terça-feira, 16 de dezembro de 2008

65 - Fim de semana espanhol em Lisboa

Lisboa, 16 de dezembro de 2008.

Neste fim de semana voltei a falar muito espanhol, porque, além da Elena (com quem na verdade rola um portunhol, já que ela estuda português), estavam aqui também dois amigos dela, o Santi e a Ainhoa. O pessoal é muito gente boa, nos divertimos bastante, andando pelas calles lisboetas, tomando uma caña aqui, outra acolá, conversando sobre tudo o que se pode imaginar e aproveitando para nos conhecer melhor. No sábado à noite encontrei com eles na Rua Augusta e fomos andando e curtindo até a Casa do Alentejo, um restaurante tipicamente português muito bom na área dos Restauradores. O edifício é em estilo neomourisco, belíssimo e imperdível, parece que funciona ali uma associação do pessoal do Alentejo ou algo do gênero. Estava rolando uma festa à fantasia muito gira, que vimos de longe. Apesar do mau humor do garçom que nos atendeu, a comida e o vinho estavam ótimos, e a conversa melhor ainda. Além dos espanhóis e da brasileira que aqui vos fala, compareceu também ao jantar o camarada indiano, que se chama Reiaz. O papo então foi trilingue, porque ele só fala inglês. Saímos dali, paramos para um café, onde presenciamos um papo totalmente ininteligível entre o camarada indiano e outro que passou vendendo flores (esta área do restaurante é muito perto da Mouraria, área reconhecida pela fauna indiana, árabe etc.) e fomos andando pelo Rossio, Baixa e Chiado até chegarmos ao Bairro Alto, lugar preferido para os agitos noturnos que à tripulação espanhola tanto encanta. Fiquei um pouco mais com eles, mas depois me recolhi, prometendo que no dia seguinte teria mais. E teve. No início da tarde encontrei com a tripulação espanhola na Praça do Comércio e seguimos para o Parque das Nações, lugar moderníssimo que abrigou a Expo 98, construído para marcar os 500 anos da viagem de Vasco da Gama (que virou nome de shopping center!) e cheio de opções de lazer, negócios, alimentação e compras. Apesar do frio, conseguimos andar um pouco à beira do Tejo, que ali nos oferece uma experiência realmente especial por causa do parque, da vista e da sua grandiosidade. Sentamos num lugar quente à beira do rio, para umas cañas e um bate-papo, e depois fomos comer uma pizza no shopping. Quando saímos dali já estava escurecendo, mas os espanhóis não esmorecem, então seguimos para Belém, atrás dos deliciosos pastéis. Quando nos apercebemos, já estávamos dentro do 15 (o elétrico moderninho), cruzando a cidade. Como já era tarde, conseguimos rapidamente um lugar na pastelaria (que durante o dia está sempre cheia) e lá estávamos nós, mais uma vez em torno de uma mesa, saboreando quitutes deliciosos e desfrutando de bons momentos juntos. Adorei o fim de semana com a turma da Elena, cheguei a ficar triste depois da despedida no metro, porque não sei se vou voltar a rever esta nova amiga já tão querida tão cedo... Acho que estou ficando fraca para despedidas...
Olha a embarcação hispano-brasileira na beira do Tejo!

Todas as bandeiras do mundo no Parque das Nações...

A nau espanhola!

A tripulação brasileira encontrou sua bandeira.

Esta ficou muito gira!





sábado, 13 de dezembro de 2008

64 - Dia de rever as novas amigas

Lisboa, 12 de dezembro de 2008.
Ontem foi muito legal, pois a Elena veio aqui para a residência (ela veio para um congresso em Coimbra e vai esticar até o fim de semana) e fomos nos encontrar com a Teresa lá no Museu da Ciência, onde estava sendo inaugurada uma exposição de um amigo dela. A exposição era uma instalação, um tipo de manifesto contra a decadência do patrimônio, daí a sua pertinência no museu, que parece estar sofrendo também do mesmo mal. Tratava-se de uma casa de bonecas toda destroçada por tiros (o detalhe é que a arma também estava na exposição) e, na parede, a projeção do "destroçamento" por dentro, ou seja, a "arte" sendo feita. Parecia uma casa de verdade, não faço a menor idéia de como filmaram isso por dentro da casa de bonecas, mas tudo bem: viva a arte contemporânea! Saímos dali e fomos andando, a espanhola, a portuguesa e a brasileira, conversando lépidas e fagueiras pelo Príncipe Real, até chegarmos à Rua da Mãe D'Água, onde descemos até o primeiro vegetariano que tentei conhecer aqui, o Jardim dos Sentidos, mas que, em agosto, estava fechado. O lugar é agradabilíssimo, pedimos o couvert e um bom vinho branco para acompanhar nossos pratos (eu comi uma beringela recheada), que vieram muito bem ornamentados em pratos retangulares. O papo transatlântico foi muito bom, e realmente só tenho uma coisa a dizer: é uma grande felicidade poder estar com amigos também em terra estrangeira! Aliás, eu diria que Lisboa, para mim, não é mais uma terra estrangeira. Saímos dali animadíssimas com a boa conversa regada ao ótimo vinho, mas Elena tinha que ir para casa dormir, pois tinha que madrugar hoje. Bem, deixamos a española loca no taxi e seguimos, Teresa e eu, para o Hot Clube. Continuamos nosso papo animado, depois assistimos a um belíssimo concerto de jazz, de Marta Hugon Quarteto. A mulher tem uma voz espetacular, e o show foi de jazz mesmo, nada alternativo. As duas únicas músicas que ela cantou em português foram Correnteza, do Tom Jobim, num arranjo muito simpático, e uma outra, também brasileira, que não me lembro o nome. Valeu a noitada com as amigas!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

63 - Em ritmo de trabalho

Lisboa, 11 de dezembro de 2008.
Desde que voltei, tenho ficado muito na residência. Na semana passada fiquei lendo (retomei o Proust), vendo fotos, ouvindo música e organizando o trabalho. Só saí mesmo para ir ao mercado, à padaria, à aula do Ricardo e ao cinema (vi Ensaio sobre a cegueira, Les enfants du placard e Inquietude). Agora que descobri uma bicicleta ergométrica velha da Dona Rosa melhor ainda, pois está muito frio para ir ao parque, então faço meus exercícios por aqui mesmo. Na segunda foi feriado em Portugal, então fui lá na Lídia (tínhamos combinado no domingo, mas estava chovendo, então desisti), para uma visitinha básica. Esta semana voltei a trabalhar, mas num outro ritmo, agora encarando a folha em branco, ou seja, escrevendo. Quero aproveitar o máximo possível estes dois últimos meses, porque aqui rola dedicação exclusiva à minha tese, então não tenho que me preocupar com mais nada. As coisas estão indo bem. Eu estou bem.

domingo, 30 de novembro de 2008

62 - De volta a Lisboa

Lisboa, 30 de novembro de 2008.

De volta à minha língua! Esta foi a primeira coisa que disse ao pisar novamente em terras lisboetas. Ainda não à minha terra, mas pelo menos à minha língua. Novamente Chomsky com o seu "a língua é uma bandeira no mapa" fez todo o sentido. Nunca pensei que fosse sentir tanta saudade de dizer "saudade", porque "echar de menos" é bizarro, fala sério. E nesta última semana só conseguia abrir a boca para querer dizer "saudade", mas tinha que rolar um "echar de menos" mesmo, porque era saudade de tudo: de casa, dos amigos, da família, da comida (nunca comi tanta carne em toda a minha vida!), do Pedro... Caraca! Tô com saudades do Rio, do Brasil, nunca imaginei que isso fosse acontecer. Tô com saudade dos nossos problemas, de tentar fazer alguma coisa por eles. Na semana passada, para exercitar o condicional, a professora de espanhol perguntou se ficaríamos na Espanha. Não pensei duas vezes e mandei logo um retumbante NÃO. Todo mundo abriu uns olhos enormes, especialmente os brasileiros da turma (capítulo à parte nesta experiência, nunca imaginei que os brasileiros pudessem ser tão desinteressantes em terras estrangeiras). E com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada, disse: "echo de menos mí casa, mí familia, mí novio, mis amigos, mí ciudad, mí Brasil, pues ya se pasan 4 meses y todavía tengo 2, no imaginaba que eso pudiese ser tan fuerte". Tudo bem que a TPM falava por mim, mas agora que os hormônios se equilibraram, continuo sentindo saudade, principalmente porque ainda estou no clima de viagem, malas, encontros e despedidas, já que cheguei ontem, depois de encarar 7 horas desconfortáveis num trem de Salamanca para Lisboa, aguentando uma espanhola tagarela que era a cara e o jeito da minha tia Adriana, ou seja, inconveniente. Além de falar pelos cotovelos e rir como uma hiena, me falava coisas de sua vida pessoal que realmente não me interessavam nada, mas fazer o quê, né? Nem o livro nas minhas mãos servia de barreira. Ela só parou de falar quando conseguiu cair no sono, mas aí começou a roncar... Ai, ai, ai, ninguém merece... Mas tudo bem, voltei a Lisboa - última parada antes de a Caravela Cruzeiro do Sul retornar ao seu porto seguro -, fui recebida de braços abertos por Dona Rosa, que conseguiu organizar as coisas por aqui para eu ficar no meu quarto quentinho, e também já estou louca para comer pastéis de nata (tinha esquecido completamente deles, como sou volúvel, troquei-os facilmente pelo chocolate com churros). De fato, aqui me sinto muito bem, pois Lisboa é a cara do Rio, e na residência levo uma vida mais parecida com a minha vida real. Não que as coisas em Salamanca não fossem muito boas também, mas era diferente. Além da língua - que nem é tão diferente assim, pois conseguia conversar sobre tudo que se possa imaginar com todo mundo, especialmente com a Luisa (a Dona Rosa de lá), tanto é que saí de Salamanca também com um carinhoso abraço (ela fez questão de acordar às 4 da matina para se despedir de mim), e ela dizendo que eu posso contar sempre com uma amiga em terras salmantinas -, a minha vida lá era de filhinha de mamãe, ou seja, fazia todas as refeições em casa, com horário predeterminado, ela que servia a gente, aí eu tinha aula a manhã toda, até uma da tarde, depois do almoço, às duas, rolava uma sesta e, em seguida, para mim, muito trabalho nas bibliotecas, livrarias e copiadoras da universidade (trabalhei tanto este mês de novembro que acho que agora vou tirar uma semana de férias, só lendo Proust e coçando o saco). Foi muito bom, experiência nota 10, aproveitei o máximo que pude, conheci muita gente legal (outras nem tanto), nunca vou esquecer este um mês que morei em Salamanca, mas confesso que acabou na hora certa, já estava precisando da minha vida de volta, ainda que aos poucos, primeiro com essa parada de mais dois meses por aqui, onde quero aproveitar para escrever pelo menos um capítulo da minha tese, antes de partir para o abraço já na minha terrinha brasilis. Ah! Hoje também rolou o primeiro café feito por mim na jangada de pedra. É que agora a residência tem uma máquina maneiríssima (antes de eu viajar rolava só uma máquina de ferver água, ou seja, só rolava um capuccino instantâneo), então ontem comprei um café especial e hoje fiz um no capricho. Lá na Espanha tomava café todo dia, mas era a Luisa que fazia. Muito giro! Legal também que quando eu estava na copa, chegou o novo residente, um indiano (não me lembro mais o seu nome, tenho que perguntar de novo), e começamos a conversar (foi difícil soltar o inglês agora, depois de um mês falando espanhol, ontem senti o mesmo quando encontrei o Michael, o camarada chinês). Ele está fazendo um pós-doc em biologia, trabalha direto no laboratório estudando alguma coisa a ver com pólen de flores. Falei para ele também um pouco da minha tese, depois enchi o camarada de perguntas. Queria saber sobre as línguas faladas na Índia, sobre o incidente em Bombaim, sobre religião (ele é muçulmano ortodoxo, mais um monte de perguntas!), astrologia... O cara é biólogo, mas saca muito de história, então a conversa foi bastante esclarecedora.

Eis a Luisa, a fadinha espanhola que cuidou de mim nas terras frias e brumosas de Salamanca. Foto das pentelhas que compartilharam o teto comigo nem pensar... :-)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

61 - Domingo em Salamanca também é dia de museu

Salamanca, 24 de novembro de 2008.

Este foi o meu último fim de semana em Salamanca (volto para Lisboa no sábado que vem) e tentei fazer algumas coisas que ainda não tinha feito e repetir algumas outras que gostei. No sábado, aproveitando o belo dia de sol, apesar do frio, saí por umas bandas que ainda não tinha andado, fui até a Plaza de Toros. Nada demais, o mais interessante foi a pichação "Toreros asesinos". Aliás, é enorme a quantidade de referências taurinas. Terra de Juliana! É Calle Toro, Museu Taurino, Toro Romano, Plaza de Toros... Na frente da Plaza há umas estátuas de toureiros famosos. Saí dali andando, aproveitando para esquentar os ossos (a temperatura subiu bem no meio do dia, deve ter chegado a uns 15 graus!) e acabei encontrando um sebo - ainda não tinha visto nenhum. Entrei e fiquei lá umas duas horas olhando tudo. Muito bom, mas me controlei, porque já estou com uma quantidade enorme de livros comprados aqui (todos absolutamente necessários evidentemente), e acho que a minha missão nesse sentido já está cumprida. Sem falar que esta semana ainda tenho que tirar uma série de cópias na biblioteca... Bem, quando saí do sebo ainda tinha um tempinho até a hora do almoço, então fui perambular pela cidade, mais precisamente na Plaza Mayor, onde aproveitei para observar com calma a "arte na praça" que está rolando por lá, porque normalmente passo correndo para ir de um lado para o outro e acabo não apreciando a coisa. Muito interessante a exposição de enormes esculturas de ferro, que foram colocadas no meio desse espaço privilegiado da cidade. Depois do almoço acabei ficando à toa, fiz a sesta, depois terminei de ler Almanaques, do Eça de Queirós, e organizei meu material de pesquisa. No domingo acordei cedo e fui direto para o Tormes. Caminhei um pouco no Parque Fluvial, andei na Ponte Romana, depois subi pelas vielas da cidade até chegar à Catedral. Resolvi entrar, afinal, ela é tão linda por fora... Ledo engano, por dentro ela é sinistra... e fria, muito fria. Pior, estava começando a missa. Mais sinistro ainda. Que lugar tenebroso, que falação reacionária... Teve uma hora que o padre chegou a falar, citando as escrituras, que a direita que é boa, e a esquerda é o lugar dos pecadores... Pior, era dia de cristo-rei, seja lá o que isso signifique, então a missa era longa... Nem estava me incomodando muito com o péssimo coro e com o falatório sobre a nossa culpa em relação ao moço que morreu na cruz, mas não aguentei quando o cura, para dar conta do amor ao próximo, resolveu detonar "o inferno são os outros" do Sartre (não mencionando seu nome evidentemente, falou em "um pensador contemporâneo"). Depois dessa me retirei e fui direto ao Valor (café e chocolateria que tenho frequentado entre uma aula e outra) me afogar num chocolate com churros (uma das especialidades espanholas). Agora, sim, podia seguir o meu caminho mais tranquilamente, depois dessa experiência desagradável na catedral salmantina. Próxima parada: exposição de relógios antigos "La medida del tiempo". Ah! isso foi muito giro! Fiquei um tempão vendo as diversas variedades de modelos, estilos e engrenagens. Quando vi, o tempo já tinha passado e estava na hora de almoçar. Depois da sesta, saí novamente e fui ao museu de art nouveau da cidade. Pasmem! É isso mesmo! É a Casa Lis, um lugar belíssimo, construído no início do século XX e que abriga o Museo de Art Nouveau y Art Decó da boa e velha Salamanca, um contraste incrível. Não conseguia parar de pensar na mamãe, muita coisa ali é a cara dela, tinha até um palhaço parecido com um que ela já pintara (ou bordara? hehe). Não gostei muito da coleção de bonecas alemãs e francesas, mas, em compensação, as jóias, os artefatos de bronze e as criselefantinas (nome bizarro, nunca tinha ouvido falar, mas são belíssimas pequenas estátuas de marfim e bronze criadas por vários escultores europeus lá pelos anos 20, normalmente representando mulheres). E muito bom também era o som que rolava no ambiente, um jazzinho muito honesto para dar o clima. Falando em jazz, depois fui a um concerto de jazz escandinavo (!). O nome da banda é Tord Gustavsen Trio (piano, baixo e batera). Tirando alguns bons momentos, sinceramente não me entusiasmou. Que bom que eu tinha tomado duas cañas (cervejas) antes, senão ia ser difícil...



Olha o Touro Romano aí, gente! Com a torre da Catedral Velha no fundo.

Não parece a bandeira do Brasil? Ou eu já estou vendo coisas?

Um dos belos relógios da exposição

A ponte romana em destaque num dia de céu azul

Parede de pedra, porta de madeira, lampiões e... dois gatos na soleira...

Pichação na Plaza de Toros

Plaza de Toros
Arte na Rua

Não parece o Darth Vader?

Esta obra se chama Colosso...

E esta, As Meninas... Qualquer semelhança é mera coincidência.

Esta obra sou EU!!! Finalmente uma foto minha na Plaza Mayor de Salamanca!

Quase fui nesta manifestação, mas a preguiça não deixou...
Olha só que boa companhia: a minha sombra.
Euzinha na porta do edifício histórico da USAL. O que importa é a fachada e o céu azul, pode cortar os meus pés! É por esta porta que eu entro todo dia para chegar à biblioteca geral.
A Cova de Salamanca, lugar cheio de mistério da cidade...


Colombo na sua praça.

Esta é a fachada da Clerecía, onde se encontra a PUC de Salamanca. Tudo isso em frente à Casa das Conchas.

Esta é uma parte do claustro da Clerecía, que, curiosa e belamente, fica no alto.

Close numa parte da Catedral Nova (não é linda por fora?)
Vista lateral das duas catedrais (Nova e Velha)
Vista frontal (da Ponte Romana) das catedrais
Casa Lis (não parece que a torre da catedral faz parte dela?)

Entrada da Casa Lis (Museu de Arte Nouveau)

Até que tava quentinho...

Palacio de Anaya, onde funciona a Faculdade de Filologia (descobri recentemente que o tal do Anaya era ligado em astrologia).

sábado, 22 de novembro de 2008

60 - Além de brumas e peruas

Salamanca, 22 de novembro de 2008.

Além de aguentar brumas e peruas, esta semana que passou também fiz coisas interessantes: prestigiei o festival de cinema brasileiro e assisti a uma palestra sobre acaso e tempo. A palestra foi muito legal, o cara - Miguel Casado - parece que é um bambambam da crítica literária, além de ser também um tradutor renomado por essas bandas. A abordagem dele foi entre a poesia e a ciência. Falou de Mallarmé, Prigogine, Bergson, Hackin e Feyerabend, entre muitos outros. Gostei muito, especialmente da discussão que rolou depois, já que tinha gente de literatura, filosofia e ciência participando. Ele encadeou idéias como as de tempo preexistente, e conseqüente desaparecimento das noções de regularidade, causalidade e determinismo, com as de duração, desaparecimento do presente e dos conceitos de obra pura e autor. Falou em "derramamento incessante da linguagem", "acaso em conserva" (Mallarmé) e "ciência como escuta poética da natureza" (Progogine). Saí de lá pensando em Heráclito... Filosofia à parte, a maratona cinematográfica rolou de terça a quinta, e os filmes foram: Os desafinados, Maré e Deserto feliz. O mais curioso é que, só de ver as imagens do Rio e ouvir as músicas brasileiras logo no início dos dois primeiros filmes, já desandei a chorar copiosamente. O que não faz uma TPM fora de casa! Fora isso, diria que o que mais gostei foi o Maré, da Lucia Murat. Os desafinados também é um filme bom, super produção, rola muita música, inclusive um jazz muito legal, além da bossa nova evidentemente, mas é filmão comercial, não aporta grandes coisas. Já o Maré, para além de suas pretensões políticas, é também poesia na forma de imagem e movimento (rola muita dança e canto, às vezes parece até um musical), apesar da violência e dramaticidade da situação abordada (um Romeu e Julieta na Favela da Maré). Muito bom! Já o Deserto feliz se enquadra no rótulo "realidade nua e crua do nordeste brasileiro", com o agravante de mostrar personagens que me parecem vazios, que vão sendo levados por suas vidas de merda, mergulhados no tédio (o olhar de "sem sentido" da protagonista é igual ao da protagonista de um outro filme desse tipo que vi há tempos, O céu de Sueli; aliás, a atriz que fez a Sueli também participa do Deserto feliz), fazendo o que se apresenta e não conseguindo transformar a vida à sua volta, ou seja, cumprindo a previsão. Como ando, junto com os hermanos, dispensando a previsão nos últimos tempos, isso realmente me incomoda um pouco.

O velho e o moço
Los Hermanos

Deixo tudo assim. Não me importo em ver a idade em mim, ouço o que convém. Eu gosto é do gasto. Sei do incômodo e ela tem razão quando vem dizer que eu preciso sim de todo o cuidado. E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria? Ah, tanto faz. Que o que não foi não é. Eu sei que ainda vou voltar... Mas eu quem será? Deixo tudo assim, não me acanho em ver vaidade em mim. Eu digo o que condiz. Eu gosto é do estrago. Sei do escândalo e eles têm razão quando vêm dizer que eu não sei medir nem tempo e nem medo. E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? Ah, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão! Ah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser aceito a condição. Vou levando assim que o acaso é amigo do meu coração quando fala comigo, quando eu sei ouvir...

Para ver e ouvir essa música do Los hermanos: