É inacreditável, mas cá estou eu de novo em Lisboa, na Residência Paz, carinhosamente acolhida pela minha mãe portuguesa, a Dona Rosa. Para quem ainda não sabe, vim à Península para um curso em Granada e um congresso em Coimbra, ambos em outubro. Por ora estou em Lisboa matando as saudades e com algumas missões, como finalizar o artigo do congresso até o dia 30 de setembro e entregar três exemplares da minha tese: um para o meu ex-orientador no estágio doutoral, um para o meu futuro orientador de pós-doc e o terceiro para os amigos da Academia de Estudos Astrológicos.
A viagem começou com uma baita dor de cabeça de tanta ansiedade para dar conta de tudo antes de viajar, isso sem falar o medo de avião. Mas confesso que tive que rir quando vi o nome do dito-cujo: Pedro Nunes (da outra vez vim no Infante Dom Henrique). Fala sério! Um dos meus objetos de estudo. Mas a dor só passou mesmo quando botei os pés em terra firme. Não adiantou nem o charme dos comissários da TAP (que gatos! com todo o respeito evidentemente) e nem o maravilhoso vinho DOC servido a bordo. Aliás, desta vez a comida estava bem melhor que da outra, comi um picadinho de carne com purê de batata e brócolis e lambi os beiços. O pudim de ricota com laranja da sobremesa também estava honestíssimo. Mas a viagem continua desconfortabilíssima, quando eu crescer quero viajar de primeira classe, ali deve dar para dormir. Cheguei meio zumbi, ainda tive que encarar uma fila quilométrica para de fato entrar no país, mas enfim me vi num táxi rumo à Paz, onde a Dona Rosa me esperava de braços abertos.
Uma maravilha! Depois de muitos abraços, histórias e lembranças, a excitação foi grande e eu não tinha condições de dormir. Então tomei uma chuveirada e fui com ela na tabacaria da esquina para carregar meus cartões de transporte e celular. Ela também me levou na cabeleireira amiga dela que já cortara o meu cabelo da outra vez e marquei um corte para segunda de manhã. Aliás, Dona Rosa está se aposentando e, assim como a minha mãe, só está aguardando a burocracia. Coincidências da vida!
Depois disso, só me faltava ver o Tejo e comer pastel de nata. Então ziguezagueei até o Cais das Colunas, parando aqui e acolá, respirando o ar lisboeta, sentindo o clima da cidade e esperando a minha alma chegar. O dia estava bom, com algumas nuvens e temperatura agradável. Fui procurar a livraria espanhola na Rua da Madalena e acabei achando uma lojinha na transversal Rua dos Bacalhoeiros com umas conservas fantásticas. Trouxe algumas para provar. Depois de pedir a benção para o Tejo, ainda entrei no Martinho da Arcada, onde eles esperam o Pessoa até hoje, tomei um imperial, comi dois croquetes e segui até o Rossio. Pedi uma bica e um pastel de nata na Pastelaria Suíça, saí satisfeita e voltei para a residência batendo cabeça no metro. Revi a netinha da Dona Rosa, que se lembrou do carnaval de serpentinas que aprontamos aqui no ano novo de 2008/2009 (como se pode ver aqui e aqui), e fui dormir. Quando acordei ainda conversei mais um bocado com a Dona Rosa e fui ao mercado em busca de víveres. Olha só o que eu trouxe:
Agora além do velho pé de laranja, que me cedeu muitos frutos no inverno de 2008-9...
Vai rolar também maracujá (já dá para ver três tímidos frutos ainda verdes)...
Dona Rosa saiu com o filho e a neta, foram a uma vindima numa quinta aqui nos arredores de Lisboa, já pensou? Consigo até ver o sorriso de Dioniso... E eu acabei de fazer uma ótima refeição (bacalhau em conserva, saladinha temperada numa pastinha de azeitona preta e pão da avó, com direito a queijo da Madeira e uma geleia de porto) regadíssima com um Reguengos, e estou aqui organizando as minhas coisas e reativando este blog.
A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
domingo, 25 de setembro de 2011
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
88 - Fim de papo
Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 2009.
Já ancorei na Cidade Maravilhosa, o retorno ainda está em andamento, pois me sinto meio lá e meio cá, mas está tudo bem, por enquanto está tudo sob controle. Os últimos dias em Lisboa foram bons, apesar da ansiedade e da confusão emocional. Para zarpar da jangada de pedra, contei com o carinho e o apoio dos bons amigos que fiz por lá e, para aportar na terra brasilis, estou contando com o carinho e o apoio de todos por aqui. Que privilégio ter tanto afeto em tantos lugares! Obrigada a todos que acompanharam a minha jornada, espero revê-los em breve, numa próxima aventura da Caravela Cruzeiro do Sul. Se calhar ainda preparo um outro blog nesse período intermédio...
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
87 - Noitada luso-brasileira no Bairro Alto
Ontem foi muito giro, porque, depois de um dia cheio de despedidas (desde o livreiro do alfarrábio perto da BN até o Ricardo, passando pelo pessoal do MegaVega) e caminhadas por uma Lisboa com cara de São Paulo (garoando o dia inteiro), que me trouxeram um estado anímico um tanto melancólico, fechei a noite no chamado fado vadio (fado de improviso, que rola nas ruas ou em lugares informais) da Tasca do Chico, point lisboeta que já queria conhecer desde que cheguei por aqui em agosto. Ao contrário das casas de fado para turista ver, a Tasca é tipo um pé sujo onde a gente pode assistir ao fado da porta (que foi o nosso caso ontem, porque o lugar estava abarrotado). Até tomamos uma cerveja ali mesmo, mas não há consumação mínima, dá para chegar, ver o fado e cair fora, se for o caso. Pois bem, saí da Paz com a nova residente brasileira, a Flaviane, que chegou por aqui na semana passada. Mais uma filha brasileira da Dona Rosa! Ela já esteve aqui no doutorado, e agora está começando um pós-doc na Unicamp, para o qual tem um trabalho de um mês aqui na terrinha. Sua área é linguística, mais precisamente fonética e fonologia, as diferenças entre o português brasileiro e o português europeu. Muito gente boa a nova integrante da tripulação tupiniquim da Residência Paz. Pois bem, seguimos para o Museu da Ciência, onde eu tinha combinado com a nau lusitana, Teresa e Marisa, que já vinham acompanhadas de mais um tripulante brasileiro, o Luís Felipe, amigo da Marisa. Assim como ela, ele é historiador e está aqui fazendo uma pesquisa relacionada às profecias em Vieira. Muito legal. Depois desse pit stop, a nau luso-brasileira saiu andando pela Rua da Escola Politécnica, passou pelo Príncipe Real e atingiu o Bairro Alto na Rua da Rosa, onde começou a descer em ziguezague, batendo papo pelas vielas e pequenas ruas simpáticas da região. Quando chegamos na Tasca do Chico, percebemos que ali não rolava jantar, só petiscos, e caros, então fomos a um restaurante ali do lado e desfrutamos de uma boa refeição com ótima conversa. Saímos dali e voltamos à Tasca, onde o fado já estava comendo solto, com gente saindo pelo ladrão. Ficamos ali na porta e tivemos a oportunidade de, junto com os locais, desfrutar do fado vadio de Lisboa, considerado mais popular que o de Coimbra (fado acadêmico, erudito, dos doutores conimbricenses), e que, em alguns momentos, me fez lembrar o nosso choro (talvez seja viagem minha). O lugar é pequeno, a galera participa animadamente e o clima é muito informal. Gostei. Saímos dali subindo a Diário de Notícias e, quando passamos num lugar simpático, onde estava rolando um jazz, Teresa propos: "Vamos entrar?" Beleza! Fechamos a noite num barzinho que só rola jazz (mas não ao vivo), batendo mais um papo animadíssimo. Valeu a noitada luso-brasileira no Bairro Alto!
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
85 - Metade da minha alma é feita de maresia
O título desta postagem foi tomado de empréstimo da Sophia Andres, cujos versos se encontram por toda parte no Oceanário de Lisboa, onde fui hoje com a Katia. O lugar é simplesmente incrível. Valeu cada cêntimo do caríssimo bilhete (quase 10 euros para estudante, que tem um desconto de menos de 2). Parece que é um dos maiores do mundo, com uma quantidade enorme de espécies de todos os oceanos. O tanque central é gigantesco, e foi feito de uma tal maneira que, ao me aproximar bem, eu tinha a impressão de estar no fundo do mar. Uma experiência muito gira, pois os tubarões, arraias e outros bichos marinhos passavam praticamente no meu nariz. Adorei! Havia lá também pinguins, polvos, caranguejos gigantes, medusas, corais, uma exposição sobre monstros marinhos e, o que eu mais gostei, as lontras marinhas. Segundo a dona Rosa, elas foram apelidadas de Amália e Eusébio, e são umas fofas, pois estavam na maior preguiça se mostrando para quem quisesse vê-las - e claro que eu fiquei vendo! - tomando banho, dando cambalhota, coçando as patas e até esfregando a cabeça como se estivessem lavando o cabelo. Fiquei extasiada com aqueles bichos peludos e simpáticos. Quem quiser saber mais do oceanário, dá uma sacada em http://www.oceanario.pt/.
84 - Ano novo chinês imperdoável
Ontem começou o ano chinês, que é organizado pelo calendário lunar, e não solar como o nosso; então rolou uma festividade no Instituto Confúcio, onde trabalham os tripulantes da nau chinesa aqui da Residência. Fui lá prestigiar, assisti à palestra do Michael, falei com a Helena (a Connie não foi porque estava gripada), conheci o reitor da universidade (ele também falou algumas palavras, e eu fiquei bem impressionada, o cara parece arrojado), mas o lugar foi tomado por uma multidão tão ávida pela boca livre que nem consegui provar os quitutes típicos. Saí à francesa e fui para a Cinemateca, onde está rolando um festival Clint Eastwood, como já disse outro dia. Só que ontem foi dia de Unforgiven, aqui traduzido como Imperdoável, mas confesso que é mais interessante a nossa tradução no plural - Os imperdoáveis -, afinal, quem não é imperdoável? As fotos não ficaram muito boas, mas registram o momento:
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