Esta é a capa do livro que contém os dois primeiros capítulos da Origem traduzidos por António Eduardo Lobo Vilela, que também fez uma "Notícia acêrca de Darwin" como introdução. Este livro foi publicado em 1939 pelo Editorial Inquérito, em Lisboa, do qual ele foi sócio de 1938 a 1942.
Não há informações do original, portanto não sei se foi traduzido direto do inglês, mas esta é uma séria candidata à primeira tradução de trechos da
Origem direto do original (os de Teófilo Braga e do jornal de Aveiro, postados
aqui, também podem ser). Independentemente disso, hoje mergulhei neste e em outros textos do Lobo Vilela e fiquei encantada. Primeiro, vejam a cara simpática do moço (capturada da Wikipédia):
Na introdução do livro, ele faz uma breve biografia de Darwin, apresenta seus precursores e um pouco da história já clássica que vai do fixismo ao transformismo, destacando a importância de Malthus na concepção darwiniana. Ele meio que resume assim a coisa: "A obra de Darwin é o estudo consciencioso dos meios empregados pela natureza para produzir a variação das espécies e das leis que a regulam." (p. 11)
Hoje acabei descobrindo mais algumas coisas sobre ele. Para começar, foi um tradutor prolífero e eclético. Além de Darwin, traduziu Platão, Aristófanes, Schopenhauer, Oscar Wilde, entre outros. Ademais, escreveu deveras sobre ciência, democracia, universidade, espiritismo etc. Ativista político desde os 17 anos de idade, quando ainda estava no Colégio Militar, lutou pela república, pela democracia, pelo socialismo e contra o fascismo. Em 1933 escreveu A crise da universidade, aparentemente sob influência de Ortega y Gasset e seu Misión de la universidad, de 1930.
Mas a cereja do bolo ainda estava por vir em 1955, quando ele publicou (feyerabendianos, pasmem!) Ciência e poesia, recém reeditado por seu filho, António da Costa Lobo Vilela (2012):
Pequeno livro com os seguintes capítulos: 1) Ciência e poesia; 2) Arte e ciência; 3) Poesia e verdade; 4) Do espírito poético; e 5) Da expressão poética. No que parece ser um elogio à inter-trans-multi-disciplinaridade, passando pelos clássicos, por Pessoa, Einstein, entre outros, esse livro me lembrou deveras o Wissenschaft als Kunst (Ciência como arte), de Paul Feyerabend (1984), cuja introdução acabei de traduzir. Aviso quando ela for publicada (em breve).
Vejam algumas passagens, entendendo "sábio" como "cientista":
"O poeta é mitómano por natureza, por temperamento emocional; o sábio é mitómano por educação, por disciplina intelectual. Um e outro são criadores de ficções; mas, enquanto o poeta se satisfaz com os elementos da experiência interna, o sábio procura na experiência externa a justificação das suas ficções." (p. 40)
"O sábio é poeta na medida em que ultrapassa a legalidade dos fenómenos para idealizar o seu mecanismo oculto. O poeta invade os domínios da ciência sempre que assume uma atitude especulativa." (idem)
"O maior sábio é, afinal de contas, um simples aprendiz de feiticeiro... Mas o poeta não! O poeta é um feiticeiro consumado!" (p. 41)
"A ciência é a mais simbólica de todas as artes e, por isso mesmo, a mais transfiguradora. [...] Buffon, na sua História natural, recorreu algumas vezes aos poemas didáticos de Opiano, cujas descrições apresentam as características de exactidão científica. Por outro lado, a teoria atómica de Epicuro forneceu matéria poética a Lucrécio, o qual precedeu Darwin com as suas ideias da 'seleção natural'." (p. 51)
Aparentemente, todos os caminhos me levam a Feyerabend... Ou então eu estou vendo coisas nessa recepção de Darwin em Portugal, o que é bem provável... Mas que é gira a série de figuras interessantes que estão aparecendo nessa história, isso ninguém pode negar.