Pelo que pude ver no microfilme da BNP (não há impresso), o trecho traduzido de Darwin se encontra nas páginas 211 e 212, no capítulo final da argumentação do livro, que é basicamente a discussão das objeções de Huxley ao positivismo e a Comte em particular. Para isso, ele vai usar a seção "Razão geométrica do aumento de indivíduos" do capítulo 3 da Origem, em que Darwin se baseia na tese de Malthus para falar da luta pela sobrevivência.
Outra tradução portuguesa de Darwin pioneira saiu no jornal O povo de Aveiro, nos dias 10 e 17 de outubro de 1886, e se chama "O instinto escravagista das formigas", mas sem crédito de tradução e nem da fonte original. Para nós que lemos a Origem, é fácil reconhecer a seção que trata das formigas escravocratas do capítulo 8 sobre instinto: "Este notável instincto foi primeiramente descoberto na formiga (Polyerges) rufescens por Pedro Huber, observador ainda talvez mais hábil que seu ilustre pae. [...]"
Quem quiser ver ou rever os nossos resumos dos capítulos da Origem das espécies, de Charles Darwin, clique aqui para ir ao blog do GP de Science Studies da UEM.
Vale registrar, então, que, antes de a Origem ser traduzida na íntegra (em 1913), já circulavam esses e outros trechos do livro traduzidos. Além disso, a recepção da obra de Darwin em Portugal era feita por meio dos textos originais (como se pode ver na produção e na biblioteca dos naturalistas portugueses, que citavam ou continham as edições inglesas) ou traduzidos para o francês (cf. Pereira, 2001; Fonseca, 2015).
Isso sem falar do outro livro famoso de Darwin, A origem do homem, que também circulava por meio de trechos traduzidos até que finalmente foi traduzido na íntegra em 1910 por Oldemiro Cesar e publicado no Porto pela editora J. Ferreira dos Santos.
Este é o caso do livro Descendemos do macaco?, de E. Denoy, traduzido pelo tenente Moraes Rosa e publicado pela editora Livraria Internacional de Lisboa em 1901. Pelo que vi hoje, além de várias citações a Darwin, há dois capítulos que supostamente são traduções de trechos da Origem do homem, apesar de não haver indicação do texto fonte original: "Como se prova que o homem descende de uma forma inferior" (p. 99-112) e "A classificação da descendência humana" (p. 113-139).
Referências:
FONSECA, Pedro Ricardo Gouveia da. Darwin em Portugal (1910-1974): o darwinismo e a evolução na produção científica de botânicos portugueses. Tese de doutorado em Altos Estudos em História. Universidade de Coimbra, 3 volumes, 789p, 2015.
PEREIRA, Ana Leonor. Darwin em Portugal: filosofia, história, engenharia social (1865-1914). Coimbra: Editora Almedina, 2001.


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