segunda-feira, 3 de outubro de 2011

100 - Começando a descobrir Granada

Hoje o dia começou com uma prova de nivelamento que me colocou numa turma avançada que tem umas sete pessoas contando comigo: um coroa italiano falador, um jovenzinho francês que questiona tudo, duas moças que não sei de onde são e provavelmente não vou saber, e mais duas trintonas que acho que são suíças e que me parecem bastante simpáticas. O nome da professora é Montze. Mas antes de entrar em sala de aula, outra professora da escola, a Ester, nos levou para um passeio pela cidade:


Foi muito giro! Ela nos contou um pouco da história da cidade conforme íamos andando, e me confirmou que o Reis Católicos realmente estão enterrados aqui (eles viveram em Granada depois do acordo com o último rei mouro - o Boabdill - que selou a Reconquista em 1492), mais precisamente na Capela Real:


Que olhando mais para cima é assim (que céu!!!):



Tudo isso ao pé da Catedral, um dos símbolos da conquista cristã. Os outros três são as alterações na Alhambra (já foi uma grande coisa não terem destruído tudo), a transformação da universidade moura em cristã e a Real Chancillería, onde depois funcionou o Tribunal da Inquisição.

A antiga universidade moura é em frente à Capela Real (depois saco outra foto, esta não está com boa luz) e até hoje abriga os eventos importantes da Universidade de Granada:


Falando em universidade, já fiquei sabendo onde se encontram os livros antigos: no Hospital Real e no Monastério de la Cartuja. Ai, ai, ai, que tentação...


Descobri também por que cargas d'água não percebi a cidade mourisca ontem. Porque, de fato, só andei pela parte cristã de Granada, que, naquele tempo, abrigava amigavelmente árabes, judeus e cristãos, mas cada um no seu quadrado: os árabes no Albaicín, os judeus no Realejo e os cristãos no resto da cidade. Dos judeus, segundo a professora, não restou sinal no bairro. O Albaicín continua sendo a mouraria de Granada, e o resto da cidade é visivelmente cristão. Esta praça, que abriga uma estátua da rainha Izabel fechando seu acordo com o Cristóvão Colombo, é como um limite desses três cantos da cidade:


Hoje, então, comecei a ver alguns sinais mouros sob orientação da professora, como este abaixo, mas amanhã começo minhas missões exploratórias na Alhambra, no Albaicín e no que mais vier. Olhem só:




Essas fotos acima são do Corral del Cárbon, um edifício que, no século XIV, fazia parte da cidade moura.

Para ajudar a entrar no clima, já senti cheiro de especiarias, encontrei algumas lojas que poderiam ser no Marrocos ou algo do gênero (aliás, vai rolar uma excursão para o Marrocos - outra tentação! -, mas aí eu teria que abrir mão de ir a Sevilha e Córdoba no fim de semana, o que não pretendo fazer, então o Magreb fica para outra ocasião), vi alguns exemplos de arquitetura mudéjar e, para finalizar, a aula de cultura foi bárbara. A professora - Mari Paz - começou com o domínio árabe na região a partir de 711, falou da Reconquista cristã do último rincão árabe da Península (Granada) em 1492, da perseguição a judeus e muçulmanos a partir de 1609, da Guerra Civil, de Lorca, enfim... Fiquei encantada!

Outra coisa que aprendi é que as ruas estreitas têm basicamente duas funções: evitam o calor escaldante do sol andaluz e facilitam a defesa e a proteção de quem conhece os segredos do labirinto, garantindo também a sua privacidade. De quebra ainda produzem o clima de mistério, surpresa e o romantismo de não se saber o que se vai encontrar ao dobrar uma esquina.

Quanto à residência, a convivência é pacífica. A maioria é de jovenzinhos simpáticos que falam inglês a maior parte do tempo, tocam violão à noite e gostam de preparar as suas próprias comidas. Como eu estou no esquema de pensão completa, tenho comido o que rola por aqui, que é simples mas honesto. Hoje de manhã tomei café com uma moça alemã que não fala uma palavra de espanhol, só inglês, e me pediu para ir com ela até a escola. Acho que se chama Verena. Fui com ela e outra moça americana, a Alison, que namora um brasileiro. Há também um ou dois quarentões como eu, um ou dois trintões, inclusive uma brasileira (acho que se chama Rose) e um setentão, o Michael, australiano aposentado com quem acabei de jantar batendo um bom papo em espanhol. Ele é vegetariano e, apesar de aposentado, continua trabalhando na televisão estatal australiana - ABC - ensinando os mais jovens. Disse que esteve na Espanha pela primeira vez quando era criança, que nunca mais esqueceu e que tem a impressão de que isso foi ontem. Viagens no tempo... Legal, né?

domingo, 2 de outubro de 2011

99 - Primeiras impressões de Granada

Aportei em Granada no início da tarde e, depois que a minha alma chegou, saí para começar a explorar esse último rincão mouro da Península. A bem da verdade, ainda não vi nada, talvez por isso a impressão de que estou numa cidade comum, universitária, moderninha, com sua parte histórica... Cadê a Granada mourisca? Isso porque passei longe da Alhambra e do Albaicin, que certamente me darão outra perspectiva, pelo menos é isso que eu espero. Ai, Lorca, me ajuda! Amanhã começa o curso, são 4 horas por dia, o resto é para viver a cidade. Por ora, foi isto o que eu vi:

 Claro, tinha que encontrar a Plaza de Toros!

 Este é o Monastério de San Jerónimo, fundado pelos Reis Católicos. Parece que eles estão enterrados aqui em Granada, só que na Catedral, outro dia vou lá conferir.
 

Agora um pouco das ruas. Este é um cruzamento movimentado das Avenidas de la Constitución, de Madrid e Dr. Severo Ochoa, aqui perto de onde estou. O prédio no fundo é giro, e que céu!

Esta é uma das ruas moderninhas pelas quais andei.
 
E esta é uma das históricas, só para pedestres, lembra muito Salamanca.
 
 Esta é a viela onde fica a residência de estudantes onde eu me encontro. É um labirinto de vielas, como a Mouraria e a Alfama em Lisboa. Em cima, estou na porta da residência olhando para a esquerda; embaixo, é a entrada da rua (tem uma confeitaria ótima na esquina).


Taí a entrada da residência:


Que no muro ao lado tem a seguinte pichação (o amor é lindo!):


Falando em pichação, mais algumas, que falam por si mesmas (para alegria da Ju e da Marcia):



No caminho achei este lugar que parece ser interessante, quem sabe eu me animo:


E o 15M parece que está com força total por aqui também:


E aqui é onde eu tenho que dar as caras amanhã cedo para a prova de nivelamento e o início das aulas:



sábado, 1 de outubro de 2011

98 - Salamanca e indignados na Porta do Sol

Hoje acordei cedo e fui de trem para Salamanca (três horas para ir e mais três para voltar) só para ver a minha mãe espanhola, a Luísa, que também está se aposentando. Ela botou o apartamento para vender há um ano e ainda não conseguiu (diz que a crise está dificultando tudo) e a ideia é ir morar com a filha em Madri. Só lembrando, estive lá em novembro de 2008, como se pode ver da postagem 47 à 62, desfrutando da bolsa que ganhei do Cervantes e também fazendo as minhas pesquisas doutorais nas bibliotecas salmantinas. Foi uma experiência fantástica!


Dei-lhe uma camiseta do Pão de Açúcar igual à minha, não é giro? Conversamos bastante, matamos as saudades e acabei almoçando por lá uma deliciosa paella.

Havia uma chica americana hospedada na casa e recém-caída de paraquedas na cidade, então fiz a minha boa ação de hoje e saí de cicerone. Andamos por toda a cidade, dei-lhe várias dicas, mostrei-lhe a Calle Toro, a Plaza Mayor, as catedrais, o astronauta, a universidade, a rã, o meu museu preferido, que é o Casa Lis (de art nouveau/decó, um contraste incrível com a cidade), os doces das monjas, o café Valor, e claro, o Céu de Salamanca


Aproveitei para tirar mais uma foto na Plaza Mayor para a minha coleção:


Ao chegar a Madri, encontrei os indignados do movimento 15M na Porta do Sol. Foi emocionante vê-los com os meus próprios olhos, porque os acompanhei de longe, pelo jornal e com as notícias que a Elena me mandava, torcendo para que contagiassem o mundo todo. Segue o registro fotográfico de uma assembleia no meio da praça:







Para quem não sabe o que é o 15M, veja aqui, aqui e também o artigo que escrevi para o curso do Cervantes no primeiro semestre:

La primavera árabe llega en España
Sin definiciones paralizantes, los indignados quieren vivir una democracia real ya


El Movimiento 15-M, gestado en redes sociales como los del mundo árabe, toma la palabra en la Puerta del Sol, diciendo ¡basta! a la democracia representativa que no representa a nadie y a los políticos que se sujetan al sistema financiero.

Metamorfoseada en una gran ágora desde el domingo, 15 de mayo de 2011, la Puerta del Sol, en Madrid, irradia para todo el mundo los aires de la potencia ciudadana, la indignacion producida pela conciencia de nuestros derechos civiles y la fuerza de uma generación que se levantó para pedir cambios ya. La ola indignada toma cuenta de las plazas de Madrid, de otras ciudades españolas y por todo el mundo, amenazando ganar espacios cada vez mayores.

En los acampamentos improvisados en las plazas, alguns temas son recurrentes y han sido discutidos, como la abolición de leyes injustas, la cuestión de la monarquía, las reformas fiscales, problemas de transportes, las condiciones laborales de la clase política, la mejora y regularización de las relaciones laborales, la democracia directa y participativa, la desvinculación total del Estado y la Iglesía, cuestiones ecológicas, la recuperación de las empresas públicas privatizadas, la reducción del gasto militar, la negativa de intervenir en cualquier escenario de guerra y la recuperación de la memoria histórica.

Seguro que la precariedad, el desempleo, la corrupción, la guerra, entre otras desgracias políticas y económicas, están bajo de toda la indignación, pero la diferencia en ese movimiento, como la de Plaza Tahrir – que logró éxito en sacudir el sistema – parece ser la demanda por una nueva forma de vida, que se puede organizar de otra manera, con prácticas, relaciones y modos de producción renovados. Además de la agilidad de internet, los indignados toman las plazas para debater, reflexionar, decir lo que piensan. No quieren violencia ni golpe de ningun tipo, tienen ganas de relacionarse, quedarse juntos, y compartir esa experiencia com imaginación, colores y magía. Hay alegría de haber vivido para ver movimiento tan promisor.

Se puede decir, en fin, que el 15-M es un movimiento espontáneo, una obra abierta, que todavía está en marcha, pero una cosa es cierta, los indignados han tomado la palabra y les ha gustado.


 Euzinha marcando presença num dos ícones da Porta do Sol, que estão no brasão da cidade: 
El oso y el madroño

Antes de chegar ao hotel, ainda me deparei com o Lorca e o hotel onde o Borges ficava:



E olhem só como estava a bombar a Calle Cervantes:


É isso aí, amanhã sigo para Granada.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

97 - Española e brasileiros loucos soltos em Madri

Hoje cheguei a Madri de manhã cedo depois de uma noite num trem hotel bem simpático. Essas viagens são muito legais. Aliás, com todo o respeito, o comissário de bordo (sei lá como se chama essa função no trem) era outro gajo gato. Ando com sorte ganhando colírio de graça por essas bandas. Mais sorte ainda no hotel que escolhi. Sem saber, vim parar no Bairro das Letras, olhem só:



Logo de cara encontrei o Cervantes na Plaza de las Cortes:


Agora com a placa mais de perto:


E os relevos laterais com Don Quijote e Sancho Panza:






Depois, na Plaza de España, mais do mesmo, agora comigo no meio, para celebrar a alegria que foi essa leitura ao longo do ano passado:




Achei também a casa do Lope de Vega, por quem me apaixonei quando vi o filme do Andrucha Waddington:


Esta é uma das poesias dele que descobri no ano passado:

 

Desmayarse, atreverse, estar furioso,

Áspero, tierno, liberal, esquivo,

Alentado, mortal, difunto, vivo,

Leal, traidor, cobarde y animoso;

No hallar fuera del bien centro y reposo,

Mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,

Enojado, valiente, fugitivo,

Satisfecho, ofendido, receloso;

Huir el rostro al claro desengaño,

Beber veneno por licor suave,

Olvidar el provecho, amar el daño;

Creer que un cielo en un infierno cabe,

Dar la vida y el alma a un desengaño;

Esto es amor, quien lo probó lo sabe.

 

Lope de Vega

Poesía selecta (Ed. Antonio Carreño). Madrid: Letras Hispánicas, 2003, p. 254.




Mas alegria mesmo foi encontrar minha amiga Elena, a española loca, e seu namorado Tom, brasileiro da gema:



Almoçamos juntos num restaurante que eles costumam frequentar, onde conhecem a malta toda, e que é honestíssimo, com comida boa e barata:


Na saída, a nau hispano-brasileira ainda fez pose para foto:


E depois mais pose da nau brasileira:


E do casal 20:


Andamos pela cidade toda, passamos em frente ao Palácio Real, fomos à Plaza de Oriente, onde se encontram estas ruínas egípcias (também nas fotos acima):




Passamos pela Plaza de España, descemos a Gran Vía e desaguamos na Puerta del Sol, perto da casa do Tom, onde ele e seus amigos começaram a preparar a feijoada que vai rolar amanhã. Espero que eu tenha condições de ir lá desfrutar disso, pois amanhã passo o dia em Salamanca.

Só faltou dizer que antes de encontrar com os amigos, fui ao único museu de Madri (dos três maiores) que ainda não conhecia: o Thyssen Bornemiza. O Prado e o Reina Sofía eu já havia conhecido da outra vez, como se vê nas postagens de 2008 aqui e aqui. Me gustó mucho! É pequeno, com um belíssimo e variado acervo, e dei sorte de estar rolando uma exposição da Vanguarda Russa do acervo do museu, que me lembrou a inesquecível exposição da Vanguarda Russa que rolou há uns dois anos lá no CCBB. Lembram?