quinta-feira, 20 de outubro de 2011

118 - Sintra ou a Serra da Lua

Hoje fui conhecer Sintra, coisa que estava me devendo há três anos. Finalmente desmistifiquei essa misteriosa cidade, tão cantada por aedos românticos como Almeida Garrett, Lord Byron, entre outros. Mas como dizem que muito mais antigamente ainda ela era conhecida como Serra da Lua, então hoje botei a minha lua no pescoço, entrei no comboio no Rossio e em 45 minutos estava lá. É tipo Rio-Petrópolis, inclusive no clima mais frio e úmido da serra. Claro que ainda há muitos recantos a explorar em Sintra, pois me concentrei apenas no Palácio da Pena, no Castelo dos Mouros e num pedaço do centro histórico. O castelo é um grande sítio arqueológico com muita história ainda por contar, mas já sabemos que é daqueles tempos de domínio árabe na Península Ibérica. O eclético Palácio da Pena, ao contrário, já tem a sua história toda bem conhecida, tendo sido construído no século XIX a mando do rei-artista D. Fernando II sobre as ruínas de um mosteiro, o Mosteiro da Pena (daí o nome do palácio). Seguem as imagens externas, pois no interior não se pode fotografar (aliás, que excesso de móveis e objetos lá dentro, é até um pouco entulhado; isso sem falar na mistura de estilos):



 

Qualquer semelhança com a Alhambra não é mera coincidência, 
essas (acima) e outras partes do Palácio têm mesmo inspiração mourisca.



 
E este Tritão sinistro no Pórtico?




Que vista! E que medo de altura!




Todas as rugas aparecendo, mas tá beleza, tô feliz da vida...


Oops! Acho que aqui está faltando uma pinturinha...

 Este jogo de luz e sombra ficou interessante, 
ainda mais com esse bucólico banco verde e os arcos no fundo.

 
O mapa do Castelo dos Mouros logo na entrada.

 




 

 
O centro histórico de Sintra visto do Castelo dos Mouros.

 O Castelo dos Mouros visto do centro histórico de Sintra.



Este é o Palácio Nacional de Sintra, no centro histórico, que ficou para a próxima vez:


117 - Finalmente jazz

Hoje, depois de um dia de trabalho produtivo, eu fui ao CCB (Centro Cultural Belém) assistir a um concerto de jazz recomendadíssimo pela minha amiga Teresa: Carlos Bica e Azul. O moço é um compositor e contrabaixista português prestigiado no meio, que já toca há anos com dois amigos gringos, Frank Möbus na guitarra e Jim Black na batera. Como diz o Pedro, eles botaram a casa abaixo. O show foi muito giro, algo entre cool, fusion e free jazz (para quem viu a exposição do Miles no CCBB, esses termos já estão no vocabulário cotidiano). Tive a sorte de estar aqui para testemunhar esse show único. Parece que eles deram uma canja ou algo do gênero ontem na FNAC do Chiado, vejam só a parte mais cool do show:


Ah! Faltou dizer que, como estava nas redondezas, aproveitei para degustar os deliciosos Pastéis de Belém. Já havia esquecido a sua peculiaridade: massa finíssima e creminho gostoso pouco carregado no açúcar (normalmente os pastéis de nata genéricos são dulcíssimos e as massas nem chegam perto do de Belém). Só para dar água na boca de vocês:



Também assisti a uma exposição muito doida que estava sendo inaugurada no CCB - A arte da guerra - sobre a propaganda da II Guerra Mundial. É de arrepiar os cabelos!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

116 - Dia de alfacinha comunista

Para quem não sabe (ou não se lembra), alfacinha é como os portugueses denominam os lisboetas. Então hoje dei uma de alfacinha: trabalhei de manhã, almocei na residência mesmo, descansei um pouco e à tarde saí para bater perna por essa cidade que mora no meu coração. Fui de metro até a Avenida da Liberdade, peguei o funicular da Glória e fui parar lá no Bairro Alto. Perambulei por aquelas ruas tão tipicamente lisboetas e acabei indo ao Miradouro de Santa Catarina, que é onde Joaquim Pessoa e Clarice (personagens sobre os quais ando escrevendo) têm um encontro sorrateiro. Uma belíssima vista para o Tejo e um lugar onde os alternativos da cidade se encontram - conhecido como Adamastor (porque tem uma enorme estátua dessa figura mitológica camoniana). Senti o clima por alguns instantes e segui o meu caminho, viajando um pouco na minha ficção, até que, ao decidir ir para a Baixa, passando pelo Chiado, acabei me deparando com a realidade: um grupo de manifestantes comunistas estava em concentração na saída do metro, bem ao lado do Pessoa no café A Brasileira. E para quem pensa que os moços vermelhos estão em extinção, esta é a prova de que estão vivíssimos e nada satisfeitos:
 
 

Aqui eles já tinham descido até a Baixa e passavam pelo Rossio (ao fundo, a estátua do nosso Pedro I, Pedro IV português, que fica no centro da praça):

  


Nessa última (ainda no Rossio), reparem no Castelo de São Jorge ao fundo.

Nesta, abaixo, eles passavam em frente à Santa Justa.


E aqui com o arco da Augusta ao fundo:


A malta estava toda lá, e suas palavras de ordem eram:

Quanto mais calados, mais somos roubados!
Roubam o povo para dar à banca!
Ao roubo e à exploração, aqui dizemos não!



A diferença básica em relação aos indignados (que também se manifestaram por aqui no dia 15) é que esta foi uma manifestação organizada por um partido, o Partido Comunista Português, enquanto o Movimento 15-M é apartidário. Aliás, parece que na Cinelândia apareceram 200, como se pode ver aqui no QdL.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

115 - Passeando por Madri antes de voltar a Lisboa

Ontem fui bater perna em Madri, andar por essa cidade convidativa. Não sei como explicar direito, mas a impressão que eu tenho é que as pessoas simplesmente ocupam a cidade, se apossam de cada canto dela, estão sempre dispostas a desfrutar (aliás, essa palavra é muito usada por esse povo). Tudo bem que era domingo, dia de El Rastro (mercado das pulgas de mais de 400 anos que ocupa várias ruas), que encontrei casualmente:


Mas, independentemente disso, e também de a cidade estar cheia de turistas, e de que, no dia anterior, o 15-M movimentara as calles madrilenhas, o fato é que essa cidade ferve. Chega a ser cansativo ver tanta gente junta tanto tempo seguido. Claro que, às vezes, dobra-se uma esquina e encontra-se uma rua vazia, um banco na praça para se sentar ou um bar sem movimento. Aliás, como tem muita oferta de bares e restaurantes, não é difícil encontrar lugar num restaurante para comer. Ontem, por exemplo, fui a um vegetariano que descobri pertinho do hotel - Artemisa -, parece que é um dos mais antigos da cidade, tem cerca de 20 anos. Tomei uma sopa cremosa de alho poró como primeiro prato e comi uma paella vegetariana de segundo, tudo isso regado a um La Rioja. Não aguentei sobremesa. Muito bom, mas um pouco caro.

Continuei perambulando pela cidade e fui à Plaza Mayor (reparem na quantidade de gente):





No caminho, passei em várias praças e na Puerta do Sol, e tive a oportunidade de ver algumas assembleias do 15-M. A concentração da Puerta do Sol já havia se dissipado, mas as pessoas continuavam nas ruas e, em alguns lugares, praticando a democracia real já. E algumas apenas desfrutando...

Fui à casa do Lope de Vega, desta vez para entrar (da outra só tirei foto na porta), e adorei a reconstituição de época e os detalhes da vida desse poeta/escritor/dramaturgo extremamente produtivo e intenso. Ele viveu e escreveu muito, casou várias vezes, teve diversas amantes e sei-lá-quantos filhos. Acabou entrando para o sacerdócio, mas parece que teve problemas com isso. Perguntei para a guia do museu se ela tinha visto o filme Lope, do Andrucha Wadington, e ela disse que sim, que o filme teve uma boa repercussão na Espanha e que tem sido usado nas escolas. Claro que ela, uma especialista no assunto, percebeu algumas falhas históricas, como a reconstituição do teatro, que era muito mais simples, mas considera o filme extremamente relevante.

Na mesma rua se encontra a casa onde viveu e morreu o Cervantes, mas é particular. A casa onde nasceu, em Alcalá de Henares, é que é museu (mais um motivo para voltar):



Conheci também o Museo del Jamón, que é, na verdade, uma cadeia de bares/restaurantes, e comprei dois bocadillos para a viagem. Foram devidamente comidos no trem de volta para Lisboa.

Elena e Tom me acompanharam até a estação, foi muito giro estar com eles mais um pouco. Oxalá a gente se veja em breve!

Acabei de chegar à Paz, dizendo "a boa filha à casa torna" para a minha mãe portuguesa e botando o papo em dia. Sensação de estar em casa: já fiz a minha caminhada, fui no mercado, almocei, tomei o meu Reguengos e agora pretendo me recolher um pouco depois de tantos dias no movimento externo. Tenho que preparar a minha apresentação para o congresso na semana que vem. Mas logo mais rola um pastel de nata, claro!

domingo, 16 de outubro de 2011

114 - Uma tarde em Toledo

Faltava conhecer a cidade sobre a qual já falei tanto por ser a sede de um grande mito espanhol, a Escola de Tradutores de Toledo. Foi lá que nasceu o rei sábio, D. Afonso X, que patrocinou tantas traduções, além de ciências e artes, promovendo a tolerância religiosa. Nesta cidade conviviam pacificamente cristãos, mouros e judeus em prol do conhecimento. Tudo isso no século XIII. Hoje fui lá passear (são 30 minutos de trem) e fiquei encantanda com mais esse patrimônio histórico que também é banhado pelo Tejo (que nasce aqui perto, em Teruel). Claro que teve gosto de quero mais, pois a cidade é cheia de recantos e coisas a se descobrir, sem falar a presença constante do Quixote. Este pode ser um bom motivo para voltar. Vamos às imagens:


Olhem eu aí num mirante com a cidade ao fundo! Daí dá para ver o Tejo lá embaixo, vejam só que visual:


Como uma boa cidade medieval, os destaques são o palácio real e a catedral:



Desta vez só entrei na catedral que, além de ser realmente bela, ainda inclui um museu com obras de Rafael, Caravaggio, Ticiano, Velasquez e, claro, o filho da terra, El Greco.

Mas há outras coisas mais pela cidade, como o Cervantes numa das portas mouras:



E ruas e vielas como estas:






Além de castelos como este:


E restaurantes, bares e cafés de todos os tipos. Comi num restaurante típico, acho que se chamava Cervecería de la Plaza Mayor, que tinha a seguinte decoração no teto:


Isso mesmo: jamones (presuntos) ibéricos!


Aos vegetarianos, taurinos e mais sensíveis, aviso que a leitura a seguir pode ser chocante: eu comi rabo de touro (uma iguaria típica). O esquema mais comum por aqui é o menu do dia a preço fixo (paguei 13 euros, e havia quatro ou cinco opcões), que inclui sempre o primeiro prato (pedi uma salada), o segundo prato (o tal do rabo acompanhado de batatas), sobremesa (tomei sorvete), pão e vinho. Detalhe: era um tempranillo da região, cuja garrafa ficou na mesa durante toda a refeição para eu me servir à vontade. Nem preciso dizer que estava maravilhoso e que a combinação foi perfeita, né?