domingo, 21 de agosto de 2022

A casa e o Miradouro da Penha de França



A vista, o vento e eu

"O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora." 
 Mia Couto

Amei esta citação do Mia Couto que encontrei no jornal Público de ontem. Mais do que o local onde habitamos, a casa é aquilo que levamos conosco, que nos habita onde quer que estejamos. Claro que há que se encontrar esse lugar "onde em nós a casa mora", isso requer disponibilidade para um mergulho interior. Mas acho que é por isso que não sinto um caráter de impessoalidade num quarto de hotel ou num apartamento alugado por temporada. Sinto um estranhamento inicial, como um ajuste de parâmetros, mas, em pouco tempo, a casa que me habita toma posse e se espalha pela nova morada.

Acho que isso se estende para as memórias, aquela sensação de familiaridade com certas pessoas e lugares antes habitados. Senti isso esta semana ao retornar a Campo Grande, rever D. Rosa, a residência Paz e todo aquele trajeto de metro e a pé que fazia diariamente nas minhas outras temporadas por aqui. Sinto isso também ao caminhar por essas ruas labirínticas de Arroios, que não conhecia antes, mas que têm o mesmo clima de outras ruas semelhantes da cidade. 


Já vou falar do Miradouro da Penha de França, mas antes quero registrar que nunca tinha ido lá e que estou a meras três quadras do local desde que encare uma subida reta mas bem íngreme. Claro que eu sabia da existência de caminhos alternativos para o miradouro um pouco menos puxados, mas quis começar da forma mais direta. Cheguei com a língua de fora, mas cheguei. Na volta, no entanto, resolvi sair por outro lado e perambular pelas ruas emaranhadas, que fariam qualquer um menos familiarizado com esse tipo de ziguezague, ou com menos senso de direção, se desesperar. Adoro me perder e me achar por essas ruas que me habitam.


Senti isso hoje de novo quando saí para comprar umas frutas e acabei me deparando com a Dani e o Carlos, que estavam no Pequeno comendo com uma galera. Mais uma boa surpresa, conversamos um pouco, e o mais giro é que isso me remeteu ao tempo em que vivia no Flamengo e que costumava encontrar casualmente com meus amigos que viviam nas redondezas.


Voltando ao miradouro, assim como vários outros da cidade, ele se encontra no topo de uma das belas colinas lisboetas, local da Igreja Nossa Senhora da Penha de França, que data de 1597, mas que foi reconstruída depois do terremoto de 1755. O sino tocou e resolvi entrar na igreja, havia lá meia dúzia de beatas. Sentei-me naquele silêncio convidativo e meditei em paz, foi bastante aprazível. Na hora da missa me surpreendi com uma das beatas puxando a reza, não havia padre. Saí de fininho. Evidentemente já voltei ao miradouro e pretendo voltar de novo, mas por outros caminhos...


Conheci outro vegetariano da região, o TheLife, e trouxe para comer no cafofo lisboeta um harburguer vegano regado ao primeiro vinho verde da temporada. A curiosidade foi o papo com o dono do restaurante, que não fala uma palavra de português, ele é do Nepal! Acho que não contei, mas a primeira informação que pedi na mercearia da esquina também foi para um camarada, talvez indiano, que também não falava português. Coisas da terrinha...




sábado, 20 de agosto de 2022

A viagem, a chegada e as primeiras impressões de Arroios

Cheguei na segunda a Lisboa, mas só na terça vim para o apartamento que aluguei no airbnb, que é muito giro, recomendo. O taxista que me trouxe na segunda para ver o ap se chama Ricardo e é a cara e o jeito do Raul (meu terapeuta, para quem não sabe), então amei! Já peguei o contato dele, caso precise, o que é pouco provável porque aqui só ando a pé e de metro. Mas na terça, para trazer a mala, ele já me deu o bolo, depois disse que dormiu, que estava com dor de garganta, ou seja, caiu na gandaia ontem, o que realmente me lembrou ainda mais a cara pisciana do Raul... 😀

Fiquei de segunda para terça no Ibis porque o ap aqui só ia vagar à tarde. Pena que lá tive que esperar algumas horas batendo cabeça de sono até conseguir ir para o quarto, mas tudo bem, acabei dormindo a contento e me recompondo. Reservei o Ibis porque eu sabia que, apesar de ter vindo na executiva, não conseguiria dormir.


Aliás, valeu cada centavo do caríssimo bilhete. A coisa já começa boa no aeroporto: não entrei em fila para despachar a bagagem, fiquei numa sala vip confortável com direito a comer e beber à vontade, inclusive vinhos e espumantes, sem pressa nem aglomeração, banheiro exclusivo da sala e poltronas fofas para esperar, ou seja, um oásis. Na hora do embarque também não enfrentei fila e entrei pela porta da frente do avião com meia dúzia de gatos pingados (na verdade, pelas minhas contas, são 36 poltronas confortabilíssimas na executiva, das quais a metade é individual, onde fiquei). E os comissários da TAP, o que que é aquilo? Sempre tem uma belezura entre eles para alegrar o dia da cinquentona aqui presente. Além disso, o serviço é excelente, a comida muito boa (foi até demais, tendo em vista o horário que comemos – cerca de duas horas depois de levantar voo às 15:40h em ponto -, mas quis provar tudo desde o aperitivo, passando pela entrada e prato principal, até a sobremesa) e o vinho, como de costume, maravilhoso. Antes de chegar ainda serviram uma refeição ligeira, tipo café da manhã (no horário do Brasil mais ou menos meia-noite), também muito boa.

A chegada no aeroporto foi super rápida, apesar da expectativa de fila homérica por conta das notícias dos últimos meses de caos aéreo em Lisboa. Deve ser porque este é o primeiro voo do dia, então não tinha fila, e o carinha só carimbou meu passaporte, perguntou onde eu ia ficar e pronto (trouxe aquela papelada toda – comprovantes de: vacinação, hospedagem, cartão e dinheiro, trabalho fixo no Brasil, passagem de volta, seguro saúde - em vão).

Na terça vim para cá depois do café no Ibis, comecei a me organizar e logo tomei um susto com o computador, mas nada que o camarada indiano da casa de informática da esquina não resolvesse. Aliás, estou no Arroios, bairro de imigrantes, mas, apesar das milhares de lojas de produtos brasileiros, chineses, africanos e de todos os cantos do mundo (dizem que 59 nacionalidades transitam por aqui!), ao meu olhar, por todos os lados, só vejo, ouço os falares e sinto os cheiros das especiarias dos mouros que me inspiraram durante a escrita da tese, ou seja, viajo no tempo e no espaço a todo instante. Pouco importa a nacionalidade, podem ser indianos da Caxemira, paquistaneses, árabes de raiz, do Magreb ou de qualquer outro canto do mundo, mas de uma coisa tenho certeza: são todos devotos do Islã. Hoje mesmo testemunhei o vizinho da frente na varandinha do apartamento virado para o leste (Meca) fazendo a sua primeira ou segunda oração do dia (eles têm que fazer cinco orações por dia). O que de novo me lembra a minha tese, afinal, nessa religião, todos (que estão no ocidente) têm que saber onde é o leste para rezar, o que não era trivial para quem não conhecia as estrelas...

Almocei na esplanada do Veganeats, um vegetariano muito pertinho, certamente vou virar freguesa, mas já vi que há outros também nas redondezas, oba! Fiz compras no mercado, pedi a bênção para o Tejo lá no Cais da Ribeira – que estava lotado de turistas se aglomerando, tô fora! – e comprei meu primeiro alentejano da temporada a preço de banana:

Meus cartões deram tilt, fiz um procedimento no fone fácil, falei com a minha gerente no Bradesco, e acabou dando tudo certo.

Mais encontros

Ontem fui à Livraria da Travessa encontrar o prof. Augusto Fitas e, claro, meu velho amigo Carlos, que lá trabalha. O detalhe é que quem sugeriu a Travessa foi o Fitas, mais uma "pura coincidência", já que eles não se conheciam, ou melhor, até se conheciam pois o Fitas costuma frequentar a livraria, mas nunca tinham sido apresentados... 

Olha o Carlos aí, gente!

Livros entregues (eles ganharam exemplares do meu segundo livro sobre o Tetrabiblos e, para o Fitas, levei também o último livro do Antonio Augusto), fui na Pastelaria Cister com o Fitas e ficamos ali um tempão conversando. Ótimo papo sobre Brasil, Portugal, história, filosofia, literatura, questões sociais, guerra, língua, preconceitos e, claro, memórias. Ele me contou sobre o tempo em que estudava ali mesmo em frente, na Escola Politécnica, e ia assiduamente nesse histórico café, que, no século XIX, era "frequentado por Eça de Queiroz quando começou a viver em Lisboa e por onde passaram, ao longo de século e meio, todos os estudantes que em Lisboa estudaram ciências". Diz ele que sempre que vai a Lisboa (ele mora em Évora) tem que voltar àquele lugar de tão boas memórias.


Professor Augusto Fitas, figura ilustre da minha história com Portugal

Depois disso saí andando lépida e fagueira, e passei na porta d´Os Tibetanos, um restaurante vegetariano daquela região que eu adoro. Estava fechado naquele horário, mas vi que está funcionando, sobreviveu à pandemia! Aproveitei que estava por ali e fui até a Cinemateca, um dos meus lugares preferidos de Lisboa. Entrei, peguei a programação, sentei no café e acabei não resistindo a comer uma tosta acompanhada de um abatanado. Fiquei sabendo também que eles estão fazendo sessões na esplanada durante o verão, o que me parece muito giro!


sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Memórias, sonhos e conexões


Vou falar um pouco sobre algo que me marcou na travessia Rio-Lisboa. Até tentei dormir, porque estava super confortável (vim na executiva, depois descrevo detalhes), mas não adianta, não consigo mesmo. 

Li o livro todo que a Beth me emprestou da Margareth Atwood, A odisseia de Penélope, do qual, confesso, esperava mais. Decerto que a expectativa de ler o que a autora de O conto da aia escreveu sobre a minha tão cara Odisseia atrapalhou, sem falar que ler em trânsito também não ajuda. Acho que vale a pena reler e dar outra chance ao livro... 

A boa surpresa mesmo foi o belíssimo documentário português que assisti: Insha´Allah- perdidos no berço do Islão, de João Brandão e com João Amorim e António Pedro Moreira. O filme está inteiro no youtube, é só clicar aqui. Trata-se de uma viagem pela Arábia Saudita de dois portugueses pegando carona e vivendo cada instante dessa experiência fantástica. Destaco a seguinte passagem sobre vida, viagens, plena atenção e memórias, que me toca sobremaneira: 

"A cena que eu mais curto em viagem é que faz-me sentir plenamente aqui [...]. Se quando eu viajo consigo lembrar mais dos meus dias, quer dizer que ganho mais memórias; se a vida são memórias, viajar dá mais vida [...]." (1:06:41-1:07:42, 1:09:53-1:10:30).

Para quem não sabe, o título desta postagem, que usei numa "intervenção" artístico- terapêutica que fiz numa das paredes da minha casa, é inspirado no livro de Carl Jung, Memórias, sonhos e reflexões:






Primeiros encontros da temporada

 

Ontem foi um dia de grandes emoções. Almocei com D. Rosa - minha mãe portuguesa - e seu filho Paulo numa marisqueira que abriu ao pé da Residência Paz, local onde passei as minhas duas primeiras temporadas nessa terrinha maravilhosa:

Vale dizer que, por aqui, marisqueira é o nome genérico para restaurantes de frutos do mar, então temos peixes fresquíssimos à mostra no gelo e caranguejos e outros bichos do mar vivos num aquário. O nome desta é Verde Mar, muito gira!

Matamos as saudades, começamos a colocar em dia as notícias das nossas vidas e lembramos de bons momentos das outras temporadas. Pedimos sardinha assada com batatas, o Paulo pediu piano, que é a nossa costelinha, mas, segundo a D. Rosa, ao contrário da nossa costelinha brasileira, a daqui é quase osso puro. A nota cômica foi ela tirando a espinha da sardinha para mim depois de me ver toda sem jeito tentando repetir a técnica ancestral e tão tranquila para ela, mas que, para mim, criatura que não entende nada de anatomia pisciana ou de qualquer outro animal com cabeça no prato, é um desastre total. Mãe, não pude deixar de lembrar da minha infância! Mais uma para a lista de "coincidências", que já está tão extensa que não dá mais para chamar de coincidência...

Mas o primeiríssimo encontro da temporada foi inesperado e aconteceu anteontem no Mercado de Arroios. Depois de falar com meu velho amigo Carlos, descobri que a Dani (ambos se mudaram para cá durante a minha última temporada em 2017 e já têm uma linda herdeira, a Olívia) está trabalhando aqui pertinho, no Pequeno Café e Bistrô. Como ainda estou explorando amarradona a vizinhança, qualquer coisa é desculpa para ir um pouco mais além. Como já era tarde, sabia que o mercado estaria fechado, mas fui assim mesmo. Qual não foi a minha surpresa (e a dela!) ao me deparar com o café fechado, mas com movimento lá dentro. E lá estava ela com sua filhota, ambas lindas!, encerrando o expediente da casa. Não registrei o momento em foto, mas em breve elas aparecerão por aqui. Por enquanto, fiquem com as fotos do mercado, que recentemente ganhou belíssimas artes de rua:






quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Bom dia, Lisboa!

Cá estou eu de novo em Lisboa, nem acredito... Ando meio introspectiva, carrancuda, pessimista (para dizer o mínimo), com dificuldades para escrever, produzir e até me divertir, mas essa cidade solar realmente mexe comigo. Pequenas coisas, algumas até chatinhas, são vistas com óculos cor-de-rosa. Por causa da pandemia pensei que nunca mais fosse sair de Maringá, a experiência foi radical, mas agora, depois de um mês e pouco num Rio de grandes emoções, só tenho uma coisa a declarar: bom dia, Lisboa!