sexta-feira, 7 de abril de 2017

160 - Mais alguns personagens da história da Origem em Portugal - 1

Há vários comentadores de Darwin (CD) em Portugal, mas destacarei aqui alguns que me interessam por sua atividade tradutória, e sobre os quais me debrucei essa semana. Um deles, que já foi citado em postagem anterior, é o Júlio Augusto Henriques (1839-1928), botânico pioneiro na introdução do darwinismo em Portugal. Com ele fica claro o papel da tradução como divulgação do conhecimento científico.

Fonte: Biblioteca Digital de Botânica da Universidade de Coimbra. 
Clique aqui para ver a ficha completa do moço.

JAH escreveu as seguintes dissertações em seu acesso à Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra: As espécies são mudáveis? (1865); e Antiguidade do homem (1866). Nessa última, ele cita Darwin pelo menos uma vez (p. 26), mas sem grandes aprofundamentos. Cita também Humboldt, Lamarck, Cuvier, Quatrefages, Lyell, Huxley (de quem traduz trechos, p. 24-5) e outros. É um texto mais de apresentação de evidências do que de discussão teórica.

O que mais me interessa é que ele também traduziu outros autores darwinistas, como Hooker (Elementos de botânica, em 1877) e De Candolle (C. Darwin - causas do sucesso de seus trabalhos e importância deles, em 1882-2). Uma curiosidade sobre o primeiro texto é o aviso legal (com ortografia atualizada por mim): "A propriedade desta tradução pertence ao império do Brasil, para todos os efeitos legais, ao exmo. snr. Luiz D´Andrade, cidadão brasileiro." Quanto ao segundo, vê-se uma nota do tradutor destacando a importância de Darwin para justificar a tradução. Clique aqui para ver o artigo no periódico O Instituto.

Ele publicou muito material didático ou paradidático, vários com ilustrações e todos sem citações ou referências, como Rudimentos de botânica (1889), Terminologia botânica (1885) e Elementos de agricultura (1881), só para citar alguns. Entre seus escritos, destacam-se, para os meus interesses atuais, os seguintes (clique no link da referência para ver ou baixar o arquivo):

HENRIQUES, J. A. Carlos Darwin. Jornal de Horticultura Prática, Porto, v. xiii, n. 3, mar 1882, p. 41-4.
___. Carlos Darwin 1809-1909. Boletim da Sociedade Broteriana, Coimbra, v. xxiv, 1908-9, p. 5-6.
___. Celebração do centenário do nascimento de Ch. Darwin. Boletim da Sociedade Broteriana, Coimbra, v. xxiv, 1908-9, p. 245-6.

Outro personagem que se destaca é o "Fritz Müller português": Francisco de Arruda Furtado (1854-1887). Digo isso porque, assim como Müller, o "nosso naturalista" alemão radicado em Santa Catarina, FAF também se correspondeu com CD. Apesar da sua curta vida, esse moço fez história e é reconhecido desse lado do Atlântico como discípulo de Darwin. Recentemente foram publicadas a sua obra e correspondência científica em dois livros enormes, com introdução, levantamento e estudo de Luís M. Arruda.


Dei uma olhada em ambos os livros esta semana. As cartas de/para CD estão entre as páginas 105 e 118. São quatro cartas de CD para FAF, e seis de FAF para CD. Curioso é que FAF escrevia em francês e CD em inglês. 

No livro sobre a obra científica, FAF cita CD direta e indiretamente em vários artigos, traduz longas citações da Origem do inglês e faz algumas outras sem citar a fonte. A mais antiga delas, pelo que vi, é de 1882, passando a ser, então, a segunda tradução de trechos da Origem em Portugal, ficando a do jornal O Povo de Aveiro (1886) agora em terceiro lugar. Acho que eu vou ter que fazer uma linha do tempo em breve para organizar essa cronologia...

Infelizmente, o Arruda Furtado deturpou um bocado a leitura de Darwin sobre as mulheres e as noções de raça e civilização . Vejam só que tristeza:

"A evidência da superioridade intelectual do homem, encarada friamente, longe de ser humilhante para a mulher, é preciosa neste sentido, em que ela deixa ver em todo o seu valor o lugar insubstituível de cada um. Estudado à luz da história e da antropologia, esse abismo intelectual que separa o homem da mulher, tanto mais, quanto mais superior é a raça e mais avançada a civilização, diz-nos que o homem está fatalmente condenado a ser cada vez mais homem, e a mulher cada vez mais mulher." (p. 484)

E ainda tem coisa pior (se é que é possível):

"Somos pela educação científica da mulher; a ciência, já o dissemos, vai sendo a única sanção da moral do futuro. Julgamos que a mulher pode saber muito mais coisas do que aquelas que lhe ensinam, e a nossa tese reduz-se unicamente à questão de saber se é possível educá-la e instruí-la como se educa e instrui o homem. É isto o que julgamos impossível, e a experiência tem-nos já demonstrado." (p. 615)

Deuses! Quase vomitei lendo isso... Ossos do ofício.



quinta-feira, 6 de abril de 2017

159 - Trabalho, jazz, pães e... Mircea Eliade em Lisboa

Só tenho uma coisa a declarar: amo esta cidade! Andar por essas ruas, respirar esses ares, ouvir esses falares, sentir-me estrangeira mas ao mesmo tempo em casa, adoro tudo isso... E ainda há as gostosuras:

Estes pães são de lascar! Haja malhação para queimar todo esse carboidrato...


Este queijo é de ovelha, tipo um requeijão, não se come a casca e é para abrir em cima como uma tampa. Família Fraga, reparem só no selo preto: Queijos Fraga.


Na segunda, atendendo a um pedido do Ricardo, fiz uma intervenção feyerabendiana na aula dele da pós. Foi bem giro! Fiz um panorama geral da vida e da obra do Feyerabend, figura que sempre vale a pena ver, ou ler, de novo. Além disso, o trabalho na Biblioteca Nacional (BNP) é uma alegria - em outra postagem coloco as novidades da pesquisa -, o lugar é mágico, confortável e inspirador. Ontem ainda dei uma de cicerone e fiz um tour por lá com Carlos e Dani, que adoraram. Depois saí com eles pelo campus da universidade. Vale lembrar que a BNP é praticamente dentro da Universidade de Lisboa.

E lá estávamos nós, debaixo de um céu azul e de um sol de rachar, andando pela alameda principal, onde se encontram o prédio da reitoria em posição central, em frente ao qual há um enorme gramado. Da reitoria, olhando para o gramado, à direita vê-se o prédio da faculdade de Direito e, logo depois, o das faculdades de Psicologia e Educação, onde fomos prestigiar o novo endereço da Livraria Metamorfose, do simpático casal Joana e Humberto, que visitamos na semana passada. À esquerda da reitoria, vê-se o prédio das faculdades de Letras e Filosofia e, logo depois, a Torre do Tombo. Atrás dela, os blocos da Faculdade de Ciências, por onde tenho andado. Quem quiser rever fotos e impressões passadas, clique aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Despedimo-nos no metro, de onde ainda lhes apontei, ao longe, o enorme Estádio Universitário (um complexo esportivo que tem de tudo, até campo de golfe), o principal bandejão e o hospital.

E para comemorar tudo isso, fui ao Hot Club na terça e na quarta. Ontem com a Teresa e anteontem com o Carlos, a Dani e o amigo deles, Felipe. Assim como na terça passada, rolou jam session com entrada grátis nos dois dias, sendo que ontem, antes da jam session, teve um pequeno concerto de dois representantes da velha guarda do jazz lisboeta - Barros Veloso no piano e Binau Moreira no baixo acústico -, que convidaram o trompetista residente, João Moreira. Um luxo só ver esse desfile de músicos excelentes no palco do HCP. Deem uma sacada no trio em outro evento no ano passado:


De quebra, nas minhas andanças achei mais uma livraria, a Artes e Letras, que fica na Rua Elias Garcia, uma transversal da Cinco de Outubro. É um sebo com uma velharia de alto nível, coisas do arco da velha, e que demandam muito tempo de garimpagem. Praticamente ao lado achei isso:



Nunca poderia imaginar que o Mircea Eliade morou em Lisboa...


terça-feira, 4 de abril de 2017

158 - Traduções recentes da Origem em Portugal

Pelo que vi até agora, as edições mais recentes da Origem aqui em Portugal são as seguintes:




Essas três edições, respectivamente da Editora Babel (2011), Guimarães Editores (2009) e Círculo de Leitores (2009), contêm a mesma tradução de Vítor Guerreiro (com quem já marquei uma entrevista no Porto no final de abril) e um prefácio do Michael Ruse escrito especialmente para a versão portuguesa.


Edição eletrônica da Editora Planeta Vivo (2009), traduzida por Ana Afonso, com quem não consegui contato, mas já marquei entrevista (também no Porto) com o revisor e editor Nuno Gomes. Clique aqui para baixar o arquivo.


Esta é uma tradução parcial (só os capítulos 3, 4, 6 e parte final do último), feita por Susana Almeida, publicada pela Editora Coisas de Ler em 2007. Não há paratextos, portanto não tenho nenhuma informação sobre essa edição.


Aparentemente, esta é a primeira tradução portuguesa completa da Origem feita direto do inglês. A tradutora é Dora Batista, com quem tentei contato, mas ainda não obtive resposta. Saiu nas Publicações Europa-América em 2005.






domingo, 2 de abril de 2017

157 - Caricatura darwinista de Bordalo Pinheiro

Disponível na Hemeroteca Municipal de Lisboa (clique aqui para ir até lá), esta caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) saiu no jornal Pontos nos ii de 17 de julho de 1886. Esse jornal semanal humorístico foi dirigido pelo próprio artista. Eu fiquei encantada quando fui ao Museu Bordalo Pinheiro no início de 2009, como se pode ver aqui. Parece que o museu acaba de completar 100 anos, pelo menos é o que diz o site do museu. Acho que vou lá visitá-lo de novo.

156 - Tertúlias

Na sexta, depois de uma tertúlia com a Francine sobre Feyerabend e quejandos pelo skype, fui à noite para a tertúlia dos amigos da Teresa. O grupo, que, pelo que pude perceber, é composto de acadêmicos e artistas, tem se encontrado na última sexta-feira de cada mês para comer, beber e conversar sobre um tema estabelecido previamente. A ideia é uma conversa informal, sem academicismos, uma coisa leve e divertida, uma boa experiência de convívio. O primeiro foi sobre o sentido da vida, e agora o tema foi o amor. Cada tertuliano levou algo para comer e/ou beber, além de uma fala inspirada pelo tema proposto e pelo bate-papo que se estabeleceu. Pensei em falar sobre o amor em Platão, desisti porque não estava com o meu Banquete, mas mesmo assim o mundo platônico bateu ponto na reunião; depois pensei em falar sobre o amor na astrologia, mas isso seria complexo demais; então vesti minha camiseta do Darth Vader e levei um pouco de cultura pop para a tertúlia. Vejam o registro do evento:

Vamos ver se lembro o nome da malta. Na ordem:

Ana Paula, Margarida, Regina e Ana Rita

Margarida, Regina, Ana Rita, Fernando, João e Ana (bem no cantinho)

Quase a mesa toda aqui, mas a Ana (a anfitriã) aparece melhor agora (em pé ao lado da Elvira)

Ana (no cantinho), Elvira, João e Isabel

As amigas transatlânticas

Ontem ainda fui para mais uma tertúlia, agora familiar. Peguei o 311 no Campo Grande e fui até os arredores de Lisboa (Catujal) almoçar com a Lídia e sua família, agora com o filho, a nora e o neto, que não estavam da outra vez:

O marido (Manoel), o filho (Pedro) e o neto (Rodrigo). O menino Rodrigo, agora com 13 anos, não se lembrava de mim (memória de criança é curta, mas veja ele aqui e aqui).

Pedro e Sônia

Como de costume, depois saí com Lídia para um papo e um café. Provei uma tigelada, doce que já tinha visto em todas as pastelarias (confeitarias), mas que ainda não tinha comido. Resumindo, é tipo um suflê de pudim de leite. Uma delícia!
Foto capturada no site Fabrico Próprio


155 - Tibetanos, Lubitsch e amigos

Na quinta resolvi ir a outro vegetariano que frequentei das outras vezes: Os tibetanos. Clique aqui para ver o site do restaurante com fotos, cardápio etc., e aqui para ver a minha primeira impressão sobre o local em 2008. O clima continua o mesmo, bem como a qualidade do rango (comi hamburguer de seitan com arroz basmati e legumes, e tarte de morango de sobremesa, tudo isso regado a um vinho branco da casa), do atendimento e da música. Saí de lá flutuando com os cheiros, sabores, sons e cores ali desfrutados.

Foto capturada do site do restaurante, que fica na Rua do Salitre 117

Depois fui andando para a cinemateca, que fica bem pertinho, na Rua Barata Salgueiro 39:

Foto capturada no jornal Público

Assisti a mais um filme da fase americana do Lubitsch: To be or not to be. Filmaço que lida com a mistura entre ficção e realidade promovida por um grupo de atores numa Varsóvia ocupada pelos nazistas. Divertidíssimo e movimentadíssimo! Veja o trailer abaixo (acho que dá para ver o filme todo no youtube):


Depois disso encontrei Carlos e Dani, amigos brasileiros de mudança para Portugal, na livraria Metamorfose no Chiado. 

Olha só o casal 20!

 A foto não está lá essas coisas, mas registra o encontro com o meu velho amigo no meio dos livros de uma livraria lisboeta.

Era o último dia da livraria naquele endereço, em cima do Cinema Ideal, que, diga-se de passagem, foi recuperado nos últimos anos, por isso não o conhecia de outros carnavais (parece que foi o primeiro cinema em Lisboa). Agora a Metamorfose vai para a Faculdade de Psicologia da UL.

Foto capturada no site Cinema Treasures. O Cinema Ideal fica na Rua do Loreto 15.

Só de curiosidade, vejam aqui a foto do local nos anos 1950 (capturada no site Restos de Colecção):