quinta-feira, 16 de março de 2017

143 - Darwin e tradução em Portugal


Este livro, de Ana Leonor Pereira, publicado pela Almedina em 2001, é a sua tese de doutorado em história da cultura, defendida na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1998, sob orientação de Manuel Augusto Rodrigues. A autora é professora nessa mesma faculdade e coordenadora do GHSC (Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia) do CEIS 20 (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX) da Universidade de Coimbra.

O intervalo de tempo analisado vai de 1865 a 1914, passando pela recepção das ideias de Darwin em Antero de Quental, na historiografia, no anarquismo e na eugenia. Ela reconhece um zeitgeist darwinista em Portugal, mas diz que havia ideários sociais alheios a Darwin, e usa expressões marcantes, como software darwínico e racismo com maquiagem darwinista, além de reafirmar, com base em Antonello La Vergata, que o darwinismo é politípico. No final, Pereira oferece um anexo sobre as edições de Darwin em várias línguas.

Hoje pude dar uma boa olhada nesse livro, e também na tese de seu aluno, Pedro Ricardo Gouveia da Fonseca, que se chama Darwin em Portugal (1910-1974). O darwinismo e a evolução na produção científica de botânicos portugueses e foi defendida em 2015. Trata-se de uma tese de 789 páginas em três volumes, sendo 147 páginas só de bibliografia. Segundo Fonseca, o trabalho de sua orientadora diz respeito à recepção do darwinismo nas ciências humanas, e o dele, da recepção das ideias de Darwin nas ciências biológicas, sobretudo na botânica. Ainda quero examinar com calma algumas seções específicas, em que ele trata diretamente da tradução, mas já deu para ver que o trabalho é rigoroso, detalhista e aponta para algumas questões já velhas conhecidas nossas sobre como as ideias principais de Darwin (descendência comum, seleção natural, seleção sexual, não-direcionalidade e gradualismo) foram tratadas pelos botânicos portugueses. 

Dos vários botânicos citados do final do século XIX, um me interessa especialmente, Júlio Augusto Henriques, que, além de pioneiro na introdução do darwinismo em Portugal, era também professor e tradutor. Ele traduziu os Elementos de botânica, do Hooker, e um texto sobre a vida e a obra de Darwin, escrito por De Candolle, entre outros.

Com essas leituras e uma cuidadosa consulta ao catálogo de traduções em língua portuguesa (do qual eu só tenho o primeiro volume, mas que aqui tive acesso a todos os outros), registro as seguintes novidades:

1) A recepção da obra de Darwin em Portugal está diretamente relacionada com a atividade tradutória de Júlio Henriques;
2) A primeira tradução da Origem é de 1913 mesmo (confirmadíssimo por várias fontes);
3) O primeiro Darwin em português é de 1886, um texto sobre o instinto escravagista das formigas, que, aparentemente saiu no jornal O povo de Aveiro, sem crédito de tradução (a confirmar);
4) O segundo Darwin em português é de 1901: "Como se prova que o homem descende de uma forma inferior", que saiu em E. Deroy, Descendemos do macaco?, traduzido pelo tenente Moraes Rosa (a confirmar);
5) O terceiro Darwin em português é A origem do homem, traduzido por Oldemiro Cesar Porto em 1910;
6) O quarto Darwin em português é a já mencionada tradução da Origem de Joaquim Dá Mesquita Paul (1913);
7) Em 1917 saiu outra tradução de A origem do homem, agora de J. Corrêa D´Oliveira.

Além dessas cinco traduções de Darwin, só encontrei traduções de Haeckel (14) e Spencer (4) do mesmo período (até 1930). Não há nada de Wallace, Lyell ou Huxley, e do Hooker, só a tradução de Henriques referida acima.

Ah! Uma das exposições na BNP é sobre as bibliotecas móveis do corpo expedicionário português, ou seja, estão lá expostos alguns dos vários livros que chegaram às mãos dos soldados portugueses que foram para a primeira guerra mundial. Dentre eles, achei um exemplar de A origem do homem, de Carlos Darwin...




2 comentários:

Francine disse...

Tá rendendo!!! Carlos Darwin, é? :D

Unknown disse...

Carlos Darwin????