quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

77 - Bordalo Pinheiro e Federico Fellini

Depois de dois dias de trabalho na biblioteca, hoje tirei o dia para mim: fui ao museu e ao cinema. Já queria ir ao Museu Bordalo Pinheiro desde que cheguei, pois ouvi falar deveras dele e também porque é muito perto aqui da residência, fui a pé. Pois bem, o moço - Rafael Bordalo Pinheiro - contemporâneo do meu querido Machado, mas aqui na terrinha, era um caricaturista e um ceramista de mão cheia. As cerâmicas também são em grande parte caricaturas, inclusive dele mesmo. Sua produção é interessantíssima, de um senso de humor fantástico, a ponto de me deixar a maior parte do tempo com um sorriso maroto nos lábios. Extremamente crítico em relação ao mundo à sua volta, especialmente em relação à igreja, o moço fundou vários jornais, inclusive três no Brasil, não é incrível? E um desses se chamava Psit! Gostei especialmente de uma caricatura na forma de história em quadrinhos que ele fez retratando a sua viagem para o Brasil (uma coisa que ele fazia bastante era caricatura dele mesmo, muito giro), nos anos 70 do século XIX. Vai desde as expectativas que ele tinha de encontrar jacarés e outros bichos andando pelas ruas, passando pela sua viagem de navio lendo coisas sobre essa terra exótica, até o seu espanto de ser muito bem recebido aqui por uma sociedade organizadíssima, cultíssima e elegantérrima. Hoje também foi dia de rever La Dolce Vita, do Fellini, que passou numa sessão de divos lá da Cinemateca: é sempre bom rever o Marcello Mastroianni em todo o seu esplendor. Já tinha visto o filme há alguns anos, e claro que algumas cenas são sempre inesquecíveis, como a inicial do Marcello no helicóptero carregando uma estátua (de Jesus?), a dele com a Sylvia na fonte e toda aquela carnavalização felliniana que, na última sequência do filme, ganha um tom de esvaziamento angustiante; mas, dessa vez, o que mais me chamou a atenção foi a parte do Steiner, os diálogos travados entre ele e Marcello, entre os amigos na festa em sua casa e o seu derradeiro fim. Poesia pura, apesar do tom amargo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

76 - Arroubo poético espaço-temporal

Sou qualquer coisa de intermédio
Estou em algum lugar no intermédio
Entre Rio e Lisboa
Num tempo indeterminado
Que, como qualquer tempo,
Simplesmente passa
Mas não se encaixa
No tempo lá fora

Vivi todo este tempo em Lisboa
Desbravando um velho mundo novo
Mas o tempo era outro:
Não se tratava de calendários ou relógios
Nem de sistemas astrológicos!
Mas sim de uma experiência
Vivida, sorvida
A cada instante.
E uma experiência não se conta
Em meses, dias, horas ou ciclos planetários
Seu ritmo é o do pulso

O pulso ainda pulsa
Mas agora num outro ritmo
Estranho, intermediário
Sem espaço definido.
Parece um acerto de fuso
Mental, pessoal, introspectivo
Que me leva de volta ao Rio
Gradativamente
Sacando-me deste não-lugar

sábado, 10 de janeiro de 2009

75 - Assim como Sá-Carneiro, "sou qualquer coisa de intermédio"

Lisboa, 10 de janeiro de 2009.

Semana de trabalho na Biblioteca Nacional: praticamente acabei tudo por lá, agora só falta mesmo pegar as digitalizações que mandei fazer. Voltei a frequentar também as livrarias e sebos, pois tenho uma pequena lista de livros que ainda quero comprar e, se não conseguir, vou copiar na biblioteca. O plano na semana que vem é encerrar os trabalhos na Biblioteca da Faculdade de Letras e me aventurar um pouco também na Torre do Tombo e na Ajuda, mas sem inventar muita moda, pois agora já estou em clima de fechamento dos trabalhos por aqui. Aliás, tenho sentido um estranhamento ininteligível, parece que estou em outro tempo/espaço, "sou qualquer coisa de intermédio". Esse clima de fim de festa mudou o meu olhar sobre as coisas à minha volta, às vezes só queria um teletransporte para chegar correndo ao Rio e retomar a minha vida real, minha família, meu namorado, meus amigos, meu trabalho; às vezes, ao contrário, até já sinto saudade de Lisboa e da minha vida de sonho por aqui, trabalhando com pesquisa, desbravando terras estrangeiras e os meus próprios limites pessoais, andando por essas ruas tão amigáveis, falando com essa gente tão familiar. Aliás, hoje chegou a nau moçambicana de volta à Paz. Tive uma sensação de eterno retorno ou fim de ciclo, sei lá, pois quando eu cheguei, em agosto, eram eles que estavam aqui há meses, agora trocamos os papéis.
A escadaria da Paz

Detalhe dos azulejos da casa, que tem mais de 100 anos

Fala sério! Não é que há um Tycho Brahe pendurado na parede da residência?

Detalhe dos móveis antigos da casa

Esta ficou gira!

Peguei as duas no meio da troca de cortinas!

Biblioteca Nacional: os relevos na porta destacam reis, cientistas e poetas



Olha a Katia aí, gente!

domingo, 4 de janeiro de 2009

74 - Comida indiana, estrela e pessoa

Lisboa, 4 de janeiro de 2009

Ontem o camarada indiano se mudou da residência (sua reserva era só até esta semana), e eu e o camarada chinês fomos ajudá-lo na empreitada. A sua nova senhoria é muito gente boa, chama-se Carmo e é fotógrafa. Além dele, há dois estudantes na casa, um italiano e uma francesa. O legal é que agora ele pode cozinhar, então hoje voltamos lá para um almoço indiano, com direito às especiarias que vieram diretamente das Índias. Muito giro! Outra coisa legal é a localização, pois fica na parte antiga da cidade, mais Lisboa impossível, com seus casarios, roupas na janela etc. Adorei o lugar, que fica em São Bento, muito perto do Chiado e do Bairro Alto. Aproveitei para explorar um pouco a área a pé, indo até o Jardim da Estrela, que a Dona Rosa já tinha recomendado, e a Casa do Fernando Pessoa, que infelizmente não abre aos domingos. Ainda no clima de encontros e despedidas, as notícias fresquinhas são as seguintes: a minha amiga Teresa deve ter chegado hoje de Braga, onde passou o fim de ano; a Kátia, de Moçambique, já está voltando para Lisboa, chega no sábado que vem; e a Elena - la española loca - me disse hoje que vai tentar uma bolsa para o Rio.
Olha eu aí no Jardim da Estrela!

Marcando ponto na porta da última casa em que o Pessoa morou

Não é que achei o Pero Vaz de Caminha no meio do caminho...

Jardim da Estrela

Mais uma do jardim, que realmente é muito simpático



Isto é um ganso, um cisne ou o quê?

Olha o Pessoa na janela!

Fachada da Casa Fernando Pessoa

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

73 - Mais fotos do Ano Novo em Lisboa

Ainda na Paz, foi difícil convencer o Reiaz que já era noite, que não precisava dos óculos de sol...

Brasil e China na Praça do Comércio saudando o Ano Novo

A menina Inês e o camarada indiano desenhando no chão da sala da Dona Rosa

Logo depois dos fogos, a nau indo-chino-brasileira parou para uma foto no meio da iluminadíssima Praça do Comércio (ao fundo o D.José e o Arco da Augusta)

A menina Inês pulando na minha cama no meio da farra carnavalesca pré-reveillon

Rua do Ouro fechada para o trânsito um pouco antes da meia-noite

Olha eu aí à meia-noite preparando o bote no champanhe português!

Fala sério! Que figuraça o camarada chinês!

Mais um flagra do meu bote no champanhe (a lata de sumol na minha mão serviu de copo)

Meninas da Paz marcando presença no ano novo lisboeta

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

72 - Feliz Ano Novo!!!

Lisboa, 1 de janeiro de 2009.

Que venha 2009!!! A tripulação a bordo da nau Cruzeiro do Sul está quase pronta para zarpar e retomar sua vida após essa experiência inesquecível. O presente de fim de ano foi que finalmente chegou a minha encomenda da Biblioteca Nacional de Madri, ou seja, já tenho em mãos as primeiras páginas digitalizadas do manuscrito espanhol do Tetrabiblos. Sensação de missão cumprida, ou quase... Quanto ao ano novo, não estava planejando nada, mas ontem, quando fui ao mercado, meu olhar cruzou com um pacote de serpentina na prateleira e não resisti à tentação de carnavalizar um pouco o fim de ano frio e chuvoso de Lisboa. Trouxe o material aqui para a residência e, junto com a Inês, netinha de 4 anos da Dona Rosa, toquei o rebu na casa, brincando pelos corredores e decorando o ambiente. Depois sentamos um pouco para desenhar, vi um pouco de TV com o camarada indiano, comi bolinhos de bacalhau (aqui se chama pastel de bacalhau) quentinhos que a Dona Rosa estava preparando, e depois sonhos recém-pescados... Quando a embarcação chinesa chegou, combinamos de ver os fogos na Praça do Comércio, um dos points do reveillon lisboeta. Zarpamos do porto Paz às 10 e tal da noite, fizemos uma conexão com o metro Campo Grande até a Baixa, onde ancoramos de mala, cuia e champanhe nas mãos para saudar 2009. E não é que a malta estava toda lá? Pois é. A praça estava cheia, a música era péssima, desanimadíssima, andamos um pouco pela área - cinco navegantes solitários em terra estrangeira -, tirando fotos, batendo papo e observando os alfacinhas em seu habitat natural. Isso foi realmente divertido. Mas o must da noite foi mesmo o festival de fogos de artifíco no Tejo e na Praça à meia-noite: 17 minutos de um espetáculo incrível e belíssimo, de tirar o fôlego. Depois rolou o show de uma banda chamada Da Weasel, este sim bem mais animado, e, depois de entornar meia garrafa de champanhe, até consegui sacudir um pouco o esqueleto ali mesmo, no meio da Praça do Comércio, com um indiano, duas chinesas e um chinês, falando inglês e ao som do hip-hop português. Muito giro! A nota dissonante é que perdi ou roubaram o meu celular, mas, segundo o camarada chinês, isso é sinal de boa sorte...
Reiaz e Wong em pé no metro, pouco antes de o vagão lotar com a galera que estava indo para o mesmo lugar que nós. Na volta, apesar da divulgação de que haveria transporte até as duas da manhã, ficamos a ver navios, andamos um bom pedaço e finalmente conseguimos um taxi lá pelas duas e tal.

Tripulação da Paz partindo para o Reveillon lisboeta

Desenhando com a menina Inês no último dia de 2008

Serpentinas pela casa

A menina Inês feliz da vida com o carnaval de ano novo.