sábado, 3 de setembro de 2022

Bacalhau regado a memórias do linho e do lixo

Dona Rosa fez um bacalhau e nós fomos lá prestigiar!

Depois do almoço maravilhoso regado a um regional alentejano e finalizado com um moscatel fortificado, tive a oportunidade de ouvir as memórias de infância e juventude da D. Rosa em Ponte de Lima, sua terra natal no norte do país. Fui puxando suas histórias familiares (estava curiosa sobre o lado Souza da família dela, e ela disse que tem uma turma que foi para o Brasil, mas não sabe quando) e ela desencavou um monte de lembranças boas e outras nem tanto, como a morte dos irmãos (eram quatro, o último se foi recentemente), a vida dura no campo depois da morte do pai etc. Mas o destaque mesmo ficou para a fabricação do linho, que ela me contou nos mínimos detalhes, espantada de como se lembrava de tudo, e ressaltando a trabalheira e o caráter tradicional e artesanal da coisa toda: "por isso que é tão caro", disse ela.


Mais espantada fiquei eu ao procurar na internet e ver a precisão de tudo o que ela me contou, sem falar a belezura do ciclo do linho, que eu só tinha imaginado conforme ela ia descrevendo. 


Quem quiser ver, achei vários vídeos no youtube, mas compartilho este que é menorzinho:


E já que estávamos na onda das memórias, ela emendou no impacto que teve recentemente diante das coisas dos vizinhos que foram parar no lixo depois que eles morreram. Fez uma breve reflexão sobre o valor sentimental dos objetos, o consumismo-desperdício das novas gerações e o medo de que coisas tão valorosas para ela, por representarem pessoas, momentos e memórias importantes, tenham o mesmo destino. Diante desse quase lamento, D. Rosa arrematou com sua solução para o problema: “por isso comecei a distribuir as minhas coisas às pessoas queridas”...


sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Plural como o universo

 

Caricatura que se encontra na biografia do Pessoa.
Não tem os créditos, imagino que seja do próprio autor, Richard Zenith.

"Sê plural como o universo!", diz Pessoa num papel encontrado no famoso baú anos depois da sua morte. Sim, sabemos dos seus heterônimos, da sua "automultiplicação", desse "fenómeno de autoria estilhaçada", mas eu não sabia - ou não tinha registrado - que eram tantos (mais de 100!), a maioria desconhecidos, autores de pequenos textos ou de projetos de textos. Dessa centena de criaturas autorais, cerca de 30 assinaram pelo menos uma obra significativa, e os mais conhecidos, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, são também os heterônimos plenamente desenvolvidos. Bernardo Soares, autor do Livro do desassossego, destaca-se sobretudo por ter escrito o livro em prosa mais importante de Pessoa, que trata de tudo e mais um pouco, mas são ambos, heterônimo e livro, incompletos, incertos, fragmentários. A incompletude, a incerteza e o fragmentarismo, no entanto, acabam sendo um ótimo exemplo do próprio autor e da sua vasta, rica e complexa obra. 

Caricatura no site da Sociedad de Filosofía Aplicada

Numa busca de conectar tudo o que penso, lembro, sonho, leio, estudo e contemplo, ou seja, tudo o que vivo, acho que esse pluralismo pessoano tem tudo a ver com o mergulho no pluralismo de Feyerabend que temos feito no nosso GP de Science Studies da UEM. Olhem só o que o Zenith diz, no prólogo do livro: que o Pessoa "queria ver tudo a partir de todos os pontos de vista possíveis", ainda que incorresse em inconsistências (p. 30). Isso sem falar da famosa revelação do mestre Caeiro: "A Natureza é partes sem um todo". Assim como Feyerabend, o biógrafo se aproxima um bocado das questões da física contemporânea, falando que os heterônimos são como "partículas de um campo quântico" (p. 24), colocando em destaque o seu caráter de incerteza.


Também faço uma ligação com os meus estudos de escritas e reescritas do Tetrabiblos, com toda aquela discussão sobre autoria, original e fidelidade, que é tão cara aos estudos da tradução. Tudo bem que estou aqui aquecendo para preparar a aula de história da tradução que vou dar na PUC no dia 21, mas acho que não estou vendo coisas. Quando o Zenith nos fala do Livro do desassossego, que só foi publicado em 1982 com cerca de 300 fragmentos, lembra não só do seu caráter fragmentar e de "diário semificcional", mas também da história de como ele foi desencavado, decodificado (a letra do Pessoa era um horror) e, a cada edição, alterado. Nesses 40 anos desde a primeira edição, os editores não concordam sobre o que realmente pertence ao livro. Isso é maravilhoso, mais pessoano impossível! Não há um original ao qual os editores devam ser fiéis, então não é possível uma edição definitiva.


De quebra, ainda tem a pegada mística do Pessoa, a sua "busca espiritual", sua ligação com a teosofia (ele traduziu Blavatsky!), sua amizade com o Aleister Crowley e, claro, a sua relação com a astrologia. Segundo Zenith: "os heterônimos eram um meio para transformar alquimicamente o ser" (p. 31). Acho que o Jung ia gostar... Então tintim com mais um vinho verde:




terça-feira, 30 de agosto de 2022

Mar de livros, não olhe e até breve


Dias intensos com a minha amiga Teresa aqui em Lisboa. Fizemos várias atividades culturais, comemos em lugares giros, conversamos sobre tudo e todos, perambulamos pela cidade e matamos as saudades. Ela voltou para Braga, mas ficou a promessa de ainda nos vermos em setembro, quando ela deve voltar por essas bandas. 

Antes do "até breve", no entanto, fomos à feira do livro que está rolando por aqui. Um mar de livros que surfamos de cima a baixo, trocando sugestões e comentários de leituras e autores. Provavelmente vou voltar, porque achei muita coisa boa, mas num dia menos movimentado, porque no domingo, além do mar de livros, havia também um mar de gente, a malta estava toda lá:

Capturei esta foto do dia da abertura da feira na internet para dar uma ideia da multidão


Depois da feira ainda arrematamos numa sessão de cinema, vimos o novo filme do Jordan Peele. Recomendo deveras mais um filme brilhante desse cineasta, que também esteve à frente da nova versão da série "Além da imaginação". Depois dos assombrosos e inesquecíveis "Corra!" (Get out) e "Nós" (Us), ele ataca com "Não! Não olhe!" (Nope), que tem suscitado discussões interessantes, sobretudo na comparação com os dois anteriores, que foram um tremendo sucesso de crítica. Segue o trailer:











domingo, 28 de agosto de 2022

Da ópera ao jazz: a magia da música


Está rolando aqui em Lisboa um festival de ópera no jardim do Museu Nacional de Arte Antiga, o Operafest. O primeiro espetáculo foi justamente este aí do cartaz acima, e Teresa e eu fomos conferir na sexta-feira. Só ver gravações ou ouvir é uma coisa, e eu tenho minha coleçãozinha de ópera em casa, mas ver ao vivo toda aquela tragédia com pitadas cômicas cantada e encenada realmente é uma experiência incrível. Ainda mais num jardim a céu aberto, testemunhando uma história emocionante que fala de máscaras e destino escrito nas estrelas (na palma da mão e pelo capeta). Tudo bem que, apesar de estarmos no verão e até devidamente agasalhadas (finalmente usei meu casaco de couro, que achei que nem ia ter oportunidade de usar diante do calor e da secura que têm rolado por aqui), acabamos ficando com frio... Brrrr

Foto gira que a Teresa fez do local antes de lotar

Para além da obra em si e da óbvia referência a questões astrológicas clássicas - destino, determinismo -, essa ópera me tocou também por conta da onda pessoana que estou vivendo. Não dá para não lembrar das máscaras de Pessoa: "Quando eu quis tirar a máscara ela estava pregada à cara". E já que falamos de Pessoa, o último espetáculo do programa será uma adaptação de um conto do seu grande amigo Mário de Sá-Carneiro, "O homem dos sonhos". Parece interessantíssimo ver isso em ópera! Detalhe curioso é que esse último dia contará também com uma rave operática que, segundo o programa, é "para acabar em delírio e em festa dançante com múltiplas surpresas, a edição do Operafest deste ano!" Viva Baco! E já que falamos dele:

Belo exemplar de vinho verde que acompanhou o almoço chinês no restaurante Grande Palácio Hong Kong

Ontem voltei a um dos meus lugares preferidos de Lisboa, e já muito citado aqui no blog, o clube de jazz Hot Clube de Portugal. Estava rolando um concerto muito giro de Ricardo Pinto Sexteto. Além do trompetista Ricardo Pinto, havia lá dois saxofonistas, Ricardo Toscano e Bernardo Tinoco, o pianista Óscar Graça, o batera Luis Candeias e o baixo de André Rosinha. Vejam o sexteto no estúdio preparando seu último álbum que ouvimos ontem em primeira mão:

Uma maravilha, quase inacreditável mesmo, tendo em vista a pandemia-pandemônio, que me fez crer que a vida seria para sempre daquele jeito. Nesses últimos dois anos e meio acompanhei de longe o HCP pelo canal do youtube e, inicialmente preocupada com a sua sobrevivência, vi o fechamento por causa do lockdown, seguida da reabertura gradativa com lives, depois com público escasso, depois com público normal e máscaras, e agora estou testemunhando todos se sentindo finalmente libertos da pandemia, provavelmente vacinados e sem máscara, celebrando o jazz. Aliás, aqui em Lisboa só no transporte público é obrigatório o uso de máscaras, mas isso deve cair já na semana que vem. Eu relutei um bocado com a minha paranoia, mas tenho falado bastante sobre isso com a Teresa, que tem me ajudado a racionalizar essa questão e afastar o medo.

Maravilha de noitada musical! Como nunca tirei nenhuma foto no Hot Clube, aproveitei o ensejo:


Só faltou dizer que comemos tapas na Taberna Ibérica, que é pertinho do HCP, antes de irmos para lá. Boa comida espanhola regada a uma sangria de cava. Tintim!













 

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Amiga d´além mar e mais "coincidências"

Minha amiga Teresa chegou de Braga na quarta e estamos matando as saudades desses cinco anos, botando a conversa em dia e fazendo vários programinhas juntas:

Amizade transatlântica!

Ganhei um presente assombrosamente maravilhoso: a mais recente, incensada e enciclopédica (quase 1200 páginas!) biografia de Fernando Pessoa:


Já não vou mais falar de coincidências por aqui, porque isso já está para lá de bizarro, mas no dia do encontro com o Fitas na semana passada, entre os vários livros que compareceram no nosso papo sobre um pouco de tudo, um deles foi justamente este, que ele disse que foi o companheiro dele numa viagem recente de uma semana ao Algarve. Claro que os comentários do Fitas, sempre recheados da sua plena sabedoria, já tinham me colocado água na boca sobre esse livro, mas não poderia imaginar que estaria com ele em mãos alguns dias depois...

Evidentemente já dei uma boa folheada no livro, bati os olhos em várias referências à astrologia e, como adoro mapas, me detive num de Lisboa com os vários locais em que o Pessoa morou. Já conhecia alguns deles, mas acabei me deparando com um menos conhecido e que é aqui pertinho. Curiosamente, bem antes de pegar no livro, já tinha combinado com a Teresa de almoçarmos num vegetariano ali do lado. Coincidência? Aí não teve jeito, mais uma foto aqui, uma selfie ali e aquela balbúrdia toda:



Rua Pascoal de Melo 119

O vegetariano da vez foi o Lisbon Vegan, em esquema de bufê honestíssimo, mais uma boa opção das redondezas. Aí na saída não teve jeito, a louca da selfie atacou de novo:


À noite fomos à Cinemateca jantar e ver o cinema na esplanada, mas os ingressos já estavam esgotados. Ficamos só com o jantar e com mais um bom papo regado a um Sauvignon Blanc da casa. Já tenho várias fotos da cinemateca neste blog, então segue aqui uma diferente:


E agora, claro, com a nossa presença:





quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Palavra, silêncio e a fonte luminosa

A sensação de estar virando palavra não é inédita, já tinha sentido isso das outras vezes em Lisboa. Parece que há uma magia literária contagiante na cidade. Claro que agora há também a minha memória, afinal, lá se vão 14 anos que botei os pés aqui pela primeira vez. Decerto já senti isso em outras ocasiões, em outras geografias, mas essa Lisboa mágica habita em mim. Também pode ser o estado de graça da solidão, de curtir a minha própria companhia, o prazer de mergulhar em mim mesma e fruir o silêncio até no meio do burburinho. E esse bairro de Arroios tem um burburinho peculiar, como já falei em outras postagens. A propósito, para complementar o visual do entorno da Penha de França, olhe como ela é gira vista lá de baixo:


E agora mais de perto:

Descobri esse visual da Penha de França perambulando para além do Mercado de Arroios, onde achei um lugar bom para fazer as minhas caminhadas, o jardim em frente à chamada "Fonte Luminosa", vejam só:

Esta foto fiz lá em cima da fonte, onde há um mirante

Agora a fonte de manhã:


 Só à tarde eles abrem as águas:


A foto acima e estas noturnas capturei na internet:


No detalhe:


Pelo que li, a fonte foi inaugurada nos anos 1940 para comemorar o abastecimento de água nessa região da cidade, e vemos ali Tritão e as sereias. É claramente um local mais frequentado pelos moradores do que pelos turistas, o que, nessa época do ano, pode significar um oásis...

Evidentemente há também os eflúvios dionisíacos, pois o vinho nacional, como já se sabe, é o meu preferido.

O bom e velho Reguengos, agora com rótulo branco