segunda-feira, 17 de abril de 2017

166 - Fitas na biblioteca

Professor Augusto Fitas na porta da BNP segurando o meu livro!

Quem quiser se lembrar, ele já foi mencionado no blog aqui e aqui, mas esta é a primeira foto. De passagem por Lisboa nessas férias de Páscoa, hoje o Fitas apareceu para um café comigo na BNP e para pegar seu exemplar do meu livro e mais um para a biblioteca da Universidade de Évora. Como das outras vezes em que nos encontramos, o papo correu solto, desde a sua aposentadoria recente até a minha pesquisa sobre as traduções de Darwin, passando pelos problemas da ciência e da política no Brasil, em Portugal e no mundo em geral, as alegrias e as dores da docência e da vida acadêmica etc. Evidentemente, com sua vasta experiência em história da ciência, ele pôde me dar algumas boas sugestões para o meu trabalho, que foram devidamente anotadas, como esta aqui: há uma referência a Darwin no livro As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis, que ele se lembra da infância como a primeira vez que ouviu falar em Darwin. Giro, não? 


Como dizia Deleuze, a literatura é uma saúde! Vale registrar que hoje comecei a explorar o material de/sobre Antero de Quental e evolução. Além da literatura, há textos filosóficos de Quental, nos quais ele trata, entre outras coisas, do conceito de evolução. Assim que der, falo mais do assunto.

E já que estamos às voltas com bibliotecas, nas minhas andanças exploratórias por Alvalade, bairro próximo daqui, do outro lado do Campo Grande, descobri um recanto praticamente em frente à Biblioteca Nacional. Parece um mini-bairro com clima de Urca ou Bairro Peixoto. No meio dele, a Biblioteca dos Coruchéus, uma biblioteca municipal que foi recentemente inaugurada num palácio seiscentista, e que é rodeada por ruas com nomes de escritores. Sem querer, lá estava eu perambulando pela rua Fernando Pessoa...



  

domingo, 16 de abril de 2017

165 - Salve, Jorge!

Nesse feriadão (aqui se chama férias de Páscoa; a universidade, por exemplo, parou na terça passada e só volta a funcionar na próxima terça), além de caminhar no estádio universitário e trabalhar um bocado, pude rever Dona Rosa (almoçamos num restaurante natureba em Telheiras, bairro que ainda não conhecia, mas que é ao lado do Campo Grande, ponto final da linha verde do metro), botar o papo em dia, curtir um pouco essa matrona portuguesa gente boníssima que mora no meu coração. Reparem no prato super light e no suco vitaminado (eu comi e bebi exatamente a mesma coisa: saladão verde com massa integral, frango, legumes e um molho de mostarda ao mel, acompanhado desse sucão aí, acho que de laranja, cenoura e manga):


Ela estava toda feliz porque o Paulo, seu filho, acabara de ligar de Atenas, onde está de férias com a família num cruzeiro. Dona Rosa é toda coruja com seu filho único e adorou dizer que estava bem e segura, passeando com sua amiga brasileira. Ela quer de qualquer jeito marcar um almoço comigo e a família dela toda, para eu rever sua netinha, que, claro, não se lembra mais de mim (já é uma adolescente), e conhecer seu novo netinho. Sozinha por cá esses dias, resolveu visitar a família no Norte, em Ponte Lima. Deve estar se divertindo por lá agora. Aliás, esta é uma grande diferença entre ela e a Lídia, duas mulheres mais ou menos da mesma idade, guerreiras, sofridas e de origens semelhantes, mas uma consegue se divertir, cuidar de si, enfim, viver com um pouco de leveza, apesar de todos os pesares, enquanto a outra ainda não consegue sair da sua roda-viva de trabalho, tarefas do lar e machismos.

Mudando de assunto, sexta-feira santa é dia de Hot Club Portugal! Dessa vez vi e ouvi um concerto do Ricardo Pinto Quinteto, que estava lançando seu novo álbum, "A sul". Como, para mim, jazz pede trompete, saí de lá feliz da vida porque o moço é trompetista, e dos bons. O quinteto, além dele, conta com Ricardo Toscano no sax, Oscar da Graça no piano, André Rosinha no contrabaixo e Luís Candeias na batera. Vejam - e ouçam - um pouco dele com outra banda (só o baixista é o mesmo) e outro projeto há dois anos no mesmo HCP:

Um luxo só este espaço de jazz em Lisboa!

Para fechar o registro desses dias, vi um belo e duro filme português, que estreou na semana que cheguei e que estava querendo ver desde então: São Jorge, de Marco Martins. Badaladíssimo, o filme foi super recomendado por todo mundo que viu (quem quiser conferir a matéria na RTP, clique aqui) e, ademais, ganhou o prêmio de melhor ator no último Festival de Veneza. Realmente, o cara - Nuno Lopes - não estava brincando não, apesar da câmera nervosa que o acompanha de perto (muitas vezes só vemos a nuca dele, o que chega a irritar um pouco). Seus silêncios são eloquentes e, só com o olhar e a expressão corporal, vemos e sentimos com ele o drama do desemprego e da crise econômica recente, os dilemas de quem precisa sobreviver, reconquistar sua mulher e alimentar um filho morando com o pai e uma enorme família num pequeno apartamento num bairro popular, e a dor (física inclusive porque ele é lutador de boxe) que ele experimenta em várias situações não só no ringue, mas na vida pessoal, no trabalho e nos caminhos que traça diante dos dilemas. Para além do desemprego, da pobreza, da falta de alternativas e da vida na periferia de uma cidade qualquer (a gente sabe que é Lisboa, mas a cidade não é identificada, poderia ser qualquer uma), o filme atravessa outras questões importantes, como racismo e imigração (a mulher dele é negra e brasileira). Vejam só o trailer:


Vale lembrar que São Jorge é padroeiro de Portugal. 

O filme começa com o protagonista, Jorge, recitando a famosa oração do seu santo homônimo, que me lembrou na hora o nosso querido Jorge Ben:


Salve, Jorge! 



quinta-feira, 13 de abril de 2017

164 - Biblioteca da Ajuda



Quarta-feira foi dia de conhecer a região da Ajuda, especialmente o Palácio Nacional (ao fundo, bem acima da minha cabeça) e a sua deslumbrante biblioteca, e também o Jardim Botânico (de onde tirei essa foto). Agora sem mim:

Que céu!!!

Esse bairro fica numa colina lisboeta que se encontra acima de Belém, lugar já velho conhecido de outros carnavais (quem quiser se lembrar, clique aqui, aqui e aqui), onde, além da famosa Pastelaria de Belém, encontram-se o Padrão dos Descobrimentos, o Mosteiro dos Jerônimos, a Torre de Belém e o Centro Cultural Belém. Vejam o Palácio, agora mais de perto:


E agora euzinha na entrada:


Ou na versão "onde está wally?", mas com um visual maior da fachada do palácio:


E agora os seus fundos, curiosamente inacabados:


Os fundos inacabados do palácio vistos de fora:

Com direito a ver o bonde (aqui se diz elétrico)! 
Quem quiser conhecer a interessante história desse palácio, clique aqui.

O giro foi que contei com um guia ilustre, Luís Ribeiro, que, como disse outro dia no post sobre o reencontro astrológico, faz parte da representação acadêmica celeste deste lado do Atlântico (Helena já voltou para Londres). Além de ciceronear esta turista pesquisadora que aqui vos fala, ele foi lá fotografar uns manuscritos astrológicos que está estudando para o seu doutorado. Olhem a gente na entrada da biblioteca:


Agora vejam um pouco do que eu consegui registrar lá dentro (quem quiser saber mais sobre a Biblioteca da Ajuda, clique aqui):

 



Incrível, não?

Reparem a cara de felicidade da criança. Parece comigo há oito anos e tal quando botei a mão no manuscrito do Tetrabiblos na Biblioteca Nacional de España. Quem quiser relembrar o que escrevi sobre esse momento em 2008 no meio das minhas impressões sobre Madri, clique aqui.


Este manuscrito da Ajuda, que se chama Physionomia, de Rolando de Lisboa, já está digitalizado (clique aqui para baixá-lo) e trata de fisionomia e astrologia, como Helena e Luís já descreveram num artigo ainda inédito. Vejam só que linda capa:

Depois disso, falar o quê?

Só nos resta contemplar a vista do Tejo (180 graus em 3 fotos):

Aqui, com boa vontade, vê-se a foz desse rio que parece um mar...


Com esforço, dá para ver parte da ponte 25 de abril e o cristo-rei lá do outro lado...


quarta-feira, 12 de abril de 2017

163 - Prato do dia: Darwin


Esta imagem, já conhecida dos membros do GP que participaram da leitura da Origem, não foi escolhida ao acaso para ilustrar essa postagem, já que anteontem, graças a esse trabalho que temos feito há quatro anos na UEM, pude oferecer esse mesmo prato do dia para os alunos do Ricardo. O que era para ser apenas uma intervenção na aula de História Experimental da Ciência acabou sendo a aula inteira, o que foi muito giro.

Falei de Darwin, da Origem, de algumas questões relacionadas à teoria e à escrita do livro, e, claro, das traduções. Sugeri filmes, livros, sites e, evidentemente, o blog do GP. Até Walking Dead e X-Men compareceram... Deu para falar brevemente das principais ideias de Darwin (origem comum, descendência com modificação, seleção natural, gradualismo), do seu estilo de escrita e do uso da analogia, dos habituais mal-entendidos (teleologia, progresso, sobrevivência dos mais fortes), dos seus usos indevidos (darwinismo social, eugenia), de alguns problemas terminológicos (melhoria, aperfeiçoamento etc.) e tradutórios (como o problema da tradução do termo "origem" em alemão, ou o pato que virou canário na tradução portuguesa de 1913 que é oriunda do francês, ou a péssima tradução brasileira da Editora Escala), que repercutem, sem sombra de dúvida, na educação científica. Atravessei alguns autores e suas influências, semelhanças e diferenças, como Lyell, Hooker, Huxley, Wallace, Lamarck e Spencer. Enfim, um pouquinho de tudo o que temos discutido, portanto obrigadíssima ao GP de Science Studies da UEM, especialmente à minha querida Marta Bellini, cuja presença forte eu sinto aqui comigo por essas terras quando toco nesse assunto que lhe é tão caro. Quem ficou curioso, clique aqui para ver o nosso Espaço Darwin.


Mudando de assunto, mas não muito.

Sim, Pedro, num post anterior fiz referência ao Samuel Butler, autor de Erehwon. Aparentemente, na minha leitura dinâmica do Evolution, old and new, o problema dele com o Darwin é a falta de telos na evolução por seleção natural. Para Butler (e, talvez, para Darwin também; vide último parágrafo da última edição da Origem), ciência e religião não se excluem. Parece que ele ainda escreveu mais dois outros livros sobre evolução. Traduzi (provisoriamente) o sumário do Evolution, veja só:

1. Estado da questão - opinião corrente contra a teleologia
2. A teleologia de Paley e dos teólogos
3. Impotência da conclusão de Paley - a teleologia do evolucionista
4. Falha dos primeiros evolucionistas em perceber sua posição como teleológica
5. A evolução teleológica do organismo - a filosofia do inconsciente
6. Esquema do resto do trabalho - esboço histórico da teoria da evolução
7. Evolução pré-buffoniana e alguns autores alemães
8. Buffon - biografia
9. Método de Buffon - o caráter irônico de seu trabalho
10. Supostas flutuações de opinião - causas do meios de transformação das espécies
11. Buffon - citações completas
12. Esboço da vida do dr. Erasmus Darwin
13. Filosofia do dr. Erasmus Darwin
14. Citações completas do Zoonomia
15. Biografia de Lamarck
16. Mal-entendido geral em relação a Lamarck - sua posição filosófica
17. Resumo da Philosophie zoologique
18. Sr. Patrick Mattew, sra. Étienne e Isidore Geoffrey St. Hilaire e sr. Herbert Spencer
19. Principais pontos de concordância e diferença entre as teorias da evolução antiga e nova
20. A seleção natural considerada como um meio de modificação - a confusão que essa expressão causa
21. A defesa do sr. Darwin da expressão "seleção natural" - o professor Mivart e a seleção natural
22. O caso dos besouros da Madeira como ilustração da diferença entre a evolução de Lamarck e do sr. Charles Darwin - conclusão
Anexo: resenhas de Evolution, old and new; Roma e panteísmo
Índice remissivo

segunda-feira, 10 de abril de 2017

162 - Festa do jazz em Lisboa

Neste fim de semana conheci o lindo Teatro São Luiz, na rua António Maria Cardoso, no Chiado:

Foto capturada no site Meloteca.

Que abrigou a 15a. Festa do Jazz:


Além dos concertos pagos nas grandes salas, devidamente noticiados aqui, e da meninada com menos de 15 anos que se apresentou no Jardim de Inverno (espaço grátis e mais despojado do evento),


Testemunhei coisas muito giras nos fins das tardes de sábado e domingo, como as escolas de jazz de Braga, Cascais e Coimbra. No sábado ainda contei com a companhia ilustre de Carlos e Dani, com quem ainda tive o prazer de passear pela feira de alfarrabistas do Chiado e comer um pastel de nata na Manteigaria quase em frente ao Camões. 

Quem quiser ver a entrevista de um dos organizadores do evento, clique abaixo:


Quem quiser ver um pequeno pot-pourri da festa do ano passado, clique abaixo:


Aproveite e veja também um pouco do que eu vi e ouvi na semana passada no Hot Clube, eles acabaram de botar no youtube:







sexta-feira, 7 de abril de 2017

161 - Mais alguns personagens da história da Origem em Portugal - 2

Continuando a minha seleção de comentadores de Darwin que tenham alguma relação com a tradução da Origem, apresento agora o Alberto Candeias (1891-?), que, dentre vários outros títulos de sua autoria ou traduzidos, publicou A vida e a obra de Darwin (1941) e A personalidade e a obra de Darwin (1940). O segundo foi uma conferência lida no liceu Gil Vicente em dezembro de 1938, e parece uma versão preliminar do primeiro.



Dei uma boa lida nesse material e vi que o segundo livro não contém referências, afinal, é um texto que foi lido. Mas no primeiro, entre outros livros de Darwin, Candeias traduz vários trechos da sexta edição inglesa da Origem, devidamente citados com paginação e referência completa das fontes, um típico trabalho acadêmico. Bom e belo  livro rosa sobre CD, que comenta suas ideias e seus livros, contextualizando com a discussão da época. Não sei se dá para ler o sumário na capa, então segue abaixo para vocês darem uma olhada (ortografia atualizada por mim): 

1. A família de Darwin e o ambiente social do seu tempo;
2. Os primeiros anos;
3. A viagem do Beagle;
4. Darwin na sua casa de Down;
5. O livro A origem das espécies;
6. As polêmicas levantadas em volta da ideias de Darwin;
7. As outras publicações científicas de Darwin.

Outro botânico português relacionado com essa história é o Carlos das Neves Tavares (1914-1972):

Foto capturada aqui

Ele traduziu e comentou diversas obras sobre evolução entre os anos 1950-70, dentre elas, algumas que folheei esses dias: 1) "Ch. Darwin e a origem da flora dos Açores", artigo que se refere à Origem, mas sobretudo às cartas de CD; 2) Código internacional de nomenclatura botânica, com tradução, introdução e notas de CNT, incluindo um elogio ao objetivo didático da tradução; e 3) "Quatro cartas inéditas de Charles Darwin para Francisco D´Arruda Furtado", artigo que comenta detalhadamente o conteúdo das cartas trocadas entre CD e FAF (depois reimpressas no livro que mencionei no post anterior sobre a correspondência de Arruda Furtado).

Evidentemente há outras obras que tratam do assunto, como essa tradução de 1939 feita por Anibal G. Pereira (supostamente do alemão):


E também estas, dentre outras, que, apesar de até terem sido boas leituras, não aportaram grandes coisas à minha pesquisa atual:

BUTLER, S. Evolution, old and new; or, the theories of Buffon, dr. Erasmus Darwin, and Lamarck, as compared with that of Charles Darwin. Londres: A. C. Fifield, 1911.

GIRALDES, A. "O darwinismo ou a origem das espécies". In: ___. Questões de filosofia natural. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1878, p. 37-82.

MARQUES, P. Colocação actual do problema da origem das espécies. Separata da Revista Rumo, jan-61.

QUINTANILHA, A. O problema da delimitação e origem das espécies do ponto de vista da biologia experimental. Separata do Boletim da Sociedade Broteriana, v. xvii, 2a. série, 1943, p. 159-165.