domingo, 25 de janeiro de 2009

83 - Temporalidade, relógio e botões

Ontem fui ver o aclamadíssimo Benjamin Button, filme do David Fincher, baseado num conto do Fitzgerald e com os impecáveis Brad Pitt e Cate Blanchett. Filmaço! Dá para rir, chorar e pensar na existência. Dá para simplesmente contemplar a beleza de uma fantástica história de amor contada em imagens. Uma história de amor que, como qualquer história de amor, está sujeita à realidade da sua pluralidade de facetas e impermanência - da nossa impermanência -, quer o relógio ande de frente para trás ou de trás para frente. A gentileza e a sutileza dos detalhes desse encontro em cada fase são comoventes, como o momento em que eles se conhecem (mais ou menos a mesma idade, mas ele com aparência de velho e ela de criança), o momento em que eles de fato se encontram, no auge da vida de ambos, e depois, seguindo o fluxo desse encontro tão particular (como qualquer outro), quando, já na velhice, ela o ajuda a dar conta da sua senilidade na forma de criança. Claro que há uma série de outras coisas interessantes, mas não vou falar mais para não cortar o barato de quem ainda não viu. Divirtam-se!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

82 - Dia de chuva em Lisboa...

Bom para se enfurnar no Mosteiro dos Jerónimos e no Museu de Arqueologia... E foi isso que eu fiz! Fui de metro até a Figueira e lá peguei o 15. Desembarquei nos Jerónimos, onde tive o prazer de, além de desfrutar da beleza manuelina do monumento, assistir, no claustro do mosteiro, a uma apresentação de teatro do Auto da Barca do Inferno. Muito giro! O lugar me lembrou um pouco Salamanca, especialmente a nave, que se parece com a sinistra catedral salmantina, e o claustro, que me fez voltar no tempo/espaço, até novembro, naquele belíssimo Edifício da Universidade. Acho que a chuva e o cinza que cobriram Belém hoje colaboraram para o clima brumoso que me conduziu a essa viagem... Bem, saí dali e fui ao vizinho Museu de Arqueologia, onde vi várias pequenas exposições: Religiões da Lusitânia, Antiguidades Egípcias, Tesouros da arqueologia portuguesa, Impressões do Oriente de Eça de Queirós a Leite de Vasconcelos e Sit tibi terra levis. Neste último, que traduzindo dá mais ou menos "Que a terra te seja leve" (fórmula evidentemente pagã, pois pressupõe a existência subterrânea; porque a cristã é: "descanse em paz", pois pressupõe a ressurreição, a vida eterna etc.), descobri que Fraga é o nome de uma necrópole (sinistro!) lá no norte. Sabia disso, Pedro? Pois é... As exposições eram bem simpáticas, gostei especialmente das Religiões da Lusitânia (muito interessante a sobreposição de camadas religiosas desde antes de os romanos chegarem por aqui no século I a.C.) e das Impressões do Oriente, com fotos sacadas pelo próprio Leite de Vasconcelos (fundador do Museu) no Cairo, em Jerusalém etc., quando ele esteve lá em 1909. Valeu a tarde em Belém, devidamente arrematada com o melhor pastel de nata do mundo.
Cena dO Auto da Barca do Inferno (os atores ficavam em cima de escadas ou andando no meio da platéia, que, por sua vez, ficava em pé no chão acompanhando a ação)

Mais uma cena, com o detalhe dos arcos do claustro no fundo

Olha eu aí, gente!

Não é que o túmulo do Pessoa está lá?



Olha só o que está na lápide, Ju! Lembro que foi você que me apresentou a esta poesia ricardo-pessoana...

Detalhe do claustro (dá para ver o pessoal do teatro em plena ação)


Olha eu aí já de gorro, porque o frio apertou lá dentro.


Detalhes do claustro

Bruma salmantina em plena Lisboa...

Detalhe dos azulejos do ex-refeitório (diz lá que é do século XVI)

Olha o leão tomando conta da área

Pátio interno do claustro do Mosteiro dos Jerónimos


Olha eu aí na parada!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

81 - Darwin e pizza com as amigas

Hoje fui com a Teresa à palestra "Como nos tornamos humanos", que fazia parte do Ciclo de Conferências sobre Darwin, na Fundação Gulbenkian. Fiquei surpresa com a multidão, era gente que não acabava mais, nem pudemos ficar no auditório. Pelo menos eles organizaram telões nas outras salas para a turba poder assistir também. Pois bem, o título prometia uma coisa, a palestra foi outra, apesar de não deixar de ser informativa e bastante didática (a divulgação nas escolas foi muito grande, havia muitos estudantes por lá). Pensei que a abordagem seria filosófica, talvez uma discussão mais interessante, no entanto não foi nada disso, cheguei a ficar um pouco sonada depois de uma hora ouvindo a apresentação da evolução da espécie humana, todos os símios que nos antecederam, números e dados de todos os tipos etc. e tal. Mas tudo bem, valeu a experiência. Depois da palestra, tínhamos combinado de ir jantar nos Tibetanos com a Marisa (amiga da Teresa, sósia da Daniela), mas acabamos indo comer pizza com cerveja na casa nova da Teresa. Ótimo papo, boa pizza, e ela está muito bem instalada num apartamento no Rato, pertinho do Museu da Ciência, onde trabalha, para onde pode ir a pé.
Olha a sósia da Dani aí! Além de lembrar fisicamente, a Marisa tem também o jeitão da Daniela.

Nau luso-brasileira




segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

80 - Viajantes e bibliotecas

Achei esta citação do Michel de Certeau no meio das minhas leituras de hoje sobre a "arte da imprimissão" na Biblioteca Nacional (tem tudo a ver com a viajante que vos fala): "Os leitores são viajantes, vagueiam por terras alheias, nômades, entregues à caça furtiva por campos que não escreveram, prontos a apropriar-se das riquezas do Egito para delas usufruírem". Pelo que acabei de ver na web, este trecho está no Ler: uma operação de caça, que, no Brasil, saiu pela Vozes. Achei uma do Foucault também (Pedro!!! Onde está este trem?): "Este novo lugar de fantasmas deixou de ser a noite, o sono da razão, o vazio incerto e escancarado perante o desejo: é, pelo contrário, a vigília, a atenção contínua, o zelo erudito, a atenção sempre vigilante. O quimérico nasce agora da superfície negra e branca dos sinais impressos [...]. É um fenômeno de biblioteca." Não dá para não pensar em Borges...

domingo, 18 de janeiro de 2009

79 - Alfama's day

Ontem foi muito giro, porque acabei explorando um pouco mais a região de Alfama, o bairro mais antigo de Lisboa, com suas ruelas labirínticas e clima medieval. De manhã fui à Feira da Ladra e, à noite, ao Ondajazz. Bem, depois de uma visita demorada à feira de livros antigos no Chiado, e uma rápida passagem pela FNAC, onde tive o desprazer de constatar que um dos livros da minha lista se esgotara (vou ter que tentar na Amazon, porque este livro vale a pena, é um livro de história da ciência com um capítulo inteiro dedicado à astrologia), segui para a Feira da Ladra, onde, depois de ver todas as quinquilharias, antiguidades e roupas baratas que se possa imaginar, também encontrei um alfarrábio muito bom. A Feira da Ladra é uma das feiras populares mais conhecidas de Lisboa, apesar de que a Lídia já me disse que há outras melhores, mas menos badaladas turisticamente. Tinha que ir conferir, afinal, isto está na minha lista de coisas a fazer em Lisboa desde agosto, assim como o fado vadio da Tasca do Chico. Não posso ir embora da terrinha sem ver e fazer certas coisas. Muito bem. À noite, encontrei-me com a Teresa no Rossio, jantamos e botamos o papo em dia num ótimo restaurante indiano - Caxemira -, num cantinho escondido da Praça da Figueira, e depois fomos andando até o Ondajazz, desfrutando do clima noturno das vielas da Alfama. Lá pelas tantas ela disse alguma coisa assim: "Será que não é perigoso andar por aqui a essas horas?", e eu respondi: "Teresa, nós estamos em Lisboa!", ao que ela replicou: "Justamente por isso!"... Ai, ai, ai... acho que vou sentir saudade dessa sensação de segurança (totalmente ilusória decerto) que tenho por aqui, além da impressão de estar em casa... Digressões à parte, quando chegamos ao Ondajazz, a primeira impressão do local foi muito boa, mas quando o show começou, além de a banda - Transatlantista - ser fraquíssima (apesar do ótimo repertório recheado de Hermeto Pascoal, Tom Jobim, Edu Lobo etc.), descobrimos que o local não é de fato um clube de jazz, como o Hot Clube, mas sim um restaurante com música ao vivo... Lamentável! O barulho de pratos, copos e talheres, além da falação no meio do concerto só pioraram a situação do que já não estava lá essas coisas. Fomos embora antes de terminar, pois os bocejos e o tédio tomaram conta das duas apreciadoras de jazz, estas sim, amigas transatlânticas.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

78 - Quinta-feira de jazz na Cinemateca Portuguesa

Hoje finalmente vi um filmão do Clint Eastwood que já queria ver há algum tempo: Bird. É a história do Charlie Parker, magnificamente interpretado pelo Forrest Whitaker. Já tinha lido uma pequena biografia do Bird, mas realmente com imagem e som é sempre mais interessante, ainda mais porque o filme evidentemente é recheado de música. Olhem só o trailer:



A curta vida do cara (34 anos), apesar de sofrida paca, foi realmente produtiva. Vou citar só algumas: Ornithology, A night in Tunisia e All the things you are: