A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
Este é um dos seus vários autorretratos (capturado no site do museu), que, aliás, foi uma das coisas que me chamou muito a atenção. Como alguém consegue se retratar das formas mais variadas e com tanta convicção? E que olhos! Adorei todos esses retratos.
E olhem o moço peladão em plenos anos 1920, vanguarda total.
Adorei também o ecletismo (como enquadrá-lo num estilo?), a polivalência (fez de tudo: pintura, cinema, literatura etc.), a liberdade e o humor desse artista maravilhoso, com amigos maravilhosos (Pessoa e Lorca, só para citar dois que eu amo) e que, segundo consta, adorava fazer escândalo em público. Já pensou?
Para finalizar esse belo dia de alegrias almadas, um brinde com os amigos numa pastelaria na Praça da Figueira:
Julia (filha do Paulinho, amigão do Pedro) e Dani
Nau brasileira em Lisboa. Dani e Carlos já apareceram aqui e aqui.
Meu velho amigo Carlos e eu. Há exatos 32 anos estudávamos na Ence e voltávamos juntos de 410, compartilhando nossas vidas adolescentes, nossos sonhos e dores do crescimento. Isso quando não matávamos aula para jogar vôlei, fazer um som ou bater papo no grêmio da escola. "Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não."
No sábado passado saí cedo para ver duas sessões do festival no Culturgest: os documentários A construção da Villa Além + Avant l´envol (clique aqui para ver as sinopses) e Dia 32, de André Valentim Almeida (clique aqui para ver a sinopse). Os dois primeiros, um português e o outro suíço, são filmes de arquiteto, mas bem diferentes entre si. Sinceramente, ambos talvez sejam considerados filmaços pela crítica, não sei, mas o fato é que não gostei muito, apesar de reconhecer a beleza nas suas especificidades (um mostra a construção de uma casa no Alentejo, e o outro, a monumentalidade bizarra na Costa do Marfim).
Já o Dia 32 me encantou, um documentário poético com tema apocalíptico. Achei a coisa mais linda o relato de alguém que, diante da tomada de consciência da impermanência e do seu compromisso com a humanidade, resolve fazer uma arca de imagens, à la Noé. Enquanto acompanhava a sua jornada em busca de imagens que não poderiam ficar de fora dessa arca, fui brindada com várias referências filosóficas, literárias e científicas, com direito à imagem de um saudoso Carl Sagan versão anos 1980.
Mas, como cheguei e comprei os ingressos cedo, fui andar nos arredores (o Culturgest fica no Campo Pequeno) e achei mais um pequeno bairro simpaticíssimo desta cidade que eu amo de paixão: o Arco do Cego. Vejam as imagens:
O bairro, projetado para habitação social, foi inaugurado nos anos 1930.
Sentei na praça da escola e fiquei vendo o tempo passar. Ao fundo, o prédio da Caixa Geral de Depósitos, onde funciona o Culturgest. O maior contraste.
Aqui o contraste mais de perto.
Mais da paisagem desfrutada no banquinho da praça.
À direita, com esforço, vê-se o letreiro de uma das instalações do Arquivo Municipal de Lisboa.
Segui até aqueles arcos do prédio da Caixa.
Embaixo desse arco, no chão, dá para ver os círculos concêntricos. Fiquei no meio deles e olhei para cima, onde se encontram estes belos círculos coloridos (espelhados no chão):
Segui por aqui para a minha sessão de cinema, passando embaixo desses arcos em torno do prédio.
Depois de passar três dias sem internet, o que me rendeu uma crise de abstinência daquelas, retomo os escritos com mais uma tertúlia organizada pela Teresa e sua amiga, Elvira, mas agora sobre caracóis. Ao contrário da outra vez, que foi na casa da Ana e cujo tema era o amor (clique aqui para ver o registro), agora o pessoal escolheu um restaurante que serve a iguaria para fazer o encontro. Já tinha visto várias plaquinhas "há caracóis" em restaurantes da cidade, mas nunca dei a menor bola. Desde que o assunto foi definido para a tertúlia, comecei a reparar e fiquei pensando no que eu poderia levar para esse encontro. Claro que a primeira coisa que me passou pela cabeça - e que de fato levei, apesar de o barulho do restaurante não ter permitido a audição - foi o "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", do rei Roberto Carlos (1971) em homenagem ao exilado Caetano Veloso.
Não sei se esta é a única música com teor político do rei, mas ele não é exatamente reconhecido por esse tipo de produção. No entanto, compôs essa linda música de protesto travestida de música romântica, que era como eu a compreendia quando ouvia este vinil durante a infância e adolescência. Só anos depois fiquei sabendo dessa história entre Roberto e Caetano. Ouça abaixo a faixa no disco:
Os dois juntos em 1992, cantando e falando (no final) sobre a música:
Voltando à tertúlia:
Em torno da mesa, da esquerda para a direita, os tertulianos da noite:
Ana Rita, Francisco, Elvira, Fernando, Eu, Teresa, João, Isabel, João e Ana Paula.
Cheguei a ver a ocorrência do termo na Origem e como isso foi tratado nas traduções. Curioso é que este é justamente um dos termos - shell e variações - que foi objeto de nota do editor da Planeta Vivo, Nuno Gomes, no prefácio e no rodapé (p. 295) da tradução da Ana Afonso, para falar do problema da tradução de termos técnicos da obra (Nuno e Ana foram apresentados aqui; a versão em pdf desta tradução se encontra aqui).
Também acabei me deparando "acidentalmente" com outras referências a caracóis em meio a outras leituras, como esta abaixo, do Jornal de Horticultura Prática, que estava folheando porque contém um texto de Júlio Augusto Henriques sobre Darwin já mencionado aqui:
"Será que vou ser capaz de comer um caracol?",
pensei eu desde que começamos a falar disso.
Sim, eu comi! Alguns...
Provavelmente não vou repetir, mas valeu a experiência e, claro, a tertúlia.
Aqui vemos o João, que já trabalhou com caracóis, "dando uma aula" sobre essas criaturas. Incrível a variedade desses bichinhos, suas conchas e hábitos (há caracóis terrestres, marinhos e de água doce).
Teresa, João, Isabel, João e Ana Paula
Por incrível que pareça, toda a malta tinha alguma coisa para dizer sobre caracóis. A Isabel e a Ana Rita até já pensaram em criar esses bichos, e falaram um pouco disso. A Ana Paula levou uma poesia do Lorca (já muito falado e chorado neste blog quando estive em Granada, como se pode ver aqui e aqui), "Os encontros de um caracol aventureiro". Seu companheiro, Francisco, levou uma poesia dele. Outros tertulianos falaram de receitas, lugares e curiosidades. Incrível como o tema rendeu!
Ana Rita, Francisco, Elvira e Fernando
Para finalizar, vamos lembrar dos caracóis do bom e velho Caetano botando a boca no trombone, com destaque para uma passagem em que, no meio da raiva, ele fala poetando: "não sei o que sou, ainda não decidi".
A árvore continua misteriosa, como dito aqui, mas agora está primaveril
Além do trabalho - na biblioteca, na universidade ou em casa - e da vida social e cultural agitadíssima (agora começaram os festivais de cinema IndieLisboa e de teatro universitário Fatal, não sei como dar conta de tudo o que tem de bom para fazer nesta cidade), o meu cotidiano aqui é bem diferente do vivido em Maringá ou no Rio. Apesar de, em geral, eu viver com os olhos (e ouvidos) bem abertos de plena atenção, aqui é diferente. Cada pequena coisa sabe a muito. Alguém estranhou essa expressão? Pois... Pela primeira vez reparei nela. Os portugueses usam o verbo "saber" ou "saber a" nesse sentido também de "ter sabor de", "parecer" ou "lembrar". Giro, não? Pois...
Figos colhidos no jardim
Mas voltando às pequenas coisas do dia-a-dia, hoje fui fazer um programinha que costumava fazer muito: caminhar no Parque Quinta das Conchas, comprar um frango assado na churrasqueira ali em frente, e almoçar com a minha mãe portuguesa. Não vou botar fotos do parque, já devidamente registrado aqui e aqui, só quero dizer que ele está exatamente como o deixei há cinco anos e meio. O frango é bem diferente do nosso frango assado de padaria, como também já foi descrito aqui e se vê abaixo:
E, claro, não estou mais na Residência Paz, tampouco a Dona Rosa, então passei na casa dela, conforme havíamos combinado ontem. Muito giro! Lá estava ela me esperando com um saladão, um belo vinho, queijo e pão. Na mesma hora que cheguei (o acaso é amigo), seu filho Paulo ligou e, sabendo que tinha festa, resolveu aparecer também. Olhe só a cara de felicidade dessa mãe coruja, felicíssima de estar sendo pajeada por nós dois, e mais ainda por saber que vou a Madri ver nossa amiga querida, Elena, la española loca:
Como de praxe, fui cortar o cabelo na amiga da Dona Rosa (como diz ela, quem tem amigo tem tudo), que também se chama Helena. Assim eu entrei na cabeleireira (cara de louca descabelada tentando fazer um selfie):
Assim eu estou agora (acabei de tirar a foto na varanda do apartamento):
Outras banalidades que me sabem bem na rotina alimentar, como as natas de vacas felizes:
Os vinhos, claro (este é o que estou bebendo agora, maravilha alentejana: tintim!):
E também as novas aquisições (as primeiras já mostrei aqui):
E ainda tem o que talvez possamos chamar de uma rotina familiar. No sábado estive de novo na Lídia para aquele programinha de sempre: almoço em casa com a família e depois aquele café com gostosura (além do bom e velho pastel de nata, provei um doce que se chama guardanapo) em algum canto da cidade. Conheci um bairro novo, a Portela, que, inclusive, dá nome ao aeroporto.
Fontes destas e das outras imagens na postagem: site do museu e wikipedia
Coisa improvável eu visitar um museu chamado Museu do Dinheiro, mas o fato é que fui, muito interessada que estava em ver a exposição deste moço renascentista português, sobre quem nunca tinha ouvido falar: Francisco de Holanda (1517-1584), pintor, desenhista, arquiteto, iluminador e ensaísta. Fiquei encantada com o que vi sobre ele:
E também com o resto do museu, que é muito acolhedor e, por si só, merece uma visita. Há recantos de luz e sombra, e de pura contemplação, que vale a pena conferir. O espaço é novo, abriu no ano passado, e lembra muito o nosso CCBB, até porque pertence ao Banco de Portugal e tem uma exposição permanente sobre a história do dinheiro e a nossa relação com ele. Mas a versão lisboeta é bem mais modernosa e dinâmica do que a nossa versão carioca.
A RTP fez um episódio de seu programa, Visita Guiada, só sobre esse museu. Clique aquipara ir até o site da RTP; e lá clique em "Rever no RTP Play".
Vejam um pouco do belo trabalho do Holanda:
Fiat Lux
Autorretrato (última página do livro)
Afrodite e Eros (versão walking dead)
Depois de almoçar na boa cafeteria do museu (quiche com salada e suco de laranja), ainda fui conferir os livros da aconchegante biblioteca, como o fac-símile (clique aqui para ver o original digitalizado na BNE) do De aetatibus mundi imagines [As imagens das idades do mundo], onde se encontram as três imagens acima:
Vi também a muralha de D. Dinis:
Exposição emocionante sobre a vida de D. Dinis (sobre a qual transitei um bocado durante o meu doutorado, afinal ele fundou a primeira universidade portuguesa e instaurou o português como língua oficial) e a história de Lisboa a partir dessa muralha que ele mandou construir no século XIII.
No domingo, dia 30 de abril, o HCP comemorou o dia internacional do jazz com uma programação que não lhe é usual, já que normalmente não abre aos domingos e muito menos à tarde:
Combinei de ir lá conferir o evento com a minha amiga Teresa, que estava acompanhada do maridão Brilha (de passagem por Lisboa) e do amigo Pedro, que já apareceu aqui no dia do Cais do Sodré. Chegamos no Hot Clube, mas (in)felizmente não conseguimos entrar, saía gente pelo ladrão. Em vez de tentarmos ver qualquer coisa na ponta dos pés na porta do clube (não temos mais idade para isso), resolvemos salir de marcha (para usar este maravilhoso termo espanhol, já mencionado aqui). Subimos até o Príncipe Real, sentamos no bar dessa bucólica praça lisboeta, pedimos imperiais e ficamos jogando conversa fora. Sinceramente, tem coisa melhor? Vidinha chata essa...
O frio foi apertando e resolvemos andar meio sem destino pelas ruas do Bairro Alto, até que decidimos ir à Casa do Alentejo. Então descemos pela Calçada da Glória, onde passa o Elevador - ou Funicular - da Glória (aliás, ele anda cheíssimo de turistas e coloridíssimo, qualquer hora dessas vou fotografar, apesar de já ter fotos das duas outras temporadas, como se pode ver aqui e aqui) e atravessamos a Avenida da Liberdade em direção ao Largo de São Domingos. Daí mais um pulo pela Rua das Portas de Santo Antão e chegamos. Não tirei fotos, conheci o restaurante em 2008 com a nau espanhola e o camarada indiano, como se pode ver aqui, mas vejam só o local (fotos capturadas no site do local e no acervo wiki commons):
Olhando de fora não se dá nada...
Mas olhem só que belezura por dentro.
Aqui é um dos salões do restaurante, onde jantei em 2008 com os amigos gringos.
E aqui a taverna, onde ficamos no domingo. Espaço mais despojado, aberto, mas protegido do frio que estava rolando do lado de fora. Estava perfeito, apesar do serviço lento. O papo luso-brasileiro, como de costume, foi uma alegria. Tomamos vinho da casa (acho que uma jarra e meia) e comidinhas alentejanas, como a sopa de tomate com ovo escalfado (o bom e velho pochê) deliciosamente temperada, pão, queijo de ovelha (virei fã deste e do de cabra, danou-se), azeite, azeitonas, chouriço assado e carne de porco barrada com pimentão e alho. De babar, não? E até rolou um jazzinho de vez em quando, entre outras músicas, inclusive alentejanas.
Para finalizar, ginjinha:
Sem elas, claro, porque já conheço esse trem de outros carnavais, como se pode ver aqui.