão (depois Lello e Irmão) em 1913:
JMP era médico e professor, como diz no crédito da tradução. Além disso, descobri mais algumas coisas (pasmem!) no Facebook e num site de genealogias. Para começar, o nome dele completo era Joaquim Marques Dá Mesquita Montenegro Paul, mas ele assinava só JMP mesmo, como se vê abaixo:
Ele nasceu no dia 16 de março de 1875 em Azurem Guimarães, filho de Gaspar e Serafina, e morreu no dia 12 de maio de 1946 em Pedroso, Vila Nova de Gaia. Tinha um irmão (Gonçalo) e uma irmã (Maria dos Anjos), casou-se com Eugénia em 17 de outubro de 1901 e teve seis filhos (Miquelina, Serafina, Alexandrina, Judite, Sofia e Gaspar).
Além da tradução da Origem e de algumas traduções não publicadas para o latim, JMP gostava de escrever e publicou dois livros: Como deve tutelar-se a infância e Soldado desconhecido. Ele também editou e dirigiu, no Porto, o jornal A primavera, uma "revista educativa das crianças portuguesas", uma revista infantil que nada tem a ver com Darwin.
Ele também escreveu o seu próprio epitáfio:
Não lembreis este corpo, vil farrapo,
Que se vai transformar em lodo e lama,
Antes lembrai o 'espírito invisível'
Que de Deus foi centelha e viva chama...
JMP estudou na Universidade de Coimbra, onde se formou em medicina e cirurgia, era republicano, maçom, fundou a Sociedade Espírita de Portugal, mas dizem que era ateu, amigo de padres e respeitava a religião alheia. Gente boa esse moço!
Em 2011, a Universidade do Porto fez 100 anos e reconheceu o trabalho de JMP numa biografia que acompanhou a exposição "A evolução de Darwin".
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