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Dona Rosa fez um bacalhau e nós fomos lá prestigiar! |
A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
sábado, 3 de setembro de 2022
Bacalhau regado a memórias do linho e do lixo
sexta-feira, 2 de setembro de 2022
Plural como o universo
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| Caricatura que se encontra na biografia do Pessoa. Não tem os créditos, imagino que seja do próprio autor, Richard Zenith. |
"Sê plural como o universo!", diz Pessoa num papel encontrado no famoso baú anos depois da sua morte. Sim, sabemos dos seus heterônimos, da sua "automultiplicação", desse "fenómeno de autoria estilhaçada", mas eu não sabia - ou não tinha registrado - que eram tantos (mais de 100!), a maioria desconhecidos, autores de pequenos textos ou de projetos de textos. Dessa centena de criaturas autorais, cerca de 30 assinaram pelo menos uma obra significativa, e os mais conhecidos, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, são também os heterônimos plenamente desenvolvidos. Bernardo Soares, autor do Livro do desassossego, destaca-se sobretudo por ter escrito o livro em prosa mais importante de Pessoa, que trata de tudo e mais um pouco, mas são ambos, heterônimo e livro, incompletos, incertos, fragmentários. A incompletude, a incerteza e o fragmentarismo, no entanto, acabam sendo um ótimo exemplo do próprio autor e da sua vasta, rica e complexa obra.
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| Caricatura no site da Sociedad de Filosofía Aplicada |
Numa busca de conectar tudo o que penso, lembro, sonho, leio, estudo e contemplo, ou seja, tudo o que vivo, acho que esse pluralismo pessoano tem tudo a ver com o mergulho no pluralismo de Feyerabend que temos feito no nosso GP de Science Studies da UEM. Olhem só o que o Zenith diz, no prólogo do livro: que o Pessoa "queria ver tudo a partir de todos os pontos de vista possíveis", ainda que incorresse em inconsistências (p. 30). Isso sem falar da famosa revelação do mestre Caeiro: "A Natureza é partes sem um todo". Assim como Feyerabend, o biógrafo se aproxima um bocado das questões da física contemporânea, falando que os heterônimos são como "partículas de um campo quântico" (p. 24), colocando em destaque o seu caráter de incerteza.
Também faço uma ligação com os meus estudos de escritas e reescritas do Tetrabiblos, com toda aquela discussão sobre autoria, original e fidelidade, que é tão cara aos estudos da tradução. Tudo bem que estou aqui aquecendo para preparar a aula de história da tradução que vou dar na PUC no dia 21, mas acho que não estou vendo coisas. Quando o Zenith nos fala do Livro do desassossego, que só foi publicado em 1982 com cerca de 300 fragmentos, lembra não só do seu caráter fragmentar e de "diário semificcional", mas também da história de como ele foi desencavado, decodificado (a letra do Pessoa era um horror) e, a cada edição, alterado. Nesses 40 anos desde a primeira edição, os editores não concordam sobre o que realmente pertence ao livro. Isso é maravilhoso, mais pessoano impossível! Não há um original ao qual os editores devam ser fiéis, então não é possível uma edição definitiva.
De quebra, ainda tem a pegada mística do Pessoa, a sua "busca espiritual", sua ligação com a teosofia (ele traduziu Blavatsky!), sua amizade com o Aleister Crowley e, claro, a sua relação com a astrologia. Segundo Zenith: "os heterônimos eram um meio para transformar alquimicamente o ser" (p. 31). Acho que o Jung ia gostar... Então tintim com mais um vinho verde:
terça-feira, 30 de agosto de 2022
Mar de livros, não olhe e até breve
Antes do "até breve", no entanto, fomos à feira do livro que está rolando por aqui. Um mar de livros que surfamos de cima a baixo, trocando sugestões e comentários de leituras e autores. Provavelmente vou voltar, porque achei muita coisa boa, mas num dia menos movimentado, porque no domingo, além do mar de livros, havia também um mar de gente, a malta estava toda lá:
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| Capturei esta foto do dia da abertura da feira na internet para dar uma ideia da multidão |
domingo, 28 de agosto de 2022
Da ópera ao jazz: a magia da música
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| Foto gira que a Teresa fez do local antes de lotar |
Para além da obra em si e da óbvia referência a questões astrológicas clássicas - destino, determinismo -, essa ópera me tocou também por conta da onda pessoana que estou vivendo. Não dá para não lembrar das máscaras de Pessoa: "Quando eu quis tirar a máscara ela estava pregada à cara". E já que falamos de Pessoa, o último espetáculo do programa será uma adaptação de um conto do seu grande amigo Mário de Sá-Carneiro, "O homem dos sonhos". Parece interessantíssimo ver isso em ópera! Detalhe curioso é que esse último dia contará também com uma rave operática que, segundo o programa, é "para acabar em delírio e em festa dançante com múltiplas surpresas, a edição do Operafest deste ano!" Viva Baco! E já que falamos dele:
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| Belo exemplar de vinho verde que acompanhou o almoço chinês no restaurante Grande Palácio Hong Kong |
Ontem voltei a um dos meus lugares preferidos de Lisboa, e já muito citado aqui no blog, o clube de jazz Hot Clube de Portugal. Estava rolando um concerto muito giro de Ricardo Pinto Sexteto. Além do trompetista Ricardo Pinto, havia lá dois saxofonistas, Ricardo Toscano e Bernardo Tinoco, o pianista Óscar Graça, o batera Luis Candeias e o baixo de André Rosinha. Vejam o sexteto no estúdio preparando seu último álbum que ouvimos ontem em primeira mão:
Uma maravilha, quase inacreditável mesmo, tendo em vista a pandemia-pandemônio, que me fez crer que a vida seria para sempre daquele jeito. Nesses últimos dois anos e meio acompanhei de longe o HCP pelo canal do youtube e, inicialmente preocupada com a sua sobrevivência, vi o fechamento por causa do lockdown, seguida da reabertura gradativa com lives, depois com público escasso, depois com público normal e máscaras, e agora estou testemunhando todos se sentindo finalmente libertos da pandemia, provavelmente vacinados e sem máscara, celebrando o jazz. Aliás, aqui em Lisboa só no transporte público é obrigatório o uso de máscaras, mas isso deve cair já na semana que vem. Eu relutei um bocado com a minha paranoia, mas tenho falado bastante sobre isso com a Teresa, que tem me ajudado a racionalizar essa questão e afastar o medo.
Maravilha de noitada musical! Como nunca tirei nenhuma foto no Hot Clube, aproveitei o ensejo:
sexta-feira, 26 de agosto de 2022
Amiga d´além mar e mais "coincidências"
Minha amiga Teresa chegou de Braga na quarta e estamos matando as saudades desses cinco anos, botando a conversa em dia e fazendo vários programinhas juntas:
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| Amizade transatlântica! |
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| Rua Pascoal de Melo 119 |
quarta-feira, 24 de agosto de 2022
Palavra, silêncio e a fonte luminosa
A sensação de estar virando palavra não é inédita, já tinha sentido isso das outras vezes em Lisboa. Parece que há uma magia literária contagiante na cidade. Claro que agora há também a minha memória, afinal, lá se vão 14 anos que botei os pés aqui pela primeira vez. Decerto já senti isso em outras ocasiões, em outras geografias, mas essa Lisboa mágica habita em mim. Também pode ser o estado de graça da solidão, de curtir a minha própria companhia, o prazer de mergulhar em mim mesma e fruir o silêncio até no meio do burburinho. E esse bairro de Arroios tem um burburinho peculiar, como já falei em outras postagens. A propósito, para complementar o visual do entorno da Penha de França, olhe como ela é gira vista lá de baixo:
Descobri esse visual da Penha de França perambulando para além do Mercado de Arroios, onde achei um lugar bom para fazer as minhas caminhadas, o jardim em frente à chamada "Fonte Luminosa", vejam só:
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| Esta foto fiz lá em cima da fonte, onde há um mirante |
Evidentemente há também os eflúvios dionisíacos, pois o vinho nacional, como já se sabe, é o meu preferido.
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| O bom e velho Reguengos, agora com rótulo branco |

































