sexta-feira, 31 de março de 2017

154 - Em construção

Clique aqui para ver a revista
Confiram lá este novo periódico! Além de textos maravilhosos dos amigos, há lá um artigo meu sobre autoria científica, uma tradução que fiz da introdução do livro Ciência como arte (Wissenschaft als Kunst), de Paul Feyerabend, e um texto que preparei sobre a entrevista que ele deu em 1993.

quarta-feira, 29 de março de 2017

153 - Jazz, vegetariano e cinema na reitoria

Finalmente Hot Club Portugal (HCP)! Para os novatos neste blog, isto não é um inferninho, e sim um clube de jazz, um dos mais antigos da Europa, funciona desde o final dos anos 40. Quem quiser saber mais, clique aqui. Eu conheci este que para mim é um dos melhores lugares de Lisboa em 2008, quando estive cá pela primeira vez. Fui várias vezes nessa primeira temporada de seis meses, a primeira registrada aqui e algumas das outras aqui e aqui. O HCP pegou fogo em 2009 e ficou fechado um bom tempo, tanto é que, quando voltei em 2011, ainda estava fechado. Mas ontem ele estava bem aberto e oferecendo uma jam session de deixar gente grande rindo à toa. E foi este o meu caso e da Teresa, amigas no jazz também. Às terças sempre rola essa jam session com entrada grátis (é isso mesmo, pasmem!) levada por membros do grupo residente que, depois do primeiro set, convidam os músicos presentes para tocar. Depois de botarem a casa abaixo, os residentes (não sei os nomes, mas havia baixo acústico, batera, guitarra e trompete), comandados pelo batera Rui Pereira, deram lugar a uma meninada que também botou a casa abaixo, alegrando o coração da plateia. Vejam aqui um vídeo do que rolou na semana passada por lá (isso está no canal do HCP no youtube):


Para dar continuidade a essa onda de felicidade, acordei tarde, mas deu tempo de dar um abraço (mais um! vejam os outros aqui e aqui) no Pessoa lá no Chiado:


E seguir para um dos meus vegetarianos preferidos da cidade, o Tao, que já foi mencionado aqui e aqui. O giro é que ele continua exatamente como eu o deixei há cinco anos, só que anda mais movimentado. Qualquer hora dessas faço um roteiro dos vegetarianos numa postagem separada. A foto abaixo tirei de um site de rango vegetariano:

Rua dos Douradores, 10 - Baixa

Hoje também foi dia de conferir uma mostra de cinema, "América, América, para onde vais?", que está rolando na reitoria (clique aqui para ver a programação), que, diga-se de passagem, é aqui ao lado do apartamento onde estou. 


Para deleite da minha mãe, vi o último filme do James Dean, O gigante, de George Stevens (1956), baseado num livro de Edna Ferber. Parece que ele nem viu o filme, morreu antes da estreia. Além dele, os protagonistas são Elizabeth Taylor e Rock Hudson, e há uma ponta do Rod Taylor super brotinho. O filme é giro pois retrata os latifundiários do Texas com suas questões de classe, raça e gênero. Há uma fala da personagem da Elizabeth Taylor que é um excelente exemplo feminista, e o personagem do James Dean, a despeito do seu charme de rebelde sem causa, retrata um bocado das questões sociais e econômicas. O pano de fundo é, claro, o petróleo da região e a luta do capital, que desumaniza as pessoas. Vejam o trailer:



Lembrou-me de um filmaço que vi com mamãe antes de viajar, durante a nossa maratona pré-Oscar, mas que se passa nos dias de hoje, no mesmo Texas agora em crise pós-2008: 









segunda-feira, 27 de março de 2017

152 - De Darwin a Feyerabend via Lobo


Esta é a capa do livro que contém os dois primeiros capítulos da Origem traduzidos por António Eduardo Lobo Vilela, que também fez uma "Notícia acêrca de Darwin" como introdução. Este livro foi publicado em 1939 pelo Editorial Inquérito, em Lisboa, do qual ele foi sócio de 1938 a 1942. 

Não há informações do original, portanto não sei se foi traduzido direto do inglês, mas esta é uma séria candidata à primeira tradução de trechos da Origem direto do original (os de Teófilo Braga e do jornal de Aveiro, postados aqui, também podem ser). Independentemente disso, hoje mergulhei neste e em outros textos do Lobo Vilela e fiquei encantada. Primeiro, vejam a cara simpática do moço (capturada da Wikipédia):


Na introdução do livro, ele faz uma breve biografia de Darwin, apresenta seus precursores e um pouco da história já clássica que vai do fixismo ao transformismo, destacando a importância de Malthus na concepção darwiniana. Ele meio que resume assim a coisa: "A obra de Darwin é o estudo consciencioso dos meios empregados pela natureza para produzir a variação das espécies e das leis que a regulam." (p. 11)

Hoje acabei descobrindo mais algumas coisas sobre ele. Para começar, foi um tradutor prolífero e eclético. Além de Darwin, traduziu Platão, Aristófanes, Schopenhauer, Oscar Wilde, entre outros. Ademais, escreveu deveras sobre ciência, democracia, universidade, espiritismo etc. Ativista político desde os 17 anos de idade, quando ainda estava no Colégio Militar, lutou pela república, pela democracia, pelo socialismo e contra o fascismo. Em 1933 escreveu A crise da universidade, aparentemente sob influência de Ortega y Gasset e seu Misión de la universidad, de 1930. 


Mas a cereja do bolo ainda estava por vir em 1955, quando ele publicou (feyerabendianos, pasmem!) Ciência e poesia, recém reeditado por seu filho, António da Costa Lobo Vilela (2012):

Pequeno livro com os seguintes capítulos: 1) Ciência e poesia; 2) Arte e ciência; 3) Poesia e verdade; 4) Do espírito poético; e 5) Da expressão poética. No que parece ser um elogio à inter-trans-multi-disciplinaridade, passando pelos clássicos, por Pessoa, Einstein, entre outros, esse livro me lembrou deveras o Wissenschaft als Kunst (Ciência como arte), de Paul Feyerabend (1984), cuja introdução acabei de traduzir. Aviso quando ela for publicada (em breve). 

Vejam algumas passagens, entendendo "sábio" como "cientista":

"O poeta é mitómano por natureza, por temperamento emocional; o sábio é mitómano por educação, por disciplina intelectual. Um e outro são criadores de ficções; mas, enquanto o poeta se satisfaz com os elementos da experiência interna, o sábio procura na experiência externa a justificação das suas ficções." (p. 40)

"O sábio é poeta na medida em que ultrapassa a legalidade dos fenómenos para idealizar o seu mecanismo oculto. O poeta invade os domínios da ciência sempre que assume uma atitude especulativa." (idem)

"O maior sábio é, afinal de contas, um simples aprendiz de feiticeiro... Mas o poeta não! O poeta é um feiticeiro consumado!" (p. 41)

"A ciência é a mais simbólica de todas as artes e, por isso mesmo, a mais transfiguradora. [...] Buffon, na sua História natural, recorreu algumas vezes aos poemas didáticos de Opiano, cujas descrições apresentam as características de exactidão científica. Por outro lado, a teoria atómica de Epicuro forneceu matéria poética a Lucrécio, o qual precedeu Darwin com as suas ideias da 'seleção natural'." (p. 51)

Aparentemente, todos os caminhos me levam a Feyerabend... Ou então eu estou vendo coisas nessa recepção de Darwin em Portugal, o que é bem provável... Mas que é gira a série de figuras interessantes que estão aparecendo nessa história, isso ninguém pode negar.

domingo, 26 de março de 2017

151 - Lavando a alma em Lisboa

Fim de semana de chuva e frio em Lisboa, a máxima em torno de 10-12 graus. Nesta madrugada ajustamos o relógio, início do horário de verão: agora são quatro horas de diferença em relação ao Brasil. Ontem fiquei em casa o dia inteiro lendo um pouco de tudo, vendo Star Trek: Deep Space Nine, estudando Feyerabend (nada melhor para esquentar!) e curtindo o movimento do jardim, que se virou entre sol e chuva o dia inteiro. Se colocar uma foto ao lado da outra, esta é a vista de mais ou menos 180 graus que tenho da varanda da sala:






Só não consegui fotografar os pássaros que, como não são bobos nem nada, somem do mapa quando percebem qualquer movimento. É como diz aquela música do Chico, Passaredo: "bico calado, toma cuidado, que o homem vem aí". Além dos nossos velhos amigos pombos, que nos encantaram e cansaram nos primeiros capítulos de leitura da Origem (Darwin usa muitos exemplos de pombos para começar a construir o seu argumento), há um pássaro lindo preto com o bico amarelo quase laranja, do tamanho de um sabiá laranjeira. Será que é um melro? Capturei a foto abaixo num site de pássaros e parece ser ele:


Mas, para além de atividades ornitológicas, o que realmente lavou a minha alma hoje foi rever a minha mãe portuguesa, a Dona Rosa, já mencionada na primeira postagem desta temporada, mas que aparece em várias outras. Mais de cinco anos depois, foi uma emoção danada encontrar com essa pessoinha tão querida que esteve ao meu lado durante as minhas outras aventuras por essas terras e com quem, é claro, mantenho contato regularmente. 

Lisboa e Dona Rosa se confundem na minha memória afetiva. Por isso nem liguei para a chuva que começou de madrugada e continua até agora sem parar, convoquei bota, capa e guarda-chuva, e fui me encontrar com essa querida amiga para almoçar. Botamos o papo em dia como se o tempo não tivesse passado e devo dizer que me sinto em casa ao pé dela. Vejam o registro:

Quando cheguei, ela já me esperava com uma entrada de pão (que pão!), queijo alentejano e azeitonas. Depois traçamos um cabrito à padeiro regado a vinho da casa. De sobremesa, o primeiro leite creme da temporada. Isso tudo no Restaurante Lumiar, bem na frente da casa dela, que é em frente à Residência Paz, onde ela viveu e trabalhou mais de 40 anos e onde nos conhecemos em 2008 quando estive aqui pela primeira vez.

Dona Rosa, assim como a minha mãe (e há várias outras "coincidências" entre ambas, como se pode ver aqui), ganhou um smartphone recentemente e tenta se virar com ele. Olha ela procurando as fotos da família para me mostrar. Detalhe: ela operou catarata na semana passada...


Alegria estampada nos rostos!




150 - Museu do Oriente, Mercado da Ribeira e pastéis de nata

Esta foto eu capturei do site do museu e é gira porque mostra a ponte 25 de abril ao fundo.

Na sexta fui rever o Museu do Oriente com a minha amiga Teresa, que me havia convidado a ir assistir com ela e sua amiga, Ana Rita, a uma palestra sobre as calçadas portuguesas pelo mundo. A palestra foi cansativa, mas teve seus momentos interessantes, como a presença de dois calceteiros que, diga-se de passagem, são artistas. Não fazia ideia de como se faziam essas calçadas, tão comuns para a gente, mas que são verdadeiros tapetes, obras de arte com direito a assinatura.

Já conhecia o museu de outros carnavais, como se pode ver aqui e aqui, mas a exposição permanente sobre a presença portuguesa na Ásia sempre vale a pena ver de novo. E agora ainda vi uma exposição nova sobre a ópera chinesa. Muito giro!


Depois fomos encontrar com outra amiga delas, a também historiadora da ciência Isabel, no Mercado da Ribeira, que, diga-se de passagem, foi totalmente recauchutado desde a última vez que estive cá. Como sabemos, esta é uma tendência em todos os cantos, até em Maringá o mercado virou point da galera. Vejam a foto que eu capturei num site de turismo:


Como o lugar estava abarrotado - a malta estava toda lá -, atravessamos a rua e fomos num outro lugar mais tranquilo, o COA - Café da Ordem dos Arquitectos. Lá tomamos um vinho, batemos um bom papo e petiscamos. Eu comi uma bruscheta maravilhosa:


Antes de ir embora, comprei pastéis de nata da Manteigaria, confeitaria nova da cidade que a Teresa já me havia recomendado e que tem uma filial no mercado:








quinta-feira, 23 de março de 2017

149 - Mais sobre os primeiros textos de Darwin em português

Como falei em postagem anterior, o primeiro Darwin em português parece ser de 1877 e é uma citação longa da terceira seção do terceiro capítulo da Origem, traduzida por Theophilo Braga no último capítulo deste livro, cuja cópia eu trouxe hoje para casa:


Logo depois, em 1886, saiu uma seção inteira do capítulo 8 da Origem. Confiram, abaixo, a primeira página do jornal (devidamente copiada hoje), o destaque na parte inferior onde se encontra o texto "O instincto escravagista das formigas" na seção Folhetim e, em seguida, a assinatura, Charles Darwin. Sem crédito de tradução.





E finalmente o livro todo, traduzido do francês por Joaquim Dá Mesquita Paul (JMP) e publicado pela Livraria Chardon, de Lelo e Irmão (depois Lello e Irmão) em 1913:


JMP era médico e professor, como diz no crédito da tradução. Além disso, descobri mais algumas coisas (pasmem!) no Facebook e num site de genealogias. Para começar, o nome dele completo era Joaquim Marques Dá Mesquita Montenegro Paul, mas ele assinava só JMP mesmo, como se vê abaixo:



Ele nasceu no dia 16 de março de 1875 em Azurem Guimarães, filho de Gaspar e Serafina, e morreu no dia 12  de maio de 1946 em Pedroso, Vila Nova de Gaia. Tinha um irmão (Gonçalo) e uma irmã (Maria dos Anjos), casou-se com Eugénia em 17 de outubro de 1901 e teve seis filhos (Miquelina, Serafina, Alexandrina, Judite, Sofia e Gaspar).

Além da tradução da Origem e de algumas traduções não publicadas para o latim, JMP gostava de escrever e publicou dois livros: Como deve tutelar-se a infância e Soldado desconhecido. Ele também editou e dirigiu, no Porto, o jornal A primavera, uma "revista educativa das crianças portuguesas", uma revista infantil que nada tem a ver com Darwin.

Ele também escreveu o seu próprio epitáfio:

Não lembreis este corpo, vil farrapo,
Que se vai transformar em lodo e lama,
Antes lembrai o 'espírito invisível'
Que de Deus foi centelha e viva chama...

JMP estudou na Universidade de Coimbra, onde se formou em medicina e cirurgia, era republicano, maçom, fundou a Sociedade Espírita de Portugal, mas dizem que era ateu, amigo de padres e respeitava a religião alheia. Gente boa esse moço!

Em 2011, a Universidade do Porto fez 100 anos e reconheceu o trabalho de JMP numa biografia que acompanhou a exposição "A evolução de Darwin".




148 - Início de primavera com chuva, frio, boa aula e Feyerabend

A primavera começou na segunda, mas o tempo por aqui nem ligou para isso. Essa noite teve (como se diz por aqui) aguaceiro com trovoadas, e hoje ao meio-dia os termômetros não se importaram de marcar 9 graus. Isso sem falar da neve que parece estar rolando na serra... brrrrr... Dizem que fica assim até segunda (clique aqui para ver a notícia no jornal local).


Para esquentar, comecei a semana assistindo a mais uma aula do Ricardo, só que agora de História Experimental da Ciência. Um luxo só, morram de inveja. :-)

Sempre me surpreendo com a capacidade dele de, numa única aula, juntar belamente coisas que eu levaria semanas muito mal e porcamente. Antes de entrar no assunto da aula sobre as dificuldades da física no que diz respeito, por exemplo, ao conceito de energia (que repercutem nos experimentos e, claro, no ensino), ele deu conta de, atendendo a pedidos dos alunos, atravessar os vários tipos de argumentação dedutiva e indutiva (com direito a passar pelas tabelas verdade) e, sorrateiramente, quando estava falando de autoria/autoridade na indução, entrou nas normas de citação e bibliografia. Fiquei encantada! Já disse que vou pegar algumas ideias emprestadas.

Durante a aula, quando o Ricardo falou da redução ao absurdo, lembrei-me dessa estratégia feyerabendiana e, logo depois, quando trabalhava pelo skype com a Francine, retomamos o assunto por conta da tese dela sobre Feyerabend e Steiner. Muito giro poder juntar as coisas. Segue uma montagem fotográfica do nosso querido autor para aquecer os corações:


Clique aqui para ver o que há sobre Feyerabend no blog do GP de Science Studies da UEM.



147 - Torre do Tombo e primeiras aquisições

Estas fotos são do inverno de 2008-9.
Clique aqui e aqui para ver outros posts do blog que passaram por lá.



Ontem fui à Torre do Tombo para ver se achava alguma coisa sobre o primeiro tradutor de Darwin, o Joaquim Dá Mesquita Paul (JMP), mas, apesar de não ter encontrado nada, fui muito bem recebida pelos funcionários da casa, que me deram algumas sugestões de pesquisa que surtiram efeito. Numa próxima postagem coloco tudo o que encontrei sobre o JMP, mas o que quero registrar agora é a exposição que está rolando nesse espaço tão especial que guarda muito da memória portuguesa e, portanto, também da nossa:


Clique aqui para ver a notícia sobre essa bela - às vezes também triste, revoltante e sinistra - exposição ricamente documentada que acabou de começar por aqui. Além de haver muito do que eu já havia estudado durante o doutorado, como a forte presença judaica e árabe na Península na época dos descobrimentos, o que contribuiu deveras com a ciência e o desenvolvimento náutico da época, aprendi muita coisa nova, sobretudo sobre a história recente. 

Em seguida fui até a maravilhosa livraria Caixa dos Livros, que fica no subsolo da Faculdade de Letras, e, depois de mais de uma hora de garimpagem, fiz minhas primeiras aquisições:



Finalizei com queijadinha e travesseiro de Sintra:






terça-feira, 21 de março de 2017

146 - Primeiro Darwin em português?

Pelo que vi até agora, o primeiro Darwin em português é um trecho do capítulo 3 da Origem, traduzido por Teófilo Braga (1843-1924) em sua obra Traços gerais de filosofia positiva comprovados pelas descobertas científicas (título com grafia atualizada), que foi publicada em 1877 pela editora Nova Livraria Internacional em Lisboa. O curioso é que o tradutor, além de ter introduzido o positivismo em Portugal, foi presidente da república de maio a outubro de 1915. Veja mais sobre ele aqui e aqui.


Pelo que pude ver no microfilme da BNP (não há impresso), o trecho traduzido de Darwin se encontra nas páginas 211 e 212, no capítulo final da argumentação do livro, que é basicamente a discussão das objeções de Huxley ao positivismo e a Comte em particular. Para isso, ele vai usar a seção "Razão geométrica do aumento de indivíduos" do capítulo 3 da Origem, em que Darwin se baseia na tese de Malthus para falar da luta pela sobrevivência.



Outra tradução portuguesa de Darwin pioneira saiu no jornal O povo de Aveiro, nos dias 10 e 17 de outubro de 1886, e se chama "O instinto escravagista das formigas", mas sem crédito de tradução e nem da fonte original. Para nós que lemos a Origem, é fácil reconhecer a seção que trata das formigas escravocratas do capítulo 8 sobre instinto: "Este notável instincto foi primeiramente descoberto na formiga (Polyerges) rufescens por Pedro Huber, observador ainda talvez mais hábil que seu ilustre pae. [...]"

Quem quiser ver ou rever os nossos resumos dos capítulos da Origem das espécies, de Charles Darwin, clique aqui para ir ao blog do GP de Science Studies da UEM.

Vale registrar, então, que, antes de a Origem ser traduzida na íntegra (em 1913), já circulavam esses e outros trechos do livro traduzidos. Além disso, a recepção da obra de Darwin em Portugal era feita por meio dos textos originais (como se pode ver na produção e na biblioteca dos naturalistas portugueses, que citavam ou continham as edições inglesas) ou traduzidos para o francês (cf. Pereira, 2001; Fonseca, 2015).

Isso sem falar do outro livro famoso de Darwin, A origem do homem, que também circulava por meio de trechos traduzidos até que finalmente foi traduzido na íntegra em 1910 por Oldemiro Cesar e publicado no Porto pela editora J. Ferreira dos Santos.



Este é o caso do livro Descendemos do macaco?, de E. Denoy, traduzido pelo tenente Moraes Rosa e publicado pela editora Livraria Internacional de Lisboa em 1901. Pelo que vi hoje, além de várias citações a Darwin, há dois capítulos que supostamente são traduções de trechos da Origem do homem, apesar de não haver indicação do texto fonte original: "Como se prova que o homem descende de uma forma inferior" (p. 99-112) e "A classificação da descendência humana" (p. 113-139).

Referências:

FONSECA, Pedro Ricardo Gouveia da. Darwin em Portugal (1910-1974): o darwinismo e a evolução na produção científica de botânicos portugueses. Tese de doutorado em Altos Estudos em História. Universidade de Coimbra, 3 volumes, 789p, 2015.

PEREIRA, Ana Leonor. Darwin em Portugal: filosofia, história, engenharia social (1865-1914). Coimbra: Editora Almedina, 2001.

domingo, 19 de março de 2017

145 - Cais do Sodré, espumante e sardinhas

Uma coisa que ainda não disse por aqui é que Lisboa mudou deveras nesses últimos cinco anos - para melhor. Da última vez que estive cá, havia muitas obras em andamento, como a região do Saldanha por exemplo, onde fui almoçar com a Helena e com o Luís anteontem, e que ficou muito legal. Ainda há obras, como a do Campo Grande bem em frente à BNP, mas o giro é ver áreas totalmente renovadas, recuperadas e com vida nova, como é o caso do Cais do Sodré, que foi devolvido ontem aos lisboetas, como se vê nesta matéria do jornal Público.

O dia estava lindo, o que ajudou o evento, que contou ainda com dois concertos, sendo um deles do Dead Combo, uma banda portuguesa de pop-rock relativamente recente, que eu já conhecia porque a Teresa me havia oferecido um CD há alguns anos. Vejam só as fotos de ontem:






O pessoal fica por ali tomando um sol, curtindo esse rio com cara de mar...



Como se vê nas fotos acima, quando chegamos a malta já estava toda lá, ocupando seu novo espaço público à beira do Tejo e desfrutando de um dia lindo de sol e temperatura amena.




Quase não se vê nada nessas fotos noturnas, mas fica aí o registro do show do Dead Combo na inauguração do novo Cais do Sodré, devidamente aproveitado pelas amigas transatlânticas e observado de longe por Sirius, Betelgeuse, Aldebaran, as três marias e tantas outras estrelas que, para nós do Sul, são companheiras de verão, mas que, por aqui, acompanham o inverno.

Ouçam um pouco do que há no youtube do disco Lisboa Mulata:


O Pedro, amigo da Teresa, juntou-se a nós no fim do show e depois fomos desbravar a região, que também foi super recuperada e está cheia de novos bares, restaurantes, cafés, discotecas etc. Paramos na Espumantaria do Cais, onde tomamos um espumante nacional, Montanha:


Acompanhado de petiscos como o torricado de sardinha (minha primeira sardinha desta temporada!):


Depois de uma passagem por um dos ex-inferninhos que agora virou um lugar modernoso, mas mantendo o registro nas paredes de gravuras, pinturas e escritos da época das prostitutas e marinheiros da região do cais, subimos a Rua do Alecrim, passeamos um bocado pelo Bairro Alto e tomamos uma saideira (caipirinha!) no quiosque do Miradouro São Pedro de Alcântara. Noitada agradabilíssima nessa cidade maravilhosa, com ótimo papo luso-brasileiro em excelente companhia, além da comida e bebida de se regalar.