quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Tibetanos, Doris Day, livros e... mais coincidências?

Incensos e bandeirolas

Esta semana voltei a um vegetariano que amo em Lisboa, Os Tibetanos, e que já foi várias vezes comentado aqui no blog. Além de comer muito bem vendo aquelas imagens tibetanas coloridas e a foto do Dalai Lama sempre simpático, aproveito para renovar meu estoque de incensos tibetanos. O lugar é muito agradável e não estava cheio, o que me deixou ainda mais relaxada. O atendimento é muito bom e a dona acabou me dando uma prenda (essas bandeirolas coloridas) ao sair, provavelmente porque acertei a conta dela que estava errada para menos. Qual não foi a minha surpresa ao sentar na Cinemateca para esperar a sessão da tarde com Doris Day e Rod Taylor e ver que as bandeirolas têm gravado o meu tão querido mantra om-mani-padme-hum? Confesso que isso me tocou deveras.

O filme que me serviu de digestivo foi uma daquelas bobagens divertidas que a Doris Day fez nos anos 60 (está rolando um ciclo comemorativo do centenário dela): The glass bottom boat, que aqui foi traduzido bizarramente como Espia em calcinhas de renda e, no Brasil, mais ou menos a mesma coisa: A espiã de calcinhas de renda. A graça do filme é que ela é confundida com uma espiã russa na Nasa, e o chefe gato dela é o Rod Taylor... No youtube tem uma versão dublada na íntegra:

Saí dali e fui à feira do livro, onde comprei a minha primeira remessa de livros. Ontem voltei lá e arrematei o que faltava. Agora tenho que dar um jeito de despachar isso para casa. Juntando com a enciclopédica biografia do Pessoa que a Teresa me deu, são 15 livros que decerto não cabem na minha mala...


Agora de outro ângulo:


Mas a surpresa maior ainda estava por vir: enquanto chegava na feira, que, como já falei, está rolando num parque com múltiplas entradas, dei de cara com o Carlos e a filhota Olívia. Já tinha estado com ela antes, mas sem o celular, então não tirei fotos. Olhem que fofura a filha do meu velho amigo:


Ela estava louca atrás da mãe, então fomos lá no estande em que a Dani está trabalhando na feira:


Só um Reguengos para dar conta dessas coincidências todas...

Este Reserva de rótulo bege, que é o dobro do preço do outro de rótulo branco, custa cerca de 5 euros. Vi que tem um outro de rótulo preto, Reserva dos Sócios, que custa quase 10.



quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Jogos no museu e vistas do Tejo

Hoje voltei ao Museu Nacional de Arte Antiga para ver uma exposição temporária sobre jogos que está rolando por lá: Jogos cruzados: viagens entre oriente e ocidente. Fiquei encantada com a diversidade de opções para se jogar cartas, xadrez, gamão, entre outros, seja no Japão, na China, na Índia ou onde for. Meu amigo Thiago, especialista em jogos da Academia Celeste, decerto se encantaria também. Segue o registro fotográfico da exposição temporária:



Que mesa gira! 


Primeiro conjunto de cartas portuguesas de que se tem notícia (Alexandre Pimentel, século XVII).Foi descoberto por acaso, atrás de uma parede, durante a restauração da Quinta de Santa Bárbara, em Constância.

Segue um videozinho da instalação multimídia mostrando várias cartas:



Isto é um quebra-cabeças chinês do século XIX!


Tabuleiros ou mandalas?

Este aqui é o novo jogo militar ou "descanso e alívio dos discípulos de marte" (Paris, século XVIII)
   

Não podiam faltar os globos celeste e terrestre!

E nem o livro dos jogos do D. Afonso X (século XIII)!

Quantos tabuleiros de gamão!!!

Um deles (alemão de 1700) no detalhe. Diz que é reversível gamão-xadrez...



Gamão japonês do século XVIII

Mais uma mesa gira!


Xadrez chinês (séc. XVII-XVIII) 


Vai um xadrez com ratos aí?

Esta colcha é linda! Veja o detalhe abaixo


Claro que também aproveitei para rever a exposição permanente, especialmente os vários exemplares de São Jerônimo (padroeiro dos tradutores), o Bosch e os painéis de São Vicente, que estão sendo restaurados.

São Jerônimo, Albrecht Dürer (século XVI)

São Jerônimo, mestre flamengo desconhecido (século XVI)

São Jerônimo no deserto, Jan Sanders (século XVI)

Tríptico das tentações de Santo Antão, Hieronimus Bosch (1500) 


O mais inusitado foi este aqui:

Moldura ibérica do século XVI. Claro que não é maluquice, a moldura tem uma história que foi desencavada no século XX por uma série de pesquisadores, e ainda tem várias lacunas que inspiram reflexões interessantes sobre o valor das molduras nas coleções dos museus. Há um vídeo na exposição que conta essa história.
 
Antes de sair ainda tive o desprazer de me deparar com esta figura sinistra:

É um Santo Onofre de José de Almeida (século XVIII). 

Dá para ver os olhos de vidro?
Agora no close acho que dá...

Depois dessa coisa sinistra, aproveitei para curtir o belo jardim (a ópera do outro dia foi nesse jardim, mas à noite):

Já estão preparando para o próximo espetáculo
.

E agora um videozinho da vista que se tem do Tejo a partir do jardim do museu:


Para finalizar, uma vista do Tejo mais de perto, agora do Cais das Colunas, na Praça do Comércio ou Terreiro do Paço, tudo isso já muitas vezes fotografado e mencionado por aqui, mas nunca filmado:



domingo, 4 de setembro de 2022

Literatura, cinema e quejandos

Ontem desci na estação Parque do metro e passei na feira do livro...

Finalmente estava com o celular ao encontrar a Dani!

O Parque Eduardo VII, onde está rolando a feira, tem várias entradas possíveis, já estive lá algumas vezes devidamente registradas aqui no blog. Mas hoje entrei pelo Pavilhão Carlos Lopes e me deparei com uma azulejaria que não só já conhecia como a uso para referenciar este blog a partir do blog do GP, só não sabia de onde era, tinha capturado há anos na internet porque o mural se chama Cruzeiro do Sul. Coincidências...

Mural Cruzeiro do Sul, de Jorge Colaço (1922), no Pavilhão Carlos Lopes

E aqui a frente do pavilhão (o mural está lá na ponta direita):

Dia lindo!

Depois segui caminhando até a cinemateca para o Ciclo João Botelho, um cineasta português do qual só tinha visto um filme, Os maias: cenas da vida romântica, de 2014. Ao longo do mês de setembro, todos os filmes dele serão exibidos por lá. Mas qual não foi a minha surpresa ao ver a programação e descobrir que ele tem vários outros filmes nessa pegada com a literatura, sobretudo Fernando Pessoa. Tem um chamado Filme do desassossego, de 2010, e outro, de 2020, O ano da morte de Ricardo Reis, nem preciso falar do que eles tratam, né? Ontem assisti ao seu primeiro longa, Conversa acabada, de 1981, sobre as cartas trocadas entre Pessoa e Sá-Carneiro, e o cineasta apareceu por lá e disse umas palavras antes da sessão, ou seja, um luxo só. O filme é muito bom, mas é denso, focado nas cartas, ou seja, na palavra (diz o Botelho que a palavra ganha da imagem), com muita informação biográfica (para quem está lendo a biografia é uma maravilha) e tem também uma tragicidade por conta do fim do Sá-Carneiro. A capa do filme é gira:


Veja um trecho do filme aqui:


Antes do filme, jantei no restaurante da cinemateca o seguinte prato regado a um tinto da casa (um castelão Victor Horta) e antecedido por uma sopa de brócolis: 

Bochechas & Estica (bochechas de porco estufadas com esmagada de batata e chutney de maçã), uma delícia recomendada pela garçonete

Entre a feira e a cinemateca, tive a companhia de uma bela lua crescente:

Antes de pegar o metro aqui no bairro, fotografei uma pichação gira:


E, para finalizar, tintim com um Papa Figos:







sábado, 3 de setembro de 2022

Bacalhau regado a memórias do linho e do lixo

Dona Rosa fez um bacalhau e nós fomos lá prestigiar!

Depois do almoço maravilhoso regado a um regional alentejano e finalizado com um moscatel fortificado, tive a oportunidade de ouvir as memórias de infância e juventude da D. Rosa em Ponte de Lima, sua terra natal no norte do país. Fui puxando suas histórias familiares (estava curiosa sobre o lado Souza da família dela, e ela disse que tem uma turma que foi para o Brasil, mas não sabe quando) e ela desencavou um monte de lembranças boas e outras nem tanto, como a morte dos irmãos (eram quatro, o último se foi recentemente), a vida dura no campo depois da morte do pai etc. Mas o destaque mesmo ficou para a fabricação do linho, que ela me contou nos mínimos detalhes, espantada de como se lembrava de tudo, e ressaltando a trabalheira e o caráter tradicional e artesanal da coisa toda: "por isso que é tão caro", disse ela.


Mais espantada fiquei eu ao procurar na internet e ver a precisão de tudo o que ela me contou, sem falar a belezura do ciclo do linho, que eu só tinha imaginado conforme ela ia descrevendo. 


Quem quiser ver, achei vários vídeos no youtube, mas compartilho este que é menorzinho:


E já que estávamos na onda das memórias, ela emendou no impacto que teve recentemente diante das coisas dos vizinhos que foram parar no lixo depois que eles morreram. Fez uma breve reflexão sobre o valor sentimental dos objetos, o consumismo-desperdício das novas gerações e o medo de que coisas tão valorosas para ela, por representarem pessoas, momentos e memórias importantes, tenham o mesmo destino. Diante desse quase lamento, D. Rosa arrematou com sua solução para o problema: “por isso comecei a distribuir as minhas coisas às pessoas queridas”...


sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Plural como o universo

 

Caricatura que se encontra na biografia do Pessoa.
Não tem os créditos, imagino que seja do próprio autor, Richard Zenith.

"Sê plural como o universo!", diz Pessoa num papel encontrado no famoso baú anos depois da sua morte. Sim, sabemos dos seus heterônimos, da sua "automultiplicação", desse "fenómeno de autoria estilhaçada", mas eu não sabia - ou não tinha registrado - que eram tantos (mais de 100!), a maioria desconhecidos, autores de pequenos textos ou de projetos de textos. Dessa centena de criaturas autorais, cerca de 30 assinaram pelo menos uma obra significativa, e os mais conhecidos, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, são também os heterônimos plenamente desenvolvidos. Bernardo Soares, autor do Livro do desassossego, destaca-se sobretudo por ter escrito o livro em prosa mais importante de Pessoa, que trata de tudo e mais um pouco, mas são ambos, heterônimo e livro, incompletos, incertos, fragmentários. A incompletude, a incerteza e o fragmentarismo, no entanto, acabam sendo um ótimo exemplo do próprio autor e da sua vasta, rica e complexa obra. 

Caricatura no site da Sociedad de Filosofía Aplicada

Numa busca de conectar tudo o que penso, lembro, sonho, leio, estudo e contemplo, ou seja, tudo o que vivo, acho que esse pluralismo pessoano tem tudo a ver com o mergulho no pluralismo de Feyerabend que temos feito no nosso GP de Science Studies da UEM. Olhem só o que o Zenith diz, no prólogo do livro: que o Pessoa "queria ver tudo a partir de todos os pontos de vista possíveis", ainda que incorresse em inconsistências (p. 30). Isso sem falar da famosa revelação do mestre Caeiro: "A Natureza é partes sem um todo". Assim como Feyerabend, o biógrafo se aproxima um bocado das questões da física contemporânea, falando que os heterônimos são como "partículas de um campo quântico" (p. 24), colocando em destaque o seu caráter de incerteza.


Também faço uma ligação com os meus estudos de escritas e reescritas do Tetrabiblos, com toda aquela discussão sobre autoria, original e fidelidade, que é tão cara aos estudos da tradução. Tudo bem que estou aqui aquecendo para preparar a aula de história da tradução que vou dar na PUC no dia 21, mas acho que não estou vendo coisas. Quando o Zenith nos fala do Livro do desassossego, que só foi publicado em 1982 com cerca de 300 fragmentos, lembra não só do seu caráter fragmentar e de "diário semificcional", mas também da história de como ele foi desencavado, decodificado (a letra do Pessoa era um horror) e, a cada edição, alterado. Nesses 40 anos desde a primeira edição, os editores não concordam sobre o que realmente pertence ao livro. Isso é maravilhoso, mais pessoano impossível! Não há um original ao qual os editores devam ser fiéis, então não é possível uma edição definitiva.


De quebra, ainda tem a pegada mística do Pessoa, a sua "busca espiritual", sua ligação com a teosofia (ele traduziu Blavatsky!), sua amizade com o Aleister Crowley e, claro, a sua relação com a astrologia. Segundo Zenith: "os heterônimos eram um meio para transformar alquimicamente o ser" (p. 31). Acho que o Jung ia gostar... Então tintim com mais um vinho verde: