A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
Ontem fomos pegar a Tia Leyla no aeroporto logo pela manhã. Depois da sua instalação, saímos em busca da última casa do Borges. Chegando lá, apesar da decepção de descobrirmos somente uma placa na fachada do edifício, tivemos a sorte (o acaso é amigo!) de encontrar um ex-vizinho dele que nos viu atordoadas e começou a falar um monte de coisas interessantes. Ele nos descreveu o apartamento, disse qual é a situação legal dele agora, falou um pouco do seu amigo e disse que ele costumava frequentar uma livraria ali do lado, onde autografava seus livros. Atualmente, a livraria mantém a mesa onde ele autografava seus livros e, claro, fomos lá conferir:
Olha eu aí ocupando espaço borgiano:
Depois descemos a calle Florida (um movimento horroroso, digno de rua da Alfândega, sobretudo pela quantidade de brasileiros), achamos as Galerias Pacífico e entramos. O lugar realmente é belíssimo, apesar de ser um shopping center. Como as moças estavam cansadas, sentamos por ali mesmo para comer e caímos de boca numa parrillada acompanhada de um belo vinho. Ainda conhecemos o Espaço Cultural Borges e depois arrematamos com um sorvete. O meu, evidentemente, era de doce de leite. Andamos mais um pouco e depois voltamos para o apart e descansamos. Mais tarde fizemos uma boquinha num dos vários bares da região: empanadas com cerveja e um bom papo, uma maravilha.
A ideia hoje de manhã era pegar o ônibus de turismo que cruza a cidade, mas, ao chegar lá, descobrimos que seria impossível: a malta estava toda lá. Aí liguei para o Edil e ele estava nas cercanias, então fomos até a Plaza de Mayo e nos encontramos em frente à Casa Rosada:
Que hoje recebeu uma atenção maior da minha parte (gostei da cor):
Depois decidimos ir à Casa do Gardel no Abasto e aproveitar para almoçar e conhecer o ex-mercado municipal que virou um shopping center. Mas antes de pegarmos o metrô, demos uma paradinha para conhecer o local onde o Edil estudou nesses últimos meses:
Aí seguimos para o museu, que se encontra numa região cheia de referências ao filete, este estilo de arte decorativa tipicamente portenho:
Aí seguimos para o lindo e enorme ex-mercado municipal:
Mas não sem antes encontrar um quiosque chamado Júpiter, que, aliás, está dando show no céu...
Ainda tomamos um sorvete e mais uma vez provei um de doce de leite, claro... De lá nos despedimos do Edil e da Andrea, e ficamos de combinar um jazz para mais tarde. Como o cansaço nos venceu, deixamos isso para amanhã. Ao voltarmos para o apart, fomos numa confeitaria maravilhosa aqui na esquina, compramos umas gostosuras, um vinho e água, e fizemos a farra por aqui mesmo.
Ontem fomos jantar na casa do Edil, que preparou um delicioso frango com laranja e alcaparras acompanhado de salada e um risoto de funghi. De sobremesa, mousse de manga. E lá estava eu encantada com a cebolinha verde e roxa, tentando dar uma mão para ele na cozinha:
Tirando o calor, que disseram ter chegado a 50 graus, o natal foi giro. Havia lá seis brasileiros de cantos diferentes do Brasil, duas argentinas e uma peruana, os amigos do Edil nessa sua temporada por aqui, que já está acabando, mas que tenho certeza lhe será inesquecível.
Hoje fui andar de manhã com a mamãe pelas redondezas, e vimos o seguinte:
O grandioso Teatro Colon (nosso glorioso Colombo)
Teatro Cervantes de perto
Teatro Cervantes de longe (passando por uma necessária manutenção)
Acima, o Palácio da Justiça com um dos ônibus charmosos da cidade (eles parecem pinturas ambulantes, vou fotografar alguns e fazer uma postagem só para isso).
Depois do almoço, fomos bater perna de novo e achamos o Congresso Nacional, cenário de uma das fotos do papai que coloquei na postagem de ontem. Olhem só:
Esta ficou gira! Pena que não pudemos entrar como eles fizeram nos anos 1950. A área hoje é gradeada, tive que posicionar a máquina entre as grades para conseguir o mesmo ângulo.
Com essa missão cumprida, sentamos num café ali perto e depois seguimos para a Praça de Maio,
onde fotografei a catedral, que, de fora, parece um templo greco-romano:
E também o obelisco de longe:
Demos a maior sorte de pegar o metrô histórico, todo de madeira,
da linha mais antiga da cidade.
Olhem que fofo:
De lá partimos para a casa do Edil, onde lanchamos com ele e sua irmã Andrea, que também veio passar o fim de ano por aqui. Fomos andar pelas ruas de Palermo, passamos pelo Jardim Botânico, vimos a lua dando show no céu, descemos a Rua Jorge Luis Borges e, na praça Cortazar, onde há uma série de bares e restaurantes de todos os tipos, bastante badalados, tomamos uma cerveja e desfrutamos de alguns momentos de tranquilidade numa noite bem mais fresca que a de ontem (o tempo mudou completamente, chegamos a sentir um friozinho).
Finalmente estou conhecendo Buenos Aires! Há décadas olho para estas fotos do papai e desejo conhecer esse lugar:
Seu Machado é o que está à direita
Aqui ele está à esquerda.
Aqui novamente à direita
E mais uma vez à esquerda, aqui em Mar del Plata.
Essas fotos são no início dos anos 1950.
Cheguei com mamãe no sábado à noite e ficaremos aqui até o dia 5. Só deu tempo de chegar, tomar um banho e jantar. Fomos até a esquina e já encontramos uma versão das famosas milanesas. Trouxemos um exemplar com salada e cerveja para o apart (honestíssimo, chama-se Piccaluga e fica na Recoleta, calle Marcelo T. de Alvear). Ontem de manhã saímos para andar e começamos pela El Ateneo Grand Splendid, a famosa livraria portenha tão recomendada por todos que aqui já vieram, sobretudo as gloriosas sapetes e o little boy. O lugar realmente é mágico, um ex-teatro que virou livraria, e estamos pertíssimo dela, umas duas ou três quadras:
Olha a gente aí!
E ainda tem mais:
Havia lá uma bela exposição, mas as fotos não ficaram boas, segue o texto: somos pó de estrelas...
E a primeira Quilmes in loco, enquanto aguardávamos as empanadas:
Nas nossas caminhadas de ontem encontramos várias outras livrarias (só tenho uma coisa a declarar: terra de Borges), uma loja Havanna (alfajores e cia.), milhares de cafés, pastelarias e restaurantes, e algumas outras lojas abertas, apesar de ser domingo. O bairro é bem simpático, tem muitas construções tipicamente francesas (acho que neoclássicas, tipo algumas do centro do Rio), inclusive um suntuoso palácio na praça Pizzurno pertíssimo daqui. Acabei de ver na internet que o palácio se chama Sarmiento e é onde estão abrigados o Ministério da Educação e (pasmem!) a Biblioteca Nacional de Maestros, sobre a qual já tinha lido quando buscava a Biblioteca Nacional da Argentina. Em breve saco uma foto para registrar, esta eu peguei aqui:
Uma coisa que me chama a atenção é que o clima de fim de ano não é opressor como no Brasil. Mas talvez esta seja apenas a impressão de uma forasteira. Juliana que ia gostar.
Ontem também pegamos o metrô (aqui chamado subte) na estação Callao. Olha a dona Odete aí:
E saltamos na estação Catedral, que faz parte da linha D do metrô de BA, inaugurado em 1913. Olhem que linda a azulejaria do El Cabildo:
Que ao vivo e a cores e devidamente reduzido pelo tempo (como o nosso Paço Imperial e várias outras construções coloniais) é mais ou menos isto:
A Casa Rosada fica bem em frente, mas ela será mais explorada em outra ocasião. Segue uma primeira foto tirada do meio da rua, numa rara hora sem movimento. Aliás, esta foi uma das poucas árvores de natal que vi por aqui:
E, claro, pichações:
Parece que a situação por aqui não está para peixe...
Ainda fomos à famosa feira de San Telmo, que rola todos os domingos, ocupando uma rua inteira, a calle Defensa, ao longo de umas 10 quadras. É muito gira, tem um monte de coisa acontecendo ao mesmo tempo e, claro, todos os tipos de artesanatos, alguns bem locais, outros mais universais. As lojas, os cafés e restaurantes, e os espaços culturais ficam abertos também, e a malta estava toda lá. Vimos uma pequena exposição de três pintoras, duas Silvias e uma Marisa, que estava bem legal, mas já estávamos cansadas de tanto andar o dia inteiro. Domingo que vem voltamos lá com o resto da trupe: tia Leyla chega na quarta, e Pedro e Julia no sábado.
Para finalizar o primeiro dia em BA, fomos a um clube de jazz aqui pertinho, o Notorious, umas quatro ou cinco quadras. Estava lá o Lalo Zanelli, pianista argentino retornando depois de três décadas em Paris. Tocaram com ele quatro jovens músicos: um batera, um baixista que se revezou entre o acústico e o elétrico, um guitarrista de sobrenome Fraga (como o Pedro), e um bandoneonista (será isso mesmo?) que é a cara e o jeito doce do Vlad Seixas. Ainda rolou a canja de um gaitista incrível. Muito legal o jazz-tango portenho! Ainda há mais três outros lugares que quero conhecer, a cena jazzística local parece bem movimentada. Segue um video do moço com outra banda em outro lugar:
Ah! Faltou dizer que o Edil, que está aqui desde julho fazendo um mestrado sanduíche, estava lá no aeroporto esperando a irmã dele e acabou nos recepcionando também, foi muito giro. O blog dele, O filósofo viajante, está cheio de dicas sobre Buenos Aires. Hoje vamos mais tarde na casa dele lá em Palermo para uma festa de natal. Seguem de presente algumas fotos da livraria mais antiga da cidade, a Livraria de Ávila, fundada no fim do século XVIII (mas em outro prédio, este é do século XX mesmo e fica em Montserrat, por onde passamos antes de San Telmo):