A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
domingo, 28 de maio de 2017
189 - Tradução dos três primeiros capítulos do Tetrabiblos
Clique aqui para ver a tradução dos três primeiros capítulos do Tetrabiblos (tem uma versão comentada e uma sem comentários). Essa publicação tão esperada é fruto de um trabalho de 10 anos que fiz com o Marcus e do qual nos orgulhamos deveras. Parabéns para a gente!!! Em breve esse material sairá em livro, junto com os estudos que fizemos sobre a obra de Ptolomeu e as cosmologias antigas. Vale lembrar que, por incrível que pareça, este é o primeiro texto de Ptolomeu traduzido direto do grego para o português.
sábado, 27 de maio de 2017
188 - De volta a Madri 5
Ainda deu tempo de voltar à Casa Lope de Vega, refazer a excelente visita guiada e depois ver as exposições temporárias sobre a sua cenografia teatral e da obra convidada, Retrato de Lope de Vega, do Museu Lázaro Galdiano. Veja, abaixo, um vídeo sobre o espaço, que curiosamente é na Calle Cervantes:
Depois do almoço fui ao Museu do Prado pensando que ia morrer em 15 euros (desisti dos horários gratuitos porque as filas são enormes e o tempo de visita curtíssimo), mas, quando cheguei na bilheteria, vi que professores entram de graça. Uma maravilha, foi só dar uma carteirada e lá estava eu diante de coisas como o Jardim das delícias e a Mesa dos pecados capitais, do Bosch (El Bosco para os espanhóis); O cardeal, do Rafael; os Saturnos de Goya e Rubens; os diversos São Jerônimos, inclusive do El Greco; O colosso, que, até 2008, se achava que era do Goya, mas que, na verdade, é de um seguidor dele; o Sísifo, do Tiziano, e, claro, As meninas, As fiandeiras, entre outras do Velásquez; tudo isso e muito mais coisas que me (re)encantaram. Definitivamente, acho que Goya impera solene em termos de quantidade, mas confesso que gosto mesmo da fase dele das chamadas pinturas negras, que estão todas lá no Prado. De quebra ainda vi a exposição temporária, Tesouros da Sociedade Hispânica da América, instituição criada nos EUA por um colecionador americano, Archer Huntington (1870-1955), que conta com um acervo variado de quadros, esculturas, livros, documentos espanhóis, mexicanos e de outras origens hispânicas, das mais variadas épocas. Veja, abaixo, um vídeo do museu:
Este é um dos pássaros mais comuns em Madri, Urraca, que é a coisa mais linda (aqui consegui fotografar uma dessas criaturas num dos jardins do museu):
Ainda deu tempo para uma despedida ao pé do Lorca na Plaza Santa Ana, que fica ao lado do hotel:
Até breve, minha amiga!
Às 10 da noite já estava na minha cabine do trem a caminho de Lisboa. Era para chegar às 7 e meia da manhã, mas a viagem atrasou 5 horas. O lado bom da coisa é que, enquanto o trem estava parado na fronteira entre Portugal e Espanha (esperando o trem que vinha de Hendaye, daí o atraso), dormi que nem um anjo, coisa que não teria conseguido fazer com ele andando. É isso aí! Agora é começar a semana de despedidas de Lisboa.
Daqui a uma semana volto para o Rio.
187 - De volta a Madri 4
Para além do circuito Prado-Reina Sofia-Thyssen, que são os três principais museus da cidade (todos ao redor do Barrio de las Letras e do Paseo del Prado), há outros espaços culturais nessa mesma área, como o relativamente novo CaixaForum. Parecido com o nosso CCBB e o Culturgest em Portugal, é uma iniciativa de banco, no caso o La Caixa. Clique aqui para ver o site do local. A foto aí em cima mostra o jardim vertical e a fachada do prédio, uma obra arquitetônica moderníssima sobre uma velha estação elétrica abandonada. Diz a Elena que a construção é sem pilares, daí a impressão de que o prédio flutua no ar.
Vi lá três exposições, Tierra de sueños, Ramon Casas: la modernidad anhelada e - a que eu mais gostei - Arte y cine: 120 años de intercambios. Adorei ver as mais diversas relações construídas entre arte e cinema, rever trechos de velhos e deliciosos filmes, e descobrir coisas como: David Lynch também é pintor; há um filme chamado Le mystère Picasso, de Clouzot (1955), do qual vi cerca de 6 minutos, que parece ser um desafio ao artista, mostrando, num tempo limitado e cronometrado, Picasso fazendo seu trabalhinho misterioso; La nostra Marilyn, de Dalí; a colaboração Hitchcock-Dalí no filme Spellbound (o que são aqueles olhos?); entre várias outras coisas.
Foto capturada no site TodoColección
Veja aqui a cena do filme do Hitchcock:
E aqui a sequência inicial dos mistérios de Picasso:
Depois ainda fui ao Reina Sofia no horário grátis (das 19h às 21h) e consegui (re)ver algumas coisas, como - claro! - o Guernica e a exposição Piedad y terror en Picasso. Mas o tempo era curto e comecei com a exposição temporária Art e Liberté: ruptura, guerra y surrealismo en Egipto (1938-1948), que me tomou quase o tempo todo. Muito giro conhecer esse grupo "Art e Liberté" que produziu deveras no Cairo durante a segunda guerra. Há toda uma discussão sobre um novo tipo de surrealismo, o "realismo subjetivo".
Sem título, Ramses Younan (1939). Foto capturada no site do museu.
Para fechar a noite, ainda tomei um copo com Elena e Tom, que depois ainda me levaram para ver uma bela vista de Madri, no terraço do El Corte Inglés.
sexta-feira, 26 de maio de 2017
186 - De volta a Madri 3
Euzinha e o Palácio de Cristal ao fundo.
Olhem que coisa mais linda de perto também:
E agora lá dentro, onde estava rolando uma pertinente exposição sobre os trânsitos do sol.
Quando saí (por um lado diferente do que entrei), achei a Cuesta de Moyano, uma rua de pedestre bem na saída do parque, onde rola diariamente uma feira de livros e, no final, uma feira de artesanatos, roupas orientais, doces, comidinhas etc. Como estou proibida de comprar livros, pois já comprei demais, fiquei só olhando de longe:
Além disso, hoje começou a Feira do Livro de Madri, no Parque do Retiro, vi a malta preparando o espaço. Pelo que soube, Portugal vai ser o país homenageado, o presidente deve ter ido lá inaugurar a feira.
Aliás, a quantidade de livrarias e alfarrábios, além de muita literatura à solta pelas ruas do Bairro das Letras, é um assombro. Há também galerias de arte, lojas, cafés, bares e restaurantes ótimos. Muita coisa para turista, é vero, mas muita coisa dos locais também, como os veganos, por exemplo, ou o Caixa Fórum, espaço do qual falarei em breve. Vi também várias vezes excursões de escolas pelos espaços culturais, históricos e pelas ruas do bairro. Muito giro ver a meninada animada nesses lugares, tendo suas aulas de história, literatura, ou seja lá o que for, a céu aberto. Eu estava como eles, totalmente disponível para esse aprendizado.
A noitada foi no clube de jazz Clamores, perto da estação Bilbao do metro. Tive o privilégio de testemunhar o último show da turnê de John Patitucci com seu quarteto, que, além dele no baixo, conta com duas guitarras e um batera. Além de músicas de sua autoria, ele mandou clássicos de Monk e King de arrepiar os cabelos. Para quem nunca viu ou ouviu falar, uma canja do youtube com o moço e sua trupe em Oslo um pouquinho antes de irem a Madri:
Ano passado no Japão:
E no Festival de Jazz de Monterey:
185 - De volta a Madri 2
Fachada do Museu Thyssen-Bornemisza (foto capturada no site do museu)
Não dá para ver direito, mas o olho dele é branco, sinistríssimo, total walking dead.
Mas o que mais me encantou foi ver um Kandinsky que eu não conhecia ou não me lembrava, como o Ludwigskirche em Munique, de 1908, ou o Pintura com três manchas, de 1914. Clique aqui para ver o acervo do museu. Muito giro! Um privilégio poder ver e rever essas coisas todas.
Nesse dia almocei no restaurante vegetariano La Biotika. No dia anterior almocei no Rayén; no dia seguinte, no Reineta; e, nos dois últimos dias, no Tiyoweh. Todos excelentes, com prato do dia e estilo vegano gourmet, até o mais simples deles, o La Biotika, que também é o mais barato. Nenhum deles carrega no curry tão característico dos vegetarianos portugueses, e todos prezam a qualidade de vida. O Rayén é o mais caro, e o Tiyoweh foi o que me pareceu a melhor relação custo-benefício. Paguei 11 euros no prato do dia com bebida e sobremesa incluídas, e o ambiente é muitíssimo agradável.
Mais tarde encontrei com meus amigos na Porta do Sol, e fomos de novo à Alhambra encontrar um amigo deles, o Alejandro, professor de filosofia nos EUA, mas que faz seu doutorado em Madri. Gente boníssima esse velho amigo da minha amiga, que, sobre dar aula de filosofia para os gringos, diz: "hay que adaptarse!" Vejam só a camiseta feminista dele:
A foto não está lá essas coisas, mas o escrito é o seguinte:
"This is what a feminist looks like."
E como espanhol que se preze precisa salir de marcha, nessa foto já estávamos num outro bar, onde fomos comer (pasmem!) oreja de puerco y pimentos. A saideira foi num terceiro bar na Plaza Tirso de Molina. Claro que fiquei borracha, mas tudo bem.
184 - De volta a Madri 1
Como de costume, fui de trem noturno, agora com direito a banheiro na cabine, super primeira classe que eu mereço. O bizarro é que não tem internet no trem, mas tudo bem. Apesar de não conseguir dormir com o barulho e o balanço, tenho várias coisas para fazer com o meu tablet e as minhas ideias no escuro de uma noite insone.
Fiquei no mesmo hotel que da outra vez, no maravilhoso Barrio de las Letras, bem no centro dessa cidade que pulsa em torno de um coração duplo, a Plaza Mayor e a Puerta del Sol, que são praticamente uma ao lado da outra. Encontrei com Elena e Tom, conterrâneo querido que conquistou o coração da minha amiga já há alguns anos, na Plaza Mayor. Vejam a alegria do reencontro depois de cinco anos:
Dali fomos andando até o teleférico que nos leva para um enorme parque chamado Casa de Campo, o pulmão de Madri. Não saquei fotos, mas segue uma vista aérea que capturei numa matéria do El País (clique aqui para ver a matéria):
A propósito, acho que já falei isto, mas andar é um dos "esportes" das minhas amigas em Madri e Lisboa. Tanto Elena quanto Teresa fazem tudo o que podem a pé. Eu diria que é um hábito relativamente comum entre madrilenhos e lisboetas que vivem no centro, afinal, como no Rio, andar de carro em ruas pequenas, históricas e apinhadas de gente é, no mínimo, programa de índio. Na verdade, para mim, andar de carro é programa de índio, ponto. Mas, infelizmente, quando o transporte público não dá conta (como é o nosso caso), fica difícil. Claro que, quando não dá, vai-se de metro, que também, diga-se de passagem, é excelente em ambas as cidades, atendendo muito bem às necessidades das pessoas, sendo que, em Madri, a rede é muito maior. Vejam as fotos do teleférico, total novidade para mim:
E lá de cima, pela primeira vez, vi o rio central de Madri, o Manzanares:
Ao fundo o Palácio Real (por incrível que pareça, e apesar da esquerda, do Podemos, dos indignados e da vanguarda em várias questões, lá ainda há uma monarquia!):
Andamos pelo parque até encontrar um casal de amigos da Elena e do Tom, que estavam ali com seus filhos. Tomamos um copo ao pé do lago, batendo papo, depois as crianças ainda brincaram no parquinho ao lado enquanto o papo continuava e, mais tarde (lá só anoitece às 22h, pois, além do horário de verão, tem uma hora de diferença em relação a Lisboa), pegamos o metro de volta para o centro, onde finalizamos a noite na taberna Parrilla Alhambra, onde tomei meu tinto de verano da temporada:
Tintim brasileño en Madrid comendo una parrilla argentina num sítio chamado Alhambra!
sábado, 20 de maio de 2017
183 - Pátio da Cerveja na Lx Factory
Ontem fui conhecer este espaço moderninho da cidade, a Lx Factory, que está recebendo uma festa da cerveja. O lugar é giro, bem embaixo da Ponte 25 de Abril. Guardadas as devidas proporções, lembra a Fábrica da Bhering no Rio, que recentemente se transformou num point cultural alternativo. Lojas, restaurantes e bares se misturam com comércio de rua e food trucks, além de espaços de arte, cursos, escritórios coletivos, galerias, tatuagens, música... E que livraria é aquela numa ex-tipografia? Chama-se Ler Devagar. Vale a pena visitar, e ontem fomos lá conferir:
Tintim com cerveja artesanal alentejana!
Depois rolou cerveja de Lisboa, mais uma alentejana e, quando sentamos para comer qualquer coisa, ainda provamos esta Coruja Branca:
Agora estou me organizando para ir a Madri. Não vou levar o computador, então só volto a escrever daqui a uma semana. Hasta la vista, baby!
quinta-feira, 18 de maio de 2017
182 - Darwin, Antero de Quental e o pavão branco
Antero de Quental (1842-1891) retratado por Almada Negreiros (1943)
- Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX (1890): uma história crítica da filosofia e da ciência, na qual Antero apelida o panorama cultural português de "caverna do esquecimento";
- Causas da decadência dos povos peninsulares (1871): discurso proferido nas conferências democráticas que identifica três grandes causas da decadência no âmbito do pensamento, da política e do trabalho, respectivamente, o catolicismo trentino, o absolutismo e as conquistas longínquas;
- O que é a Internacional (1871): texto didático-panfletário que contém as seguintes seções: "O socialismo contemporâneo", "O programa da Internacional" e "Organização da Internacional";
- Bom senso e bom gosto (1865): controvérsia com várias pessoas em textos diversos sobre a escola literária de Coimbra, que se desdobra numa reflexão mais ampla sobre a questão literária;
- A indiferença em política (1862): texto sobre a liberdade e contra a reação e os reacionários;
- Sobre traduções (1860): belo texto que fala da impossibilidade da tradução, dando exemplos e refletindo sobre o problema.
Uma das várias gratas surpresas que tive em Lisboa com a minha pesquisa foi descobrir que o Antero de Quental - autor do qual, confesso, nunca havia lido nada - se inscreve na história da recepção de Darwin em Portugal. Isso me foi revelado logo nas primeiras leituras que fiz na BNP, já mencionadas aqui. Boa desculpa para explorar a obra desse moço que, além de poesia, produziu muita prosa. E mais, seu esforço foi sempre no sentido de conciliar metafísica e ciência. Segundo Ana Leonor Pereira (2001, p. 17): "Se o poeta filósofo não é toda a filosofia portuguesa, entre 1865 e 1914, a verdade é que ele foi o único que lutou pela salvação filosófica da ciência, em particular, da teoria científica da evolução."
Então mãos à obra. Quando terminei tudo o que tinha planejado fazer, resolvi conhecer um pouco mais sobre esse poeta, tradutor, filósofo e revolucionário, que flertava com o liberalismo e o positivismo, era evolucionista, e viveu uma vida intensa, produtiva e atormentada até se matar aos 49 anos de idade. Acho que isso ainda dá muito pano para manga, mas vejam só alguns títulos (com ortografia atualizada) que me chamaram a atenção e sobre os quais me debrucei:
- A filosofia da natureza dos naturalistas (1894): neste texto fica claro que, para Antero, evolução é sinônimo de progresso e implica uma finalidade, mas me parece estar longe de ser uma simplificação à la Spencer, merece um aprofundamento maior; clique aqui para ver o PDF na BNP;
- Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX (1890): uma história crítica da filosofia e da ciência, na qual Antero apelida o panorama cultural português de "caverna do esquecimento";
- Causas da decadência dos povos peninsulares (1871): discurso proferido nas conferências democráticas que identifica três grandes causas da decadência no âmbito do pensamento, da política e do trabalho, respectivamente, o catolicismo trentino, o absolutismo e as conquistas longínquas;
- O que é a Internacional (1871): texto didático-panfletário que contém as seguintes seções: "O socialismo contemporâneo", "O programa da Internacional" e "Organização da Internacional";
- Bom senso e bom gosto (1865): controvérsia com várias pessoas em textos diversos sobre a escola literária de Coimbra, que se desdobra numa reflexão mais ampla sobre a questão literária;
- A indiferença em política (1862): texto sobre a liberdade e contra a reação e os reacionários;
- Sobre traduções (1860): belo texto que fala da impossibilidade da tradução, dando exemplos e refletindo sobre o problema.
Antero de Quental pintado por Columbano Bordalo Pinheiro em 1889
Há uma coletânea da obra filosófica de Antero de Quental, organizada por Joel Serrão e publicada em 1989. São 10 textos escritos de 1860 a 1890, alguns já citados acima:
1. Na sentida morte do meu condiscípulo e amigo Martinho José Raposo;
2. A bíblia da humanidade de Michelet;
3. O sentimento da imortalidade;
4. Arte e verdade - I. Caráter positivo da arte;
5. Espontaneidade;
6. O futuro da música;
7. Programa para os trabalhos da geração nova (1871-1875);
8. Ensaio sobre as bases filosóficas da moral ou da filosofia da liberdade;
9. A filosofia da natureza dos naturalistas;
10. Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX.
Alguns comentadores que li ou dei uma passada d´olhos:
CATROGA, Fernando. A ideia de evolução em Antero de Quental. Separata de Biblos, 56, Coimbra, p. 357-388; homenagem a Joaquim de Carvalho, 1981.
COIMBRA, Leonardo. O pensamento filosófico de Antero de Quental. Lisboa: Guimarães Editores, 1991 [1921].
FERNANDES, José Manuel Guerreiro. A ideia de natureza em Antero de Quental. Dissertação de Mestrado em Filosofia da Natureza e do Ambiente. Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, 2004.
COIMBRA, Leonardo. O pensamento filosófico de Antero de Quental. Lisboa: Guimarães Editores, 1991 [1921].
FERNANDES, José Manuel Guerreiro. A ideia de natureza em Antero de Quental. Dissertação de Mestrado em Filosofia da Natureza e do Ambiente. Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, 2004.
TAVARES, Manuel; FERRO, Mário. O pensamento de Antero de Quental. Lisboa: Editorial Presença, 1995.
quarta-feira, 17 de maio de 2017
181 - Graça, Saramago e Preminger
Taí a vista do Castelo a partir do Miradouro da Graça, que eu estava devendo desde o dia em que passei por lá à noite com Teresa e Carolino, como se pode ver aqui:
Nesta, com zoom, dá para ver melhor a Ponte 25 de Abril ao fundo;
no meio, o Convento do Carmo e, um pouquinho à esquerda, com esforço, dá para ver o Elevador da Santa Justa. De lá, tirei fotos para cá em dezembro de 2008, como se pode ver aqui.
Foi uma manhã de subidas e descidas pelas ruas da Mouraria, do Castelo, da Alfama e da Graça. Já estava precisando de sombra e água fresca quando cheguei na Casa dos Bicos, onde hoje se encontra a Fundação José Saramago:
Ela já havia sido fotografada por mim em 2008, antes de ser o sítio da fundação:
A região hoje está toda em obra, então a oliveira que abriga as cinzas do Saramago está rodeada de grades, tratores e coisas afins:
Mas com um escrito no chão lembrando que ele está ali:
"Mas não subiu para as estrelas se à terra pertencia"
A "casa" do Saramago, assim como a do Pessoa ontem, é cheia de escritos dele pelas paredes e por todos os cantos, o que me fez me sentir em casa. Olhem só a escada que gira:
E o close num trecho feminista:
Saí dali, fui almoçar no Tao, passei no Mercado da Figueira e segui para a Cinemateca, onde está rolando um ciclo sobre Otto Preminger, diretor que não conhecia, mas que tem vários filmes giros, como o que vi hoje, Daisy Kenyon (Entre o amor e o ódio), de 1947, com Joan Crawford, Dana Andrews e Henry Fonda. Acho que dá para vê-lo todo no Youtube, mas segue abaixo o trailer desse filme sobre um triângulo amoroso deveras civilizado:
terça-feira, 16 de maio de 2017
180 - Cronologia da Origem em Portugal
Olhem que capa mais linda!
Não faço a menor ideia de que edição seja esta.
Se alguém descobrir, por favor entre em contato.
1877 - Tradução de um pequeno trecho do capítulo 3 da Origem por Teófilo Braga em seu livro Traços gerais de filosofia positiva (sem informação se foi direto do inglês);
1882 - Tradução (do inglês) de vários trechos da Origem em artigos científicos de Francisco de Arruda Furtado, que também era correspondente de Darwin;
1886 - Tradução de uma seção inteira - "O instinto escravagista das formigas" - do capítulo 8 da Origem por tradutor anônimo no jornal O Povo de Aveiro (sem informação se foi direto do inglês);
1913 - Tradução completa da Origem (sexta edição), a partir de uma tradução francesa, feita por Joaquim Dá Mesquita Paul e publicada pela Livraria Chardon, de Lelo e Irmão (depois Lello & Irmão);
1939 - Tradução dos dois primeiros capítulos da Origem por Lobo Vilela em seu livro Seleção artificial (sem informação se foi direto do inglês);
2005 - Primeira tradução portuguesa completa da Origem feita diretamente do inglês (primeira edição) por Dora Batista para as Publicações Europa-América;
2007 - Tradução dos capítulos 3, 4, 6 e parte final do último, feita por Susana Almeida para a Editora Coisas de Ler (sem informação se foi direto do inglês);
2009 - Reedição revisada por João Arrepia da tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul feita por Lello Editores;
2009 - Tradução completa da Origem diretamente do inglês (sexta edição), feita por Ana Afonso para a Editora Planeta Vivo (atual Editora Exclamação)
2009 - Tradução completa da Origem diretamente do inglês (primeira edição), feita por Vítor Guerreiro para a Editora Guimarães (saiu também pela Círculo de Leitores);
2011 - Publicação da mesma tradução do Vítor Guerreiro pela Editora Verbo-Babel.
179 - Machado na casa do Pessoa
Depois de uma maratona de cinema independente do IndieLisboa, que terminou no domingo (vi o francês Femmes, Femmes, do homenageado Paul Vecchiali - que estava presente! -; o português Amor, Amor, de Jorge Cramez; e o belíssimo documentário norueguês/dinamarquês Venus, de Lea Glob e Mette Albrechtesen, que fala abertamente sobre a sexualidade feminina por meio dos depoimentos de várias mulheres), trabalhei um bocado na segunda e acabei dando aula com o Ricardo na turma dele de mestrado em história da ciência. Foi giro! Darwin está rendendo deveras por aqui.
A cereja do bolo, no entanto, foi a jornada Machado de Assis e a ideia de ficção, que ocorreu na Casa Fernando Pessoa, da qual acabei de chegar. Já estive lá em 2009, mas o espaço estava fechado, como se pode ver aqui. Também já tinha ido a um evento sobre Machado na Calouste Gulbenkian em 2008, devidamente registrado aqui. Veja a foto que a Dani tirou de mim hoje no hall de entrada, ao pé do mapa astrológico do moço:
O evento foi durante a tarde toda, mas só vi a primeira mesa, que foi bem gira. Falaram a Estela Vieira, o Amândio Reis e a Clara Rowland, respectivamente sobre "Leitoras e interlocutoras de Machado de Assis", "Tomar à letra em dois contos de Machado de Assis" e "Autor perdulário, ideia parricida: reconhecimento e autoria em Machado de Assis". Claro que é sempre bom ouvir sobre livros, contos e personagens criados pelo bruxo do Cosme Velho, mas gostei sobretudo da última comunicação, que, além de ter sido assaz criativa (aproximou o conto "Anel de Polícrates" do filme Design for living do Lubitsch), tratou de questões que andei estudando recentemente para escrever o meu artigo sobre autoria científica.
Para fechar, trechos de dois filmes que vi no IndieLisboa, Femmes, Femmes (Vecchiali, 1974) e Venus (Glob e Albrechtesen, 2016):
A cereja do bolo, no entanto, foi a jornada Machado de Assis e a ideia de ficção, que ocorreu na Casa Fernando Pessoa, da qual acabei de chegar. Já estive lá em 2009, mas o espaço estava fechado, como se pode ver aqui. Também já tinha ido a um evento sobre Machado na Calouste Gulbenkian em 2008, devidamente registrado aqui. Veja a foto que a Dani tirou de mim hoje no hall de entrada, ao pé do mapa astrológico do moço:
Legal o mapa estampado logo na entrada da casa, né? Vejam abaixo com mais detalhes:
O evento foi durante a tarde toda, mas só vi a primeira mesa, que foi bem gira. Falaram a Estela Vieira, o Amândio Reis e a Clara Rowland, respectivamente sobre "Leitoras e interlocutoras de Machado de Assis", "Tomar à letra em dois contos de Machado de Assis" e "Autor perdulário, ideia parricida: reconhecimento e autoria em Machado de Assis". Claro que é sempre bom ouvir sobre livros, contos e personagens criados pelo bruxo do Cosme Velho, mas gostei sobretudo da última comunicação, que, além de ter sido assaz criativa (aproximou o conto "Anel de Polícrates" do filme Design for living do Lubitsch), tratou de questões que andei estudando recentemente para escrever o meu artigo sobre autoria científica.
Para fechar, trechos de dois filmes que vi no IndieLisboa, Femmes, Femmes (Vecchiali, 1974) e Venus (Glob e Albrechtesen, 2016):
quarta-feira, 10 de maio de 2017
178 - Almada e amigos
Domingo é dia de museu Calouste Gulbenkian! E que exposição!
Este é um dos seus vários autorretratos (capturado no site do museu), que, aliás, foi uma das coisas que me chamou muito a atenção. Como alguém consegue se retratar das formas mais variadas e com tanta convicção? E que olhos! Adorei todos esses retratos.
E olhem o moço peladão em plenos anos 1920, vanguarda total.
Adorei também o ecletismo (como enquadrá-lo num estilo?), a polivalência (fez de tudo: pintura, cinema, literatura etc.), a liberdade e o humor desse artista maravilhoso, com amigos maravilhosos (Pessoa e Lorca, só para citar dois que eu amo) e que, segundo consta, adorava fazer escândalo em público. Já pensou?
E, de quebra, ainda há jazz:
Painel no Cine São São Carlos em Madri
Fonte das imagens acima: site Comunidade Cultura e Arte
Para finalizar esse belo dia de alegrias almadas, um brinde com os amigos numa pastelaria na Praça da Figueira:
Julia (filha do Paulinho, amigão do Pedro) e Dani
Meu velho amigo Carlos e eu. Há exatos 32 anos estudávamos na Ence e voltávamos juntos de 410, compartilhando nossas vidas adolescentes, nossos sonhos e dores do crescimento. Isso quando não matávamos aula para jogar vôlei, fazer um som ou bater papo no grêmio da escola. "Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não."
177 - IndieLisboa e Arco do Cego

Clique aqui para ver a programação gira.
No sábado passado saí cedo para ver duas sessões do festival no Culturgest: os documentários A construção da Villa Além + Avant l´envol (clique aqui para ver as sinopses) e Dia 32, de André Valentim Almeida (clique aqui para ver a sinopse). Os dois primeiros, um português e o outro suíço, são filmes de arquiteto, mas bem diferentes entre si. Sinceramente, ambos talvez sejam considerados filmaços pela crítica, não sei, mas o fato é que não gostei muito, apesar de reconhecer a beleza nas suas especificidades (um mostra a construção de uma casa no Alentejo, e o outro, a monumentalidade bizarra na Costa do Marfim).
Já o Dia 32 me encantou, um documentário poético com tema apocalíptico. Achei a coisa mais linda o relato de alguém que, diante da tomada de consciência da impermanência e do seu compromisso com a humanidade, resolve fazer uma arca de imagens, à la Noé. Enquanto acompanhava a sua jornada em busca de imagens que não poderiam ficar de fora dessa arca, fui brindada com várias referências filosóficas, literárias e científicas, com direito à imagem de um saudoso Carl Sagan versão anos 1980.
Mas, como cheguei e comprei os ingressos cedo, fui andar nos arredores (o Culturgest fica no Campo Pequeno) e achei mais um pequeno bairro simpaticíssimo desta cidade que eu amo de paixão: o Arco do Cego. Vejam as imagens:
O bairro, projetado para habitação social, foi inaugurado nos anos 1930.
Sentei na praça da escola e fiquei vendo o tempo passar. Ao fundo, o prédio da Caixa Geral de Depósitos, onde funciona o Culturgest. O maior contraste.
Aqui o contraste mais de perto.
Mais da paisagem desfrutada no banquinho da praça.
À direita, com esforço, vê-se o letreiro de uma das instalações do Arquivo Municipal de Lisboa.
Segui até aqueles arcos do prédio da Caixa.
Embaixo desse arco, no chão, dá para ver os círculos concêntricos. Fiquei no meio deles e olhei para cima, onde se encontram estes belos círculos coloridos (espelhados no chão):
Segui por aqui para a minha sessão de cinema, passando embaixo desses arcos em torno do prédio.
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