terça-feira, 30 de agosto de 2022

Mar de livros, não olhe e até breve


Dias intensos com a minha amiga Teresa aqui em Lisboa. Fizemos várias atividades culturais, comemos em lugares giros, conversamos sobre tudo e todos, perambulamos pela cidade e matamos as saudades. Ela voltou para Braga, mas ficou a promessa de ainda nos vermos em setembro, quando ela deve voltar por essas bandas. 

Antes do "até breve", no entanto, fomos à feira do livro que está rolando por aqui. Um mar de livros que surfamos de cima a baixo, trocando sugestões e comentários de leituras e autores. Provavelmente vou voltar, porque achei muita coisa boa, mas num dia menos movimentado, porque no domingo, além do mar de livros, havia também um mar de gente, a malta estava toda lá:

Capturei esta foto do dia da abertura da feira na internet para dar uma ideia da multidão


Depois da feira ainda arrematamos numa sessão de cinema, vimos o novo filme do Jordan Peele. Recomendo deveras mais um filme brilhante desse cineasta, que também esteve à frente da nova versão da série "Além da imaginação". Depois dos assombrosos e inesquecíveis "Corra!" (Get out) e "Nós" (Us), ele ataca com "Não! Não olhe!" (Nope), que tem suscitado discussões interessantes, sobretudo na comparação com os dois anteriores, que foram um tremendo sucesso de crítica. Segue o trailer:











domingo, 28 de agosto de 2022

Da ópera ao jazz: a magia da música


Está rolando aqui em Lisboa um festival de ópera no jardim do Museu Nacional de Arte Antiga, o Operafest. O primeiro espetáculo foi justamente este aí do cartaz acima, e Teresa e eu fomos conferir na sexta-feira. Só ver gravações ou ouvir é uma coisa, e eu tenho minha coleçãozinha de ópera em casa, mas ver ao vivo toda aquela tragédia com pitadas cômicas cantada e encenada realmente é uma experiência incrível. Ainda mais num jardim a céu aberto, testemunhando uma história emocionante que fala de máscaras e destino escrito nas estrelas (na palma da mão e pelo capeta). Tudo bem que, apesar de estarmos no verão e até devidamente agasalhadas (finalmente usei meu casaco de couro, que achei que nem ia ter oportunidade de usar diante do calor e da secura que têm rolado por aqui), acabamos ficando com frio... Brrrr

Foto gira que a Teresa fez do local antes de lotar

Para além da obra em si e da óbvia referência a questões astrológicas clássicas - destino, determinismo -, essa ópera me tocou também por conta da onda pessoana que estou vivendo. Não dá para não lembrar das máscaras de Pessoa: "Quando eu quis tirar a máscara ela estava pregada à cara". E já que falamos de Pessoa, o último espetáculo do programa será uma adaptação de um conto do seu grande amigo Mário de Sá-Carneiro, "O homem dos sonhos". Parece interessantíssimo ver isso em ópera! Detalhe curioso é que esse último dia contará também com uma rave operática que, segundo o programa, é "para acabar em delírio e em festa dançante com múltiplas surpresas, a edição do Operafest deste ano!" Viva Baco! E já que falamos dele:

Belo exemplar de vinho verde que acompanhou o almoço chinês no restaurante Grande Palácio Hong Kong

Ontem voltei a um dos meus lugares preferidos de Lisboa, e já muito citado aqui no blog, o clube de jazz Hot Clube de Portugal. Estava rolando um concerto muito giro de Ricardo Pinto Sexteto. Além do trompetista Ricardo Pinto, havia lá dois saxofonistas, Ricardo Toscano e Bernardo Tinoco, o pianista Óscar Graça, o batera Luis Candeias e o baixo de André Rosinha. Vejam o sexteto no estúdio preparando seu último álbum que ouvimos ontem em primeira mão:

Uma maravilha, quase inacreditável mesmo, tendo em vista a pandemia-pandemônio, que me fez crer que a vida seria para sempre daquele jeito. Nesses últimos dois anos e meio acompanhei de longe o HCP pelo canal do youtube e, inicialmente preocupada com a sua sobrevivência, vi o fechamento por causa do lockdown, seguida da reabertura gradativa com lives, depois com público escasso, depois com público normal e máscaras, e agora estou testemunhando todos se sentindo finalmente libertos da pandemia, provavelmente vacinados e sem máscara, celebrando o jazz. Aliás, aqui em Lisboa só no transporte público é obrigatório o uso de máscaras, mas isso deve cair já na semana que vem. Eu relutei um bocado com a minha paranoia, mas tenho falado bastante sobre isso com a Teresa, que tem me ajudado a racionalizar essa questão e afastar o medo.

Maravilha de noitada musical! Como nunca tirei nenhuma foto no Hot Clube, aproveitei o ensejo:


Só faltou dizer que comemos tapas na Taberna Ibérica, que é pertinho do HCP, antes de irmos para lá. Boa comida espanhola regada a uma sangria de cava. Tintim!













 

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Amiga d´além mar e mais "coincidências"

Minha amiga Teresa chegou de Braga na quarta e estamos matando as saudades desses cinco anos, botando a conversa em dia e fazendo vários programinhas juntas:

Amizade transatlântica!

Ganhei um presente assombrosamente maravilhoso: a mais recente, incensada e enciclopédica (quase 1200 páginas!) biografia de Fernando Pessoa:


Já não vou mais falar de coincidências por aqui, porque isso já está para lá de bizarro, mas no dia do encontro com o Fitas na semana passada, entre os vários livros que compareceram no nosso papo sobre um pouco de tudo, um deles foi justamente este, que ele disse que foi o companheiro dele numa viagem recente de uma semana ao Algarve. Claro que os comentários do Fitas, sempre recheados da sua plena sabedoria, já tinham me colocado água na boca sobre esse livro, mas não poderia imaginar que estaria com ele em mãos alguns dias depois...

Evidentemente já dei uma boa folheada no livro, bati os olhos em várias referências à astrologia e, como adoro mapas, me detive num de Lisboa com os vários locais em que o Pessoa morou. Já conhecia alguns deles, mas acabei me deparando com um menos conhecido e que é aqui pertinho. Curiosamente, bem antes de pegar no livro, já tinha combinado com a Teresa de almoçarmos num vegetariano ali do lado. Coincidência? Aí não teve jeito, mais uma foto aqui, uma selfie ali e aquela balbúrdia toda:



Rua Pascoal de Melo 119

O vegetariano da vez foi o Lisbon Vegan, em esquema de bufê honestíssimo, mais uma boa opção das redondezas. Aí na saída não teve jeito, a louca da selfie atacou de novo:


À noite fomos à Cinemateca jantar e ver o cinema na esplanada, mas os ingressos já estavam esgotados. Ficamos só com o jantar e com mais um bom papo regado a um Sauvignon Blanc da casa. Já tenho várias fotos da cinemateca neste blog, então segue aqui uma diferente:


E agora, claro, com a nossa presença:





quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Palavra, silêncio e a fonte luminosa

A sensação de estar virando palavra não é inédita, já tinha sentido isso das outras vezes em Lisboa. Parece que há uma magia literária contagiante na cidade. Claro que agora há também a minha memória, afinal, lá se vão 14 anos que botei os pés aqui pela primeira vez. Decerto já senti isso em outras ocasiões, em outras geografias, mas essa Lisboa mágica habita em mim. Também pode ser o estado de graça da solidão, de curtir a minha própria companhia, o prazer de mergulhar em mim mesma e fruir o silêncio até no meio do burburinho. E esse bairro de Arroios tem um burburinho peculiar, como já falei em outras postagens. A propósito, para complementar o visual do entorno da Penha de França, olhe como ela é gira vista lá de baixo:


E agora mais de perto:

Descobri esse visual da Penha de França perambulando para além do Mercado de Arroios, onde achei um lugar bom para fazer as minhas caminhadas, o jardim em frente à chamada "Fonte Luminosa", vejam só:

Esta foto fiz lá em cima da fonte, onde há um mirante

Agora a fonte de manhã:


 Só à tarde eles abrem as águas:


A foto acima e estas noturnas capturei na internet:


No detalhe:


Pelo que li, a fonte foi inaugurada nos anos 1940 para comemorar o abastecimento de água nessa região da cidade, e vemos ali Tritão e as sereias. É claramente um local mais frequentado pelos moradores do que pelos turistas, o que, nessa época do ano, pode significar um oásis...

Evidentemente há também os eflúvios dionisíacos, pois o vinho nacional, como já se sabe, é o meu preferido.

O bom e velho Reguengos, agora com rótulo branco



domingo, 21 de agosto de 2022

A casa e o Miradouro da Penha de França



A vista, o vento e eu

"O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora." 
 Mia Couto

Amei esta citação do Mia Couto que encontrei no jornal Público de ontem. Mais do que o local onde habitamos, a casa é aquilo que levamos conosco, que nos habita onde quer que estejamos. Claro que há que se encontrar esse lugar "onde em nós a casa mora", isso requer disponibilidade para um mergulho interior. Mas acho que é por isso que não sinto um caráter de impessoalidade num quarto de hotel ou num apartamento alugado por temporada. Sinto um estranhamento inicial, como um ajuste de parâmetros, mas, em pouco tempo, a casa que me habita toma posse e se espalha pela nova morada.

Acho que isso se estende para as memórias, aquela sensação de familiaridade com certas pessoas e lugares antes habitados. Senti isso esta semana ao retornar a Campo Grande, rever D. Rosa, a residência Paz e todo aquele trajeto de metro e a pé que fazia diariamente nas minhas outras temporadas por aqui. Sinto isso também ao caminhar por essas ruas labirínticas de Arroios, que não conhecia antes, mas que têm o mesmo clima de outras ruas semelhantes da cidade. 


Já vou falar do Miradouro da Penha de França, mas antes quero registrar que nunca tinha ido lá e que estou a meras três quadras do local desde que encare uma subida reta mas bem íngreme. Claro que eu sabia da existência de caminhos alternativos para o miradouro um pouco menos puxados, mas quis começar da forma mais direta. Cheguei com a língua de fora, mas cheguei. Na volta, no entanto, resolvi sair por outro lado e perambular pelas ruas emaranhadas, que fariam qualquer um menos familiarizado com esse tipo de ziguezague, ou com menos senso de direção, se desesperar. Adoro me perder e me achar por essas ruas que me habitam.


Senti isso hoje de novo quando saí para comprar umas frutas e acabei me deparando com a Dani e o Carlos, que estavam no Pequeno comendo com uma galera. Mais uma boa surpresa, conversamos um pouco, e o mais giro é que isso me remeteu ao tempo em que vivia no Flamengo e que costumava encontrar casualmente com meus amigos que viviam nas redondezas.


Voltando ao miradouro, assim como vários outros da cidade, ele se encontra no topo de uma das belas colinas lisboetas, local da Igreja Nossa Senhora da Penha de França, que data de 1597, mas que foi reconstruída depois do terremoto de 1755. O sino tocou e resolvi entrar na igreja, havia lá meia dúzia de beatas. Sentei-me naquele silêncio convidativo e meditei em paz, foi bastante aprazível. Na hora da missa me surpreendi com uma das beatas puxando a reza, não havia padre. Saí de fininho. Evidentemente já voltei ao miradouro e pretendo voltar de novo, mas por outros caminhos...


Conheci outro vegetariano da região, o TheLife, e trouxe para comer no cafofo lisboeta um harburguer vegano regado ao primeiro vinho verde da temporada. A curiosidade foi o papo com o dono do restaurante, que não fala uma palavra de português, ele é do Nepal! Acho que não contei, mas a primeira informação que pedi na mercearia da esquina também foi para um camarada, talvez indiano, que também não falava português. Coisas da terrinha...




sábado, 20 de agosto de 2022

A viagem, a chegada e as primeiras impressões de Arroios

Cheguei na segunda a Lisboa, mas só na terça vim para o apartamento que aluguei no airbnb, que é muito giro, recomendo. O taxista que me trouxe na segunda para ver o ap se chama Ricardo e é a cara e o jeito do Raul (meu terapeuta, para quem não sabe), então amei! Já peguei o contato dele, caso precise, o que é pouco provável porque aqui só ando a pé e de metro. Mas na terça, para trazer a mala, ele já me deu o bolo, depois disse que dormiu, que estava com dor de garganta, ou seja, caiu na gandaia ontem, o que realmente me lembrou ainda mais a cara pisciana do Raul... 😀

Fiquei de segunda para terça no Ibis porque o ap aqui só ia vagar à tarde. Pena que lá tive que esperar algumas horas batendo cabeça de sono até conseguir ir para o quarto, mas tudo bem, acabei dormindo a contento e me recompondo. Reservei o Ibis porque eu sabia que, apesar de ter vindo na executiva, não conseguiria dormir.


Aliás, valeu cada centavo do caríssimo bilhete. A coisa já começa boa no aeroporto: não entrei em fila para despachar a bagagem, fiquei numa sala vip confortável com direito a comer e beber à vontade, inclusive vinhos e espumantes, sem pressa nem aglomeração, banheiro exclusivo da sala e poltronas fofas para esperar, ou seja, um oásis. Na hora do embarque também não enfrentei fila e entrei pela porta da frente do avião com meia dúzia de gatos pingados (na verdade, pelas minhas contas, são 36 poltronas confortabilíssimas na executiva, das quais a metade é individual, onde fiquei). E os comissários da TAP, o que que é aquilo? Sempre tem uma belezura entre eles para alegrar o dia da cinquentona aqui presente. Além disso, o serviço é excelente, a comida muito boa (foi até demais, tendo em vista o horário que comemos – cerca de duas horas depois de levantar voo às 15:40h em ponto -, mas quis provar tudo desde o aperitivo, passando pela entrada e prato principal, até a sobremesa) e o vinho, como de costume, maravilhoso. Antes de chegar ainda serviram uma refeição ligeira, tipo café da manhã (no horário do Brasil mais ou menos meia-noite), também muito boa.

A chegada no aeroporto foi super rápida, apesar da expectativa de fila homérica por conta das notícias dos últimos meses de caos aéreo em Lisboa. Deve ser porque este é o primeiro voo do dia, então não tinha fila, e o carinha só carimbou meu passaporte, perguntou onde eu ia ficar e pronto (trouxe aquela papelada toda – comprovantes de: vacinação, hospedagem, cartão e dinheiro, trabalho fixo no Brasil, passagem de volta, seguro saúde - em vão).

Na terça vim para cá depois do café no Ibis, comecei a me organizar e logo tomei um susto com o computador, mas nada que o camarada indiano da casa de informática da esquina não resolvesse. Aliás, estou no Arroios, bairro de imigrantes, mas, apesar das milhares de lojas de produtos brasileiros, chineses, africanos e de todos os cantos do mundo (dizem que 59 nacionalidades transitam por aqui!), ao meu olhar, por todos os lados, só vejo, ouço os falares e sinto os cheiros das especiarias dos mouros que me inspiraram durante a escrita da tese, ou seja, viajo no tempo e no espaço a todo instante. Pouco importa a nacionalidade, podem ser indianos da Caxemira, paquistaneses, árabes de raiz, do Magreb ou de qualquer outro canto do mundo, mas de uma coisa tenho certeza: são todos devotos do Islã. Hoje mesmo testemunhei o vizinho da frente na varandinha do apartamento virado para o leste (Meca) fazendo a sua primeira ou segunda oração do dia (eles têm que fazer cinco orações por dia). O que de novo me lembra a minha tese, afinal, nessa religião, todos (que estão no ocidente) têm que saber onde é o leste para rezar, o que não era trivial para quem não conhecia as estrelas...

Almocei na esplanada do Veganeats, um vegetariano muito pertinho, certamente vou virar freguesa, mas já vi que há outros também nas redondezas, oba! Fiz compras no mercado, pedi a bênção para o Tejo lá no Cais da Ribeira – que estava lotado de turistas se aglomerando, tô fora! – e comprei meu primeiro alentejano da temporada a preço de banana:

Meus cartões deram tilt, fiz um procedimento no fone fácil, falei com a minha gerente no Bradesco, e acabou dando tudo certo.