sábado, 29 de outubro de 2011

124 - Fim de festa

Hoje, além de fazer mala, estou me despedindo de Lisboa. Dei minha caminhada de manhã, almocei calmamente degustando meu vinho alentejano, colhi laranja no quintal, conversei e dei muitos abraços na Dona Rosa. 

Depois do almoço, Lidia passou aqui para um café nas redondezas:


E estava com a Rosa e a sua netinha, Joana, que sacou uma foto minha no seu aparato eletrônico:

 

Depois fomos até o parque:

 
 
 
 

E nos despedimos torcendo para que em breve possamos nos reencontrar de novo. 

Na sequência fui até o Cais das Colunas, precisava me despedir do Tejo:

 
   

E que pôr-do-sol!

 

 

Claro que não pude conter as lágrimas, essa cidade mora no meu coração.
Até breve, Lisboa!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

123 - Entre Coimbra e Figueira da Foz

Na quarta-feira acordei às 5 da matina e duas horas depois, debaixo de um frio de lascar, deixava Lisboa rumo a Coimbra. No meio do caminho começou a chover e às 8:45h, quando desembarquei em Coimbra, a chuva, o frio e o vento estavam muito sinistros. Pior que a fila no ponto de táxi estava enorme, então saí andando naquelas condições desfavoráveis e fui pegar um táxi no meio da rua. A propósito, choveu o dia inteiro, e quando tinha que me deslocar de um lugar para o outro, não havia guarda-chuva que desse conta daquele vendaval. Só conseguia pensar em como era bom já ter estado em Coimbra no verão de 2008, e ter podido desfrutar dessa simpática cidade com belíssimos dias de céu azul, como se pode ver aqui, aqui, aqui e aqui.

Quando cheguei à universidade, a abertura do congresso já havia começado, mas estava tudo sob controle, ainda deu tempo de ouvir que o FHC, uma vez perguntado em Coimbra sobre como o Brasil conseguiu manter sua unidade enquanto o resto da América Latina se dividiu em vários países, teria respondido que foi graças - pasmem! - a Coimbra, porque em Portugal só havia uma universidade, o que fez com que todos os líderes luso-brasileiros bebessem na mesma fonte, enquanto a Espanha tinha várias.

Ademais, consegui assistir às duas primeiras plenárias: a primeira sobre a reforma universitária no início do século XIX em Berlim e Coimbra; e a segunda, que mais me interessou, sobre os comentários conimbricenses à obra de Aristóteles. Na hora do café (normalmente a mais produtiva dos congressos), encontrei-me com o Carolino e o Antonio Augusto, conversamos um pouco e voltamos para mais uma palestra de orador convidado, agora sobre a política envolvida nos prêmios nobel. A Gabriela se juntou a nós e, depois da palestra, almoçamos um menu do dia regado a vinho da casa no restaurante Bizarro, na Baixa de Coimbra. Ótimo papo transatlântico para estreitar os laços. Depois do almoço, Teresa chegou de Braga e se juntou a nós para mais uma rodada de palestras plenárias, uma sobre as ciências da vida no Brasil e em Portugal, e finalmente a do Antonio Augusto, "O destino das críticas de Goethe à óptica de Isaac Newton segundo os físicos":

A foto está meio escura, mas o coroa de barba ao lado do Antonio Augusto, que fez a mediação da sua palestra, é o Fitas, também já mencionado aqui neste blog, mais uma figura importante no meu trabalho. Ele me enviou artigos que eu precisava para montar o projeto de bolsa-sanduíche para Portugal e também foi muito gente boa quando eu estive em Évora em 2008.

Na sequência começaram as sessões de comunicações e a minha foi logo a primeira, como já falei no post anterior. Achei que foi bem legal, até rolou uma boa discussão, apesar dos assuntos variados. No fim do dia estava morta, fui com Teresa para a casa da sua sogra em Figueira da Foz, cidade praiana perto de Coimbra. Trata-se da foz do rio Mondego, o belo rio conimbricense que desagua no mar justamente ali. O acolhimento foi maravilhoso. Dona Conceição é uma querida, e a cunhada da Teresa também, só falta agora conhecer o famoso Brilha, seu maridão gente boa.

No dia seguinte, devido ao cansaço do dia anterior, Teresa e eu combinamos de matar as primeiras atividades e fomos só para as comunicações. Como eram várias sessões paralelas, escolhi uma que achava que seria mais interessante, mas acabei me arrependendo. Pior que estava com uma dor de cabeça de lascar, acho que foi o frio (gozado que no Rio normalmente a dor de cabeça é por causa do calor). O tempo estava melhor, mas ainda estava muito frio e vento. Almoçamos na cafetaria do Museu da Ciência, tomei um analgésico e depois fomos embora. Foi legal que chegamos ainda de dia em Figueira e eu pude conhecer um pouco da cidade. Andamos um bocado por lá e, enquanto conversávamos sobre tudo e mais um pouco, ela foi me apresentando a algumas partes da cidade. Vou sentir falta desses papos animadíssimos com a minha amiga d'além mar. Quando chegamos em casa, o papo continuou animado, aí degustamos uma lula feita no capricho pela Dona Conceição com um rosé especial.

Hoje de manhã fomos mais cedo para Coimbra, pois, além da palestra do Henrique sobre o Pedro Nunes, que era logo pela manhã, na sequência a Teresa apresentou o trabalho dela. Depois da missão cumprida, quando descíamos para almoçar na Baixa, saquei essa foto dos meus amigos recém-apresentados:

 Antonio Augusto e Teresa

Na sequência voltei para Lisboa depois de despedidas já saudosas e promessas de nos vermos em breve.

Ao chegar na residência, em função do aniversário da camarada argentina e da despedida da camarada húngara, tomamos um vinhozinho e sacamos umas fotos, vejam só:

Da esquerda para a direita temos a hermana Graciela, Dona Rosa, a húngara Ágota e a galega Celia.   

A mesma coisa só que euzinha estou no lugar da Ágota.

Ai, ai, ai... Amanhã é meu último dia na terrinha... Não paro de suspirar...

122 - Apresentação de trabalho em Coimbra

Apesar de algumas chatices inerentes a qualquer congresso, ao fim e ao cabo correu tudo bem. Além da emoção e do sentido de responsabilidade de estar na Universidade de Coimbra, que bem ou mal povoa o nosso imaginário tupiniquim, eu tive a felicidade de ser encaixada numa sessão sobre matemática e astronomia. Graças a isso, compartilhei esse momento com algumas figuras ilustres da minha vida, como o Luís Miguel Carolino, que apresentou seu trabalho na mesma sessão, e o Henrique Leitão, que foi o mediador da sessão (ou chair, como eles chamam em Portugal), ambos já devidamente mencionados aqui. Na plateia, meu prezado amigo e ex-orientador Antonio Augusto, que havia acabado de fazer uma belíssima palestra (ele foi orador convidado do congresso, bem como o Henrique, que finalmente foram apresentados um para o outro por essa que vos fala; afinal, era um absurdo eles não se conhecerem pessoalmente, tendo em vista seus interesses em comum), sua senhora Gabriela, que, coitada!, foi submetida a agruras terríveis já que história da ciência não é a sua área, e também a minha querida amiga Teresa. Evidentemente, além dos amigos, havia também as outras pessoas que apresentaram trabalhos na mesma sessão e mais meia dúzia de gatos pingados, como é peculiar. Mais detalhes sobre esses três dias, para além da apresentação, tentarei relatar no próximo post. Por ora, seguem os slides da minha primeira comunicação num congresso internacional, o Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências, realizado esta semana em Coimbra:















terça-feira, 25 de outubro de 2011

121 - Indo para Coimbra

A apresentação será amanhã em Coimbra, acabei de botar um ponto final nos preparativos. Em post separado coloco os slides para vocês terem uma ideia da coisa

Só para registrar, no domingo, quando eu estava almoçando na casa da Lidia, o tempo começou a virar. Desde então a instabilidade tomou conta da terra dos alfacinhas, e o sol só aparece entre nuvens, às vezes chove, às  vezes faz sol e o vento não perdoa. Ontem, quando saí da biblioteca no fim do dia e fui ao Culturgest para o festival de cinema (DocLisboa 2011) que está rolando por aqui, os termômetros marcavam 15 graus, mas o vento era de lascar. Que bom que trouxe o cachecol verde da mamãe, foi a medida certa.

Como disse, no domingo fui almoçar na Lidia e depois saímos para um café. Foi ótimo como sempre, sua comida é deliciosa, rolou um pernil com batatas, aquele papo familiar etc. Até ganhei um vinho alentejano do marido dela, que normalmente é caladão, mas tem andado bem sociável, já tinha reparado no outro dia no Parque nas Nações. Muito giro! Na hora do café, Lidia convocou sua amiga e fiel escudeira Rosa, que da outra vez já nos tinha acompanhado em vários passeios, e uma outra amiga também. Elas são muito engraçadas.

Quando cheguei à residência, Dona Rosa tinha guardado uma feijoadinha para mim, uma maravilha a feijoada portuguesa: feijão mulatinho, carnes e legumes.

Muito bem. Ontem finalmente conheci o Culturgest, um centro cultural que da outra vez acabei não conhecendo, e que é uma das sedes do DocLisboa 2011, festival de cinema tipo o do Rio, que vai rolar por aqui até domingo. Tem filme de tudo quanto é canto, ontem assisti a um filme suíço que se passa no México (Con la licencia de diós) e um belgo-holandês (De engel van Doel). Ligeiramente deprimentes, mas tudo bem. O primeiro é sobre o silêncio e a espera (do marido emigrado para os EUA) em que vive uma mãe de família nas suas tarefas diárias no meio do deserto mexicano; e o segundo sobre os moradores de uma pequena aldeia - Doel - que, por interesses expansionistas da Antuérpia, está sendo demolida gradativamente, especialmente sobre uma senhorinha fofa que se recusa a sair.

Ainda não contei que tenho duas novas amigas aqui na residência: a Cecilia, que é carioca e professora da UFF, e a Graciela, professora da Universidade de Córdoba, na Argentina, ambas trabalham com educação, sendo que a Graciela, especificamente, trabalha com metodologia de pesquisa (justamente a minha futura área em Maringá), então se interessa por filosofia da ciência, epistemologia e educação científica. Muito giro! Ontem, quando cheguei depois dessa sessão de cinema deprê, elas me acompanharam num vinhozinho.

Como vou amanhã cedo para Coimbra e não levo o computador, ficarei sem escrever até sexta.

sábado, 22 de outubro de 2011

120 - Mais um dia de trabalho e deleite

Hoje fui à biblioteca de manhã e obtive bons resultados. Com isso, acho que agora acabei a apresentação, vamos deixá-la descansando um ou dois dias para ver se há mais alguma revisão. Amanhã vou almoçar na Lídia, então vou ficar fora o dia todo mesmo. E na segunda volto à BNP para copiar algumas coisas.


Ah! Hoje também foi dia de arroz integral. Quando saí da biblioteca, fui almoçar no Tao, um vegetariano honestíssimo lá na Baixa que eu ainda não tinha revisitado. Um outro que costumava frequentar parece que fechou, o Mega Vega. Uma pena! Parece que a crise chegou aos vegans também...

Como estava perto da Alfama, fui dar uma andada por esse bairro pitoresco que fica ao pé do Castelo de São Jorge, região muito citada pelo Saramago no seu A história do cerco de Lisboa. Era lá que morava o revisor Raimundo Silva, que, num lance inusitado da vida, vira autor:
 
Uma rua na Alfama (o Tejo ao fundo), o bairro mais antigo da cidade.

Esse livro conta uma história linda e caótica, na qual eu me reconheço deveras. Isso sem falar as viagens no tempo (do século XII para o XX e vice-versa) e os passeios pelas ruas lisboetas. Foi legal voltar a andar por aquelas ruas depois de ter lido o livro. Quando o li, tinha acabado de voltar de Lisboa, então estava entranhada de clima alfacinha, o que também foi muito giro.

Lembro que não conseguia parar de chorar quando acabei de ler o capítulo em que o Raimundo Silva e a Maria Sara se declaram um para o outro, pelo telefone, da maneira mais direta, madura e autêntica que eu jamais vi. Nada de rodeios, romantismos baratos e clichês. Eram duas pessoas maduras que se descobriam amando, desejando, sonhando, fabulando. Tudo isso entretecido com a aproximação de Mogueime e Ouroana na Lisboa moura de Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.



Essa estátua do D. Afonso Henriques está lá no Castelo de São Jorge:




Para finalizar, agora à noite Dona Rosa assou umas castanhas e fizemos a festa por aqui.


P.S. E já que falamos em viagem no tempo, as fotos que ilustram este post foram tiradas em 2008.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

119 - Voltando à Biblioteca Nacional de Portugal

Hoje voltei à BNP depois de quase três anos. Durante o meu estágio doutoral em 2008, a maior parte do meu trabalho foi feita nessa biblioteca. Tive apenas que renovar o cartão de leitora e rapidamente lá estava eu novamente sentada naquela ampla e confortável sala de leitura com cinco livros à minha volta. Mais uma viagem no tempo. Só não foi repeteco total porque hoje não estava à cata de nenhuma tradução do Tetrabiblos nem de nenhum outro texto astrológico antigo. Fui procurar o Livro da Montaria, de D. João I, rei de Portugal entre 1385 e 1433. Nesse livro é mencionado um personagem importante sobre o qual vou falar na próxima quarta-feira no congresso em Coimbra: o astrólogo João Gil, que suponho ter traduzido a versão castelhana do Tetrabiblos que encontrei na Biblioteca Nacional de España (BNE) há três anos. Falei desse texto do D. João na minha tese, mas não cheguei a ver o livro. Hoje fui completar esse trabalho, vasculhando cada página da obra para ver todas as referências que me interessavam. Encontrei um bom material em que o rei dá uma aula de astrologia, aparentemente com base no Tetrabiblos. Amanhã volto lá para copiar isso e analisar melhor o conteúdo. Depois coloco aqui a versão final da apresentação, caso alguém queira ver.

No fim do dia, saí da biblioteca e fui à cinemateca, coisa que também costumava fazer muito há três anos. Assisti a um filme do Werner Herzog que conta a história de um lendário bandido brasileiro do século XIX metido com tráfico de escravos que vai parar na África: Cobra Verde, de 1987. Parece título de ficção científica, mas não é, trata-se simplesmente do último filme da parceria Herzog-Kinski, penúltimo do Klaus Kinski, que morreu alguns anos depois. Até o José Lewgoy participa da película no papel canalha de um senhor de escravos. O filme é forte (pois mostra atrocidades escravocratas), tem suas bizarrices (como a dublagem e o fato de todo o mundo falar inglês), mostra um homem que vive no limite entre a pura potência e a autodestruição, mas tem também belas cenas (como a das mulheres africanas cantando no final) e boas tiradas históricas (como a hipocrisia das relações entre países que já haviam abolido a escravidão e os que ainda eram escravocratas) e existenciais (como a consciência que o Cobra Verde tinha de que o que fazia não era certo ou errado, mas sim um crime). Tem uma hora, quando o seu destino já está mais ou menos traçado, que ele fala algo como: "finalmente alguma coisa diferente vai acontecer". Até então, ele tinha se imposto sem dificuldade, transformando-se no mal encarnado; agora, o "diferente" é que aqueles que foram explorados e estavam sob seu mando, serão os responsáveis pelo seu fim, assim como ele havia feito no início da construção da sua lenda.