domingo, 30 de novembro de 2008

62 - De volta a Lisboa

Lisboa, 30 de novembro de 2008.

De volta à minha língua! Esta foi a primeira coisa que disse ao pisar novamente em terras lisboetas. Ainda não à minha terra, mas pelo menos à minha língua. Novamente Chomsky com o seu "a língua é uma bandeira no mapa" fez todo o sentido. Nunca pensei que fosse sentir tanta saudade de dizer "saudade", porque "echar de menos" é bizarro, fala sério. E nesta última semana só conseguia abrir a boca para querer dizer "saudade", mas tinha que rolar um "echar de menos" mesmo, porque era saudade de tudo: de casa, dos amigos, da família, da comida (nunca comi tanta carne em toda a minha vida!), do Pedro... Caraca! Tô com saudades do Rio, do Brasil, nunca imaginei que isso fosse acontecer. Tô com saudade dos nossos problemas, de tentar fazer alguma coisa por eles. Na semana passada, para exercitar o condicional, a professora de espanhol perguntou se ficaríamos na Espanha. Não pensei duas vezes e mandei logo um retumbante NÃO. Todo mundo abriu uns olhos enormes, especialmente os brasileiros da turma (capítulo à parte nesta experiência, nunca imaginei que os brasileiros pudessem ser tão desinteressantes em terras estrangeiras). E com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada, disse: "echo de menos mí casa, mí familia, mí novio, mis amigos, mí ciudad, mí Brasil, pues ya se pasan 4 meses y todavía tengo 2, no imaginaba que eso pudiese ser tan fuerte". Tudo bem que a TPM falava por mim, mas agora que os hormônios se equilibraram, continuo sentindo saudade, principalmente porque ainda estou no clima de viagem, malas, encontros e despedidas, já que cheguei ontem, depois de encarar 7 horas desconfortáveis num trem de Salamanca para Lisboa, aguentando uma espanhola tagarela que era a cara e o jeito da minha tia Adriana, ou seja, inconveniente. Além de falar pelos cotovelos e rir como uma hiena, me falava coisas de sua vida pessoal que realmente não me interessavam nada, mas fazer o quê, né? Nem o livro nas minhas mãos servia de barreira. Ela só parou de falar quando conseguiu cair no sono, mas aí começou a roncar... Ai, ai, ai, ninguém merece... Mas tudo bem, voltei a Lisboa - última parada antes de a Caravela Cruzeiro do Sul retornar ao seu porto seguro -, fui recebida de braços abertos por Dona Rosa, que conseguiu organizar as coisas por aqui para eu ficar no meu quarto quentinho, e também já estou louca para comer pastéis de nata (tinha esquecido completamente deles, como sou volúvel, troquei-os facilmente pelo chocolate com churros). De fato, aqui me sinto muito bem, pois Lisboa é a cara do Rio, e na residência levo uma vida mais parecida com a minha vida real. Não que as coisas em Salamanca não fossem muito boas também, mas era diferente. Além da língua - que nem é tão diferente assim, pois conseguia conversar sobre tudo que se possa imaginar com todo mundo, especialmente com a Luisa (a Dona Rosa de lá), tanto é que saí de Salamanca também com um carinhoso abraço (ela fez questão de acordar às 4 da matina para se despedir de mim), e ela dizendo que eu posso contar sempre com uma amiga em terras salmantinas -, a minha vida lá era de filhinha de mamãe, ou seja, fazia todas as refeições em casa, com horário predeterminado, ela que servia a gente, aí eu tinha aula a manhã toda, até uma da tarde, depois do almoço, às duas, rolava uma sesta e, em seguida, para mim, muito trabalho nas bibliotecas, livrarias e copiadoras da universidade (trabalhei tanto este mês de novembro que acho que agora vou tirar uma semana de férias, só lendo Proust e coçando o saco). Foi muito bom, experiência nota 10, aproveitei o máximo que pude, conheci muita gente legal (outras nem tanto), nunca vou esquecer este um mês que morei em Salamanca, mas confesso que acabou na hora certa, já estava precisando da minha vida de volta, ainda que aos poucos, primeiro com essa parada de mais dois meses por aqui, onde quero aproveitar para escrever pelo menos um capítulo da minha tese, antes de partir para o abraço já na minha terrinha brasilis. Ah! Hoje também rolou o primeiro café feito por mim na jangada de pedra. É que agora a residência tem uma máquina maneiríssima (antes de eu viajar rolava só uma máquina de ferver água, ou seja, só rolava um capuccino instantâneo), então ontem comprei um café especial e hoje fiz um no capricho. Lá na Espanha tomava café todo dia, mas era a Luisa que fazia. Muito giro! Legal também que quando eu estava na copa, chegou o novo residente, um indiano (não me lembro mais o seu nome, tenho que perguntar de novo), e começamos a conversar (foi difícil soltar o inglês agora, depois de um mês falando espanhol, ontem senti o mesmo quando encontrei o Michael, o camarada chinês). Ele está fazendo um pós-doc em biologia, trabalha direto no laboratório estudando alguma coisa a ver com pólen de flores. Falei para ele também um pouco da minha tese, depois enchi o camarada de perguntas. Queria saber sobre as línguas faladas na Índia, sobre o incidente em Bombaim, sobre religião (ele é muçulmano ortodoxo, mais um monte de perguntas!), astrologia... O cara é biólogo, mas saca muito de história, então a conversa foi bastante esclarecedora.

Eis a Luisa, a fadinha espanhola que cuidou de mim nas terras frias e brumosas de Salamanca. Foto das pentelhas que compartilharam o teto comigo nem pensar... :-)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

61 - Domingo em Salamanca também é dia de museu

Salamanca, 24 de novembro de 2008.

Este foi o meu último fim de semana em Salamanca (volto para Lisboa no sábado que vem) e tentei fazer algumas coisas que ainda não tinha feito e repetir algumas outras que gostei. No sábado, aproveitando o belo dia de sol, apesar do frio, saí por umas bandas que ainda não tinha andado, fui até a Plaza de Toros. Nada demais, o mais interessante foi a pichação "Toreros asesinos". Aliás, é enorme a quantidade de referências taurinas. Terra de Juliana! É Calle Toro, Museu Taurino, Toro Romano, Plaza de Toros... Na frente da Plaza há umas estátuas de toureiros famosos. Saí dali andando, aproveitando para esquentar os ossos (a temperatura subiu bem no meio do dia, deve ter chegado a uns 15 graus!) e acabei encontrando um sebo - ainda não tinha visto nenhum. Entrei e fiquei lá umas duas horas olhando tudo. Muito bom, mas me controlei, porque já estou com uma quantidade enorme de livros comprados aqui (todos absolutamente necessários evidentemente), e acho que a minha missão nesse sentido já está cumprida. Sem falar que esta semana ainda tenho que tirar uma série de cópias na biblioteca... Bem, quando saí do sebo ainda tinha um tempinho até a hora do almoço, então fui perambular pela cidade, mais precisamente na Plaza Mayor, onde aproveitei para observar com calma a "arte na praça" que está rolando por lá, porque normalmente passo correndo para ir de um lado para o outro e acabo não apreciando a coisa. Muito interessante a exposição de enormes esculturas de ferro, que foram colocadas no meio desse espaço privilegiado da cidade. Depois do almoço acabei ficando à toa, fiz a sesta, depois terminei de ler Almanaques, do Eça de Queirós, e organizei meu material de pesquisa. No domingo acordei cedo e fui direto para o Tormes. Caminhei um pouco no Parque Fluvial, andei na Ponte Romana, depois subi pelas vielas da cidade até chegar à Catedral. Resolvi entrar, afinal, ela é tão linda por fora... Ledo engano, por dentro ela é sinistra... e fria, muito fria. Pior, estava começando a missa. Mais sinistro ainda. Que lugar tenebroso, que falação reacionária... Teve uma hora que o padre chegou a falar, citando as escrituras, que a direita que é boa, e a esquerda é o lugar dos pecadores... Pior, era dia de cristo-rei, seja lá o que isso signifique, então a missa era longa... Nem estava me incomodando muito com o péssimo coro e com o falatório sobre a nossa culpa em relação ao moço que morreu na cruz, mas não aguentei quando o cura, para dar conta do amor ao próximo, resolveu detonar "o inferno são os outros" do Sartre (não mencionando seu nome evidentemente, falou em "um pensador contemporâneo"). Depois dessa me retirei e fui direto ao Valor (café e chocolateria que tenho frequentado entre uma aula e outra) me afogar num chocolate com churros (uma das especialidades espanholas). Agora, sim, podia seguir o meu caminho mais tranquilamente, depois dessa experiência desagradável na catedral salmantina. Próxima parada: exposição de relógios antigos "La medida del tiempo". Ah! isso foi muito giro! Fiquei um tempão vendo as diversas variedades de modelos, estilos e engrenagens. Quando vi, o tempo já tinha passado e estava na hora de almoçar. Depois da sesta, saí novamente e fui ao museu de art nouveau da cidade. Pasmem! É isso mesmo! É a Casa Lis, um lugar belíssimo, construído no início do século XX e que abriga o Museo de Art Nouveau y Art Decó da boa e velha Salamanca, um contraste incrível. Não conseguia parar de pensar na mamãe, muita coisa ali é a cara dela, tinha até um palhaço parecido com um que ela já pintara (ou bordara? hehe). Não gostei muito da coleção de bonecas alemãs e francesas, mas, em compensação, as jóias, os artefatos de bronze e as criselefantinas (nome bizarro, nunca tinha ouvido falar, mas são belíssimas pequenas estátuas de marfim e bronze criadas por vários escultores europeus lá pelos anos 20, normalmente representando mulheres). E muito bom também era o som que rolava no ambiente, um jazzinho muito honesto para dar o clima. Falando em jazz, depois fui a um concerto de jazz escandinavo (!). O nome da banda é Tord Gustavsen Trio (piano, baixo e batera). Tirando alguns bons momentos, sinceramente não me entusiasmou. Que bom que eu tinha tomado duas cañas (cervejas) antes, senão ia ser difícil...



Olha o Touro Romano aí, gente! Com a torre da Catedral Velha no fundo.

Não parece a bandeira do Brasil? Ou eu já estou vendo coisas?

Um dos belos relógios da exposição

A ponte romana em destaque num dia de céu azul

Parede de pedra, porta de madeira, lampiões e... dois gatos na soleira...

Pichação na Plaza de Toros

Plaza de Toros
Arte na Rua

Não parece o Darth Vader?

Esta obra se chama Colosso...

E esta, As Meninas... Qualquer semelhança é mera coincidência.

Esta obra sou EU!!! Finalmente uma foto minha na Plaza Mayor de Salamanca!

Quase fui nesta manifestação, mas a preguiça não deixou...
Olha só que boa companhia: a minha sombra.
Euzinha na porta do edifício histórico da USAL. O que importa é a fachada e o céu azul, pode cortar os meus pés! É por esta porta que eu entro todo dia para chegar à biblioteca geral.
A Cova de Salamanca, lugar cheio de mistério da cidade...


Colombo na sua praça.

Esta é a fachada da Clerecía, onde se encontra a PUC de Salamanca. Tudo isso em frente à Casa das Conchas.

Esta é uma parte do claustro da Clerecía, que, curiosa e belamente, fica no alto.

Close numa parte da Catedral Nova (não é linda por fora?)
Vista lateral das duas catedrais (Nova e Velha)
Vista frontal (da Ponte Romana) das catedrais
Casa Lis (não parece que a torre da catedral faz parte dela?)

Entrada da Casa Lis (Museu de Arte Nouveau)

Até que tava quentinho...

Palacio de Anaya, onde funciona a Faculdade de Filologia (descobri recentemente que o tal do Anaya era ligado em astrologia).

sábado, 22 de novembro de 2008

60 - Além de brumas e peruas

Salamanca, 22 de novembro de 2008.

Além de aguentar brumas e peruas, esta semana que passou também fiz coisas interessantes: prestigiei o festival de cinema brasileiro e assisti a uma palestra sobre acaso e tempo. A palestra foi muito legal, o cara - Miguel Casado - parece que é um bambambam da crítica literária, além de ser também um tradutor renomado por essas bandas. A abordagem dele foi entre a poesia e a ciência. Falou de Mallarmé, Prigogine, Bergson, Hackin e Feyerabend, entre muitos outros. Gostei muito, especialmente da discussão que rolou depois, já que tinha gente de literatura, filosofia e ciência participando. Ele encadeou idéias como as de tempo preexistente, e conseqüente desaparecimento das noções de regularidade, causalidade e determinismo, com as de duração, desaparecimento do presente e dos conceitos de obra pura e autor. Falou em "derramamento incessante da linguagem", "acaso em conserva" (Mallarmé) e "ciência como escuta poética da natureza" (Progogine). Saí de lá pensando em Heráclito... Filosofia à parte, a maratona cinematográfica rolou de terça a quinta, e os filmes foram: Os desafinados, Maré e Deserto feliz. O mais curioso é que, só de ver as imagens do Rio e ouvir as músicas brasileiras logo no início dos dois primeiros filmes, já desandei a chorar copiosamente. O que não faz uma TPM fora de casa! Fora isso, diria que o que mais gostei foi o Maré, da Lucia Murat. Os desafinados também é um filme bom, super produção, rola muita música, inclusive um jazz muito legal, além da bossa nova evidentemente, mas é filmão comercial, não aporta grandes coisas. Já o Maré, para além de suas pretensões políticas, é também poesia na forma de imagem e movimento (rola muita dança e canto, às vezes parece até um musical), apesar da violência e dramaticidade da situação abordada (um Romeu e Julieta na Favela da Maré). Muito bom! Já o Deserto feliz se enquadra no rótulo "realidade nua e crua do nordeste brasileiro", com o agravante de mostrar personagens que me parecem vazios, que vão sendo levados por suas vidas de merda, mergulhados no tédio (o olhar de "sem sentido" da protagonista é igual ao da protagonista de um outro filme desse tipo que vi há tempos, O céu de Sueli; aliás, a atriz que fez a Sueli também participa do Deserto feliz), fazendo o que se apresenta e não conseguindo transformar a vida à sua volta, ou seja, cumprindo a previsão. Como ando, junto com os hermanos, dispensando a previsão nos últimos tempos, isso realmente me incomoda um pouco.

O velho e o moço
Los Hermanos

Deixo tudo assim. Não me importo em ver a idade em mim, ouço o que convém. Eu gosto é do gasto. Sei do incômodo e ela tem razão quando vem dizer que eu preciso sim de todo o cuidado. E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria? Ah, tanto faz. Que o que não foi não é. Eu sei que ainda vou voltar... Mas eu quem será? Deixo tudo assim, não me acanho em ver vaidade em mim. Eu digo o que condiz. Eu gosto é do estrago. Sei do escândalo e eles têm razão quando vêm dizer que eu não sei medir nem tempo e nem medo. E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? Ah, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão! Ah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser aceito a condição. Vou levando assim que o acaso é amigo do meu coração quando fala comigo, quando eu sei ouvir...

Para ver e ouvir essa música do Los hermanos:

59 - Conflito de gerações ou algo do gênero

Salamanca, 22 de novembro de 2008.

É muito estranho quando percebemos uma imagem nossa totalmente alienígena nos olhos dos outros. Claro que isso não acontece só com pessoas mais velhas ou mais novas que a gente, ou seja, não se trata exatamente de um conflito de gerações, mas, no caso que tenho experimentado diariamente com "las chicas" que estão compartilhando o mesmo teto comigo aqui em Salamanca, essa deturpação de imagem realmente ganha um tom de conflito de gerações. Logo nos primeiros dias já percebi o problema de lidar especialmente com a arrogância de uma delas. Mas depois de três semanas (só me resta uma por aqui! ai, ai, ai...), a questão se avolumou, porque tenho ouvido coisas nas horas das refeições (as melhores são as que faço sozinha com a Luisa - a dona da casa - ou na rua) que até os deuses duvidariam, sem falar das caras e bocas. De maneira geral tento me calar, mas claro que esta é uma tarefa difícil, então às vezes me vejo obrigada a explicar algumas coisas, como ontem tentei fazer sobre o conceito de diversão, depois de ouvir um monte de asneira saindo da boca de uma chica mimada que acha que sabe tudo. Acho que o que mais as incomoda é a diferença, porque, para me divertir, não preciso encher a cara (aqui se diz "emborracharse") todo dia com um bando de inúteis e peruas (aliás, o índice de peruas jovens estrangeiras por quilômetro quadrado aqui é alarmante, elas estão sempre maquiadíssimas, são capazes de sair nas brumas salmantinas, com um frio de menos 1 grau - para ir à aula de manhã cedo -, de meia-calça, shortinho, botas e casaco de oncinha). Ao contrário, me divirto muito fazendo as minhas coisas, ou seja, desbravando a cidade, indo às aulas, fazendo a minha pesquisa na biblioteca, lendo, escrevendo, ouvindo música, assistindo a um concerto ou filme interessante, viajando, tomando um café com churros ou um copo com tapas no bar, enfim, vivendo a minha vida, sem ter que seguir os supostos parâmetros de comportamento. Tenho pena de quem nunca vai ter a felicidade de realizar um sonho, como eu estou realizando, e a alegria de fazer diariamente alguma coisa de que realmente goste, como eu estou fazendo. No caso delas, o pior é que aparentemente não há sonho.

Temperatura na Calle Toro

Brumas no pátio da universidade

As brumas engoliram a torre da Catedral que deveria estar ao fundo...

Um pouco das brumas salmantinas (esta acima é na Plaza Mayor) e da temperatura (estava marcando menos 1, mas na hora que tirei a foto já tinha subido meio grau), para vocês sentirem o clima da cidade na hora que vou para a aula. Esse fenômeno (aqui eles chamam de "niebla") só acontece de manhã quando a temperatura da madrugada é inferior a zero, o que aconteceu três vezes esta semana. Quem me explicou isso foi a Luísa, que sempre bota um plástico em cima das suas plantas antes de dormir, quando vê a previsão do tempo à noite dizendo que a temperatura da madrugada vai cair assim. Viver tudo isto já é uma grande diversão!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

58 - Impressões de Madri

Salamanca, 19 de novembro de 2008.
Só posso mesmo escrever algumas impressões, porque foi muito pouco tempo: cheguei na sexta à tarde e me mandei no domingo à noite. Gostei da cidade: é bonita, parece organizada, bem servida de transporte e com uma vida cultural repleta. Além disso, o movimento é enorme, as ruas do centro estão sempre cheias, a vida noturna é muito agitada e peculiar (pelo que vi, o espanhol típico se amarra nos seus "tapas", "chupitos", "tascas" e "copos", saindo de um bar para outro, junto com seus amigos, pela noite afora). As avenidas são grandiosas, assim como os edifícios, o metrô é muito bom, mas dá para cobrir boa parte da região central da cidade a pé. Bem, vamos aos fatos: cheguei na Estação Chamartín, peguei o metrô e fui para o hotel. Larguei as coisas lá e fui andando até a Biblioteca Nacional, não via a hora de botar a mão no manuscrito do Tetrabiblos. Já estava escurecendo, então a minha visibilidade era limitada, mas tudo bem, porque a noite tem a sua própria luz. Cheguei ao meu destino e tive que enfrentar o maior sistema de segurança que vi até agora em bibliotecas (esta já é a décima-segunda que piso em terras estrangeiras): para entrar, tive que dar uma satisfação na recepção; depois, passei por um detector de metais como o dos aeroportos, e a minha bolsa na esteira; em seguida, outra recepção, agora para me encaminhar aos armários (para deixar a minha bolsa) e ao guarda-roupas (para deixar o casaco), e para inspecionar o bloco e os documentos (tive que levar documentos para fazer a carteira de pesquisadora, só com isso poderia ter acesso aos manuscritos, que ficam numa área reservada) que ia levar para dentro da biblioteca. Pois bem, a burocracia para fazer a carteira até que foi rápida (já tinha me informado para saber os documentos necessários), em alguns minutos já estava com a carteira na mão. Voltei ao armário, para deixar lá os documentos, e tive que passar novamente pelo processo de inspeção todo, tanto para sair quanto para entrar de novo. Quando finalmente consegui entrar na sala de reservados, novamente me pediram a carteira de pesquisadora e inspecionaram o meu bloco, e sempre que entrava e saía tinha que fazer o mesmo. Fala sério! Bem, depois disso tudo, só me restava uma hora e meia antes de a biblioteca fechar. Foi o suficiente. Pedi o manuscrito, e alguns minutos depois lá estava ele sobre a mesa, ou melhor, sobre um almofadão em cima da mesa, para facilitar o seu manuseio e evitar danos. Valeu o esforço, a chatice, a burocracia e tudo o mais que eu tive que enfrentar: lá estava eu com um manuscrito do Tetrabiblos traduzido no século XV para o castelhano: "Aqui começa o livro que é chamado Tetrabiblos, composto por Ptolomeu, que é dividido em quatro partes." Folheei um pouco das suas 250 páginas, escritas numa belíssima letra, e enriquecidas por comentários, esquemas e desenhos feitos por aqueles que leram esse texto sabe-se-lá quando, onde ou como. Claro que a fantasia corre solta, e não pude me furtar de viajar borgianamente no tempo e no espaço, imaginando astrólogos de outrora, com seus candeeiros de azeite, debruçados sobre esse manuscrito, sofrendo com os dissabores do frio ou do calor, quiçá escondidos... Devaneios à parte, depois disso, só um La Rioja para comemorar! Saí da biblioteca e fui me encontrar com a Elena no marco zero de Madri, a Puerta del Sol. Andamos um pouco pelas ruelas da parte antiga da cidade, passamos pela grandiosa Plaza Mayor e paramos para uns "copos" e "tapas" num barzinho descolado da La Latina. Foi muito bom, detonamos uma garrafa de La Rioja botando o papo em dia e, depois, ela me chamou para encontrar com seus amigos em outro lugar. Lá fomos nós pela maratona tipicamente espanhola. Quando vi, estava em outro bar, tomando outro vinho, comendo outros tapas e resolvendo os problemas do mundo com um francês, um colombiano e um monte de espanhóis e espanholas. Muito divertido! Lá pelas tantas, eles resolveram ir para outro lugar, mas eu, que já estava morta de cansaço, entrei num taxi e me mandei para o hotel. Elena me disse depois que eles ficaram lá até umas cinco da matina. Haja disposição! No dia seguinte, fui novamente à biblioteca, que ficava aberta até às 14 horas. Depois de passar pelo esquema de segurança, lá estava eu novamente com o Tetrabiblos nas mãos. Pedi o microfilme, fiz umas cópias no papel, mas não fiquei satisfeita com a qualidade. De qualquer maneira, copiei os primeiros capítulos para garantir. Depois, fui me informar sobre como era para digitalizar o manuscrito. Impagável evidentemente. Depois de muito sofrimento fazendo contas e tentando escolher o que copiar, decidi então mandar fazer a digitalização só dos primeiros capítulos, que espero cheguem sãos e salvos pelo correio até o fim do mês. Oxalá dê tudo certo! Saí da BN meio chateada com isso, mas paciência. Novamente fui encontrar com a Elena na Puerta del Sol, mas dessa vez de máquina em punho, fotografando tudo pelo caminho. Tomamos um copo num bar antes de irmos almoçar (outro hábito do espanhol), caminhamos mais um pouco pela cidade, Elena me mostrando vários lugares e contando histórias de Madri, até que a fome apertou e fomos comer. Depois de uma bela massa regada a um bom vinho, a noite mal dormida no dia anterior pesou, e voltei para o hotel, onde acabei ficando, apesar do convite da Elena de repetirmos a dose do dia anterior. Sem condições, eu tinha que descansar. Até porque estava frustradíssima de não ter tido forças de ir ao museu ou ao parque, que eram as coisas que eu tinha planejado fazer em Madri. Mas depois de uma noite muito bem dormida, o domingo foi glorioso, pois aproveitei-o muito bem. Fui cedo ao Reina Sofía, onde testemunhei, entre outras coisas inesquecíveis, a dolorosa beleza do Guernica. Passei duas horas de encanto neste museu. Saí de lá e fui comer o famoso "bocadillo de calamares", que no dia anterior tinha visto todo mundo comer nos arredores da Plaza Mayor. Depois, passeei e descansei um pouco no enorme Parque do Retiro, que realmente é incrível, além de ser ao lado do Prado, onde mais uma vez pude desfrutar de alguns momentos de puro deleite, vendo, com esses olhos que a terra há de comer, coisas como As Meninas, do Velasquez, O Colosso e Saturno, do Goya, muitas obras do El Grego, que não é muito o meu gosto, mas para o qual há que se tirar o chapéu, além de várias obras de vários tempos/espaços diferentes, que infelizmente numa só visita não se pode apreciar. Ademais, havia lá também uma exposição temporária do Rembrandt (que delícia o seu auto-retrato!) e uma outra chamada "Deuses e Homens", com várias estátuas gregas e romanas. Foi bárbaro! Saí do museu, novamente encontrei a Elena, que me levou no Ateneu, um espaço cultural com uma biblioteca e um teatro incríveis, que foi recém-recuperado e do qual ela é sócia, e depois tomamos um copo antes de eu embarcar de volta para Salamanca, conversando, entre outras coisas, sobre os problemas e soluções de Rio, Lisboa e Madri. Muito giro!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

57 - Fotos de Madri

El Retiro. Este é "o" parque de Madri. Enorme, no coração da cidade, parece muito com os parques parisienses em sua função pública e agregadora, mas, por incrível que pareça, me lembrou um pouco o nosso Jardim Botânico e, guardadas as devidas proporções, a nossa Quinta da Boa Vista, especialmente a área perto do lago, abarrotada de gente nos barcos, andando, correndo, fazendo ginástica, tomando sol, comendo, passeando com seus cachorros etc.

Olha só a galera toda aí no Retiro!

Paisagem bucólica. Se fosse outra vegetação, acho que passava pelo Jardim Botânico.

Olha que simpática uma das entradas do parque!

Não parece a Quinta da Boa Vista? Não vou lá há muito tempo, mas acho que tem uma parada dessas no meio do lago também, só que menor. Ah! A enorme quantidade de barcos também me lembrou o Jardim de Luxemburgo, em Paris, só que lá os barquinhos eram de brinquedo.

Esta é a Puerta del Sol, um dos símbolos da cidade. É o grande ponto de encontro de todo mundo. Duas grandes avenidas desaguam lá, sem falar a Calle Mayor e várias outras. É ao lado da Plaza Mayor.

O chamado marco zero da cidade, na Puerta del Sol, onde começavam as grandes avenidas.

Não é que encontrei lá na Puerta del Sol os nossos velhos conhecidos camelôs? Segundo a Elena, volta e meia eles têm que sair correndo porque lá também passa o "rapa".

Igualzinho a Curitiba, fala sério!

Olha eu aí com as minhas botinas na Plaza Mayor! Para variar, a pessoa a quem pedi para tirar a foto não era lá essas coisas... Eu centralizaria um pouco mais para cima, para pegar a parte mais alta do edifício e o belíssimo céu azul... Paciência!

Taí a gloriosa parte central da Plaza Mayor de Madri, que, apesar das discussões locais, é maior que a de Salamanca, mas em estilo bem diferente. A de Salamanca não é pintada, é toda construída com a pedra característica das catedrais e edifícios históricos da cidade, acho que se chama pedra de Villamayor. Qual é mais bonita? Aí são outros quinhentos...

Mais um pouco da Plaza Mayor, vista de um dos seus arcos. Como se vê, domingo é dia de os artistas mostrarem seus trabalhos na praça, como Montmartre.

A Plaza Mayor abarrotada de gente.

A española loca chegando no marco zero.

Esta é a Porta de Alcalá, um dos pontos de referência da cidade, e onde se cruzam quatro ou cinco avenidas. No fundo, o Retiro.

Jardim dos Descobrimentos. Além da enorme bandeira espanhola, há lá também uma estátua do Colombo e umas super pedras de concreto estilizadas, com dizeres de Colombo e de outras pessoas, mapas, nomes etc.

Esta é uma frase do Colombo numa das super pedras da praça. Não sei se dá para ler, diz mais ou menos assim: "Além do Trópico de Capricórno se encontra a morada mais bonita, pois é a parte mais alta e nobre do mundo, ou seja, o paraíso terrestre."

Olha eu e a Elena na Entrada Goya (há várias entradas) do Museu do Prado! Ontem (domingo) foi dia de museu: de manhã, fui ao Reina Sofía e, à tarde, ao Prado. Depois detalho mais o fim de semana, a odisséia para pegar o manuscrito do Tetrabiblos, os passeios pela cidade e os museus.

Plaza de Cibeles, mais uma das grandes referências da cidade, por onde passam várias avenidas.