segunda-feira, 6 de outubro de 2008

36 - Botando a mão num Tetrabiblos de mais de 500 anos

Lisboa, 6 de outrubro de 2008.
Hoje era para ser mais um dia de trabalho normal na biblioteca, sem necessidade de registros detalhados por aqui, mas devo dizer que esta vida de pesquisadora nos reserva boas surpresas: não é que eu botei as mãos e os olhos numa edição latina do Tetrabiblos datada de 1493? Mas não é uma edição qualquer, é a do Haly Ibn Ridwan, que traduziu do árabe para o latim no século X. Essa mesma versão foi traduzida para o espanhol na década de 80. Estou tentando pegar este livro desde que cheguei, mas não estava disponível. Hoje tentei de novo e consegui. Esta é a única edição antiga do Tetrabiblos que há na BN. Infelizmente ainda não encontrei em português (o que também não me surpreende), mas tudo bem, sigo trabalhando em todas as frentes possíveis. Além do Ptolomeu, estive manuseando hoje também as obras do Manilius e do Firmicus (contemporâneos do Ptolomeu), em edições também do século XV. Esta semana eu viro traça!

Ontem saí para ir ao Museu Nacional de Arte Antiga, mas o dia estava tão lindo que me deixei levar até o Cais Sodré, onde peguei um barco para atravessar o Tejo. Fui até Cacilhas, numa travessia que se parece muito com a da barca Rio-Niterói, curtindo o sol na cara, a brisa fresca e o visual incrível. Lá estava a cidade das 7 colinas... Foi estranho ver Lisboa se afastando assim, mas passou tão rápido que nem deu tempo de grandes emoções. Saltei da barca e dei uma andada pelas imediações. Subi uma ladeira para ter uma visibilidade maior, passei numa feira de artesanato abarrotada de gente, muitos turistas, nada de muito incrível. Peguei a barca de volta e fui almoçar na filial dA Brasileira, onde comi um bacalhau com espinafres apreciando aquela vista incrível do Castelo, da Sé e do casario lisboeta. Muito giro! Já era tarde, mas não desisti do museu, afinal, já que não dava jeito de ir ao Rio votar no Gabeira, era melhor seguir aproveitando o que Lisboa tem de melhor. E realmente valeu a dica da Marcia! Apesar de muita arte sacra (o que me cansa um pouco), o MNAA é muito bom, tem um tamanho ótimo, é bastante confortável e o acervo é de alto nível. De graça então é melhor ainda. Devo voltar no domingo que vem, pois não consegui ver tudo. Sem falar que vale a pena rever o Bosch (uma das pérolas do museu, O tríptico das tentações de Santo Antão), entre outras obras, como um São Jerônimo (aliás, há vários, incrível como este padroeiro da tradução foi tão representado) do Durer e um Santo Agostinho belíssimo (e olha que nem sou fã do moço), do Piero della Francesca, com uma capa cheia de detalhes. Ah! Já ia me esquecendo. Saí do museu, fiquei perambulando um pouco, fui parar no Rossio, mais precisamente no Largo de São Domingos, na porta da famosa birosca A ginjinha (que vive há 150 anos de vender licor de ginja, acho que é um tipo de cereja), onde finalmente provei a tal beberagem, cheia de frutinhas boiando no copo. Saí trôpega, a parada é fortíssima. Quando cheguei à residência, dona Rosa perguntou se eu tomei "com elas" ou "sem elas". Tarde demais para descobrir que com as frutas a parada é bem mais forte...


Olha o São Jerônimo aí! Velhinho, velhinho e cansado de tanto traduzir...

Esta é a barca que me levou para o outro lado do rio...
Esta me trouxe de volta...

Na colina da direita, no alto, o Castelo, de onde, no sábado, eu olhava o rio...

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