Mostrando postagens com marcador Feyerabend. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Feyerabend. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de abril de 2017

159 - Trabalho, jazz, pães e... Mircea Eliade em Lisboa

Só tenho uma coisa a declarar: amo esta cidade! Andar por essas ruas, respirar esses ares, ouvir esses falares, sentir-me estrangeira mas ao mesmo tempo em casa, adoro tudo isso... E ainda há as gostosuras:

Estes pães são de lascar! Haja malhação para queimar todo esse carboidrato...


Este queijo é de ovelha, tipo um requeijão, não se come a casca e é para abrir em cima como uma tampa. Família Fraga, reparem só no selo preto: Queijos Fraga.


Na segunda, atendendo a um pedido do Ricardo, fiz uma intervenção feyerabendiana na aula dele da pós. Foi bem giro! Fiz um panorama geral da vida e da obra do Feyerabend, figura que sempre vale a pena ver, ou ler, de novo. Além disso, o trabalho na Biblioteca Nacional (BNP) é uma alegria - em outra postagem coloco as novidades da pesquisa -, o lugar é mágico, confortável e inspirador. Ontem ainda dei uma de cicerone e fiz um tour por lá com Carlos e Dani, que adoraram. Depois saí com eles pelo campus da universidade. Vale lembrar que a BNP é praticamente dentro da Universidade de Lisboa.

E lá estávamos nós, debaixo de um céu azul e de um sol de rachar, andando pela alameda principal, onde se encontram o prédio da reitoria em posição central, em frente ao qual há um enorme gramado. Da reitoria, olhando para o gramado, à direita vê-se o prédio da faculdade de Direito e, logo depois, o das faculdades de Psicologia e Educação, onde fomos prestigiar o novo endereço da Livraria Metamorfose, do simpático casal Joana e Humberto, que visitamos na semana passada. À esquerda da reitoria, vê-se o prédio das faculdades de Letras e Filosofia e, logo depois, a Torre do Tombo. Atrás dela, os blocos da Faculdade de Ciências, por onde tenho andado. Quem quiser rever fotos e impressões passadas, clique aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Despedimo-nos no metro, de onde ainda lhes apontei, ao longe, o enorme Estádio Universitário (um complexo esportivo que tem de tudo, até campo de golfe), o principal bandejão e o hospital.

E para comemorar tudo isso, fui ao Hot Club na terça e na quarta. Ontem com a Teresa e anteontem com o Carlos, a Dani e o amigo deles, Felipe. Assim como na terça passada, rolou jam session com entrada grátis nos dois dias, sendo que ontem, antes da jam session, teve um pequeno concerto de dois representantes da velha guarda do jazz lisboeta - Barros Veloso no piano e Binau Moreira no baixo acústico -, que convidaram o trompetista residente, João Moreira. Um luxo só ver esse desfile de músicos excelentes no palco do HCP. Deem uma sacada no trio em outro evento no ano passado:


De quebra, nas minhas andanças achei mais uma livraria, a Artes e Letras, que fica na Rua Elias Garcia, uma transversal da Cinco de Outubro. É um sebo com uma velharia de alto nível, coisas do arco da velha, e que demandam muito tempo de garimpagem. Praticamente ao lado achei isso:



Nunca poderia imaginar que o Mircea Eliade morou em Lisboa...


sexta-feira, 31 de março de 2017

154 - Em construção

Clique aqui para ver a revista
Confiram lá este novo periódico! Além de textos maravilhosos dos amigos, há lá um artigo meu sobre autoria científica, uma tradução que fiz da introdução do livro Ciência como arte (Wissenschaft als Kunst), de Paul Feyerabend, e um texto que preparei sobre a entrevista que ele deu em 1993.

segunda-feira, 27 de março de 2017

152 - De Darwin a Feyerabend via Lobo


Esta é a capa do livro que contém os dois primeiros capítulos da Origem traduzidos por António Eduardo Lobo Vilela, que também fez uma "Notícia acêrca de Darwin" como introdução. Este livro foi publicado em 1939 pelo Editorial Inquérito, em Lisboa, do qual ele foi sócio de 1938 a 1942. 

Não há informações do original, portanto não sei se foi traduzido direto do inglês, mas esta é uma séria candidata à primeira tradução de trechos da Origem direto do original (os de Teófilo Braga e do jornal de Aveiro, postados aqui, também podem ser). Independentemente disso, hoje mergulhei neste e em outros textos do Lobo Vilela e fiquei encantada. Primeiro, vejam a cara simpática do moço (capturada da Wikipédia):


Na introdução do livro, ele faz uma breve biografia de Darwin, apresenta seus precursores e um pouco da história já clássica que vai do fixismo ao transformismo, destacando a importância de Malthus na concepção darwiniana. Ele meio que resume assim a coisa: "A obra de Darwin é o estudo consciencioso dos meios empregados pela natureza para produzir a variação das espécies e das leis que a regulam." (p. 11)

Hoje acabei descobrindo mais algumas coisas sobre ele. Para começar, foi um tradutor prolífero e eclético. Além de Darwin, traduziu Platão, Aristófanes, Schopenhauer, Oscar Wilde, entre outros. Ademais, escreveu deveras sobre ciência, democracia, universidade, espiritismo etc. Ativista político desde os 17 anos de idade, quando ainda estava no Colégio Militar, lutou pela república, pela democracia, pelo socialismo e contra o fascismo. Em 1933 escreveu A crise da universidade, aparentemente sob influência de Ortega y Gasset e seu Misión de la universidad, de 1930. 


Mas a cereja do bolo ainda estava por vir em 1955, quando ele publicou (feyerabendianos, pasmem!) Ciência e poesia, recém reeditado por seu filho, António da Costa Lobo Vilela (2012):

Pequeno livro com os seguintes capítulos: 1) Ciência e poesia; 2) Arte e ciência; 3) Poesia e verdade; 4) Do espírito poético; e 5) Da expressão poética. No que parece ser um elogio à inter-trans-multi-disciplinaridade, passando pelos clássicos, por Pessoa, Einstein, entre outros, esse livro me lembrou deveras o Wissenschaft als Kunst (Ciência como arte), de Paul Feyerabend (1984), cuja introdução acabei de traduzir. Aviso quando ela for publicada (em breve). 

Vejam algumas passagens, entendendo "sábio" como "cientista":

"O poeta é mitómano por natureza, por temperamento emocional; o sábio é mitómano por educação, por disciplina intelectual. Um e outro são criadores de ficções; mas, enquanto o poeta se satisfaz com os elementos da experiência interna, o sábio procura na experiência externa a justificação das suas ficções." (p. 40)

"O sábio é poeta na medida em que ultrapassa a legalidade dos fenómenos para idealizar o seu mecanismo oculto. O poeta invade os domínios da ciência sempre que assume uma atitude especulativa." (idem)

"O maior sábio é, afinal de contas, um simples aprendiz de feiticeiro... Mas o poeta não! O poeta é um feiticeiro consumado!" (p. 41)

"A ciência é a mais simbólica de todas as artes e, por isso mesmo, a mais transfiguradora. [...] Buffon, na sua História natural, recorreu algumas vezes aos poemas didáticos de Opiano, cujas descrições apresentam as características de exactidão científica. Por outro lado, a teoria atómica de Epicuro forneceu matéria poética a Lucrécio, o qual precedeu Darwin com as suas ideias da 'seleção natural'." (p. 51)

Aparentemente, todos os caminhos me levam a Feyerabend... Ou então eu estou vendo coisas nessa recepção de Darwin em Portugal, o que é bem provável... Mas que é gira a série de figuras interessantes que estão aparecendo nessa história, isso ninguém pode negar.

quinta-feira, 23 de março de 2017

148 - Início de primavera com chuva, frio, boa aula e Feyerabend

A primavera começou na segunda, mas o tempo por aqui nem ligou para isso. Essa noite teve (como se diz por aqui) aguaceiro com trovoadas, e hoje ao meio-dia os termômetros não se importaram de marcar 9 graus. Isso sem falar da neve que parece estar rolando na serra... brrrrr... Dizem que fica assim até segunda (clique aqui para ver a notícia no jornal local).


Para esquentar, comecei a semana assistindo a mais uma aula do Ricardo, só que agora de História Experimental da Ciência. Um luxo só, morram de inveja. :-)

Sempre me surpreendo com a capacidade dele de, numa única aula, juntar belamente coisas que eu levaria semanas muito mal e porcamente. Antes de entrar no assunto da aula sobre as dificuldades da física no que diz respeito, por exemplo, ao conceito de energia (que repercutem nos experimentos e, claro, no ensino), ele deu conta de, atendendo a pedidos dos alunos, atravessar os vários tipos de argumentação dedutiva e indutiva (com direito a passar pelas tabelas verdade) e, sorrateiramente, quando estava falando de autoria/autoridade na indução, entrou nas normas de citação e bibliografia. Fiquei encantada! Já disse que vou pegar algumas ideias emprestadas.

Durante a aula, quando o Ricardo falou da redução ao absurdo, lembrei-me dessa estratégia feyerabendiana e, logo depois, quando trabalhava pelo skype com a Francine, retomamos o assunto por conta da tese dela sobre Feyerabend e Steiner. Muito giro poder juntar as coisas. Segue uma montagem fotográfica do nosso querido autor para aquecer os corações:


Clique aqui para ver o que há sobre Feyerabend no blog do GP de Science Studies da UEM.