domingo, 30 de novembro de 2008

62 - De volta a Lisboa

Lisboa, 30 de novembro de 2008.

De volta à minha língua! Esta foi a primeira coisa que disse ao pisar novamente em terras lisboetas. Ainda não à minha terra, mas pelo menos à minha língua. Novamente Chomsky com o seu "a língua é uma bandeira no mapa" fez todo o sentido. Nunca pensei que fosse sentir tanta saudade de dizer "saudade", porque "echar de menos" é bizarro, fala sério. E nesta última semana só conseguia abrir a boca para querer dizer "saudade", mas tinha que rolar um "echar de menos" mesmo, porque era saudade de tudo: de casa, dos amigos, da família, da comida (nunca comi tanta carne em toda a minha vida!), do Pedro... Caraca! Tô com saudades do Rio, do Brasil, nunca imaginei que isso fosse acontecer. Tô com saudade dos nossos problemas, de tentar fazer alguma coisa por eles. Na semana passada, para exercitar o condicional, a professora de espanhol perguntou se ficaríamos na Espanha. Não pensei duas vezes e mandei logo um retumbante NÃO. Todo mundo abriu uns olhos enormes, especialmente os brasileiros da turma (capítulo à parte nesta experiência, nunca imaginei que os brasileiros pudessem ser tão desinteressantes em terras estrangeiras). E com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada, disse: "echo de menos mí casa, mí familia, mí novio, mis amigos, mí ciudad, mí Brasil, pues ya se pasan 4 meses y todavía tengo 2, no imaginaba que eso pudiese ser tan fuerte". Tudo bem que a TPM falava por mim, mas agora que os hormônios se equilibraram, continuo sentindo saudade, principalmente porque ainda estou no clima de viagem, malas, encontros e despedidas, já que cheguei ontem, depois de encarar 7 horas desconfortáveis num trem de Salamanca para Lisboa, aguentando uma espanhola tagarela que era a cara e o jeito da minha tia Adriana, ou seja, inconveniente. Além de falar pelos cotovelos e rir como uma hiena, me falava coisas de sua vida pessoal que realmente não me interessavam nada, mas fazer o quê, né? Nem o livro nas minhas mãos servia de barreira. Ela só parou de falar quando conseguiu cair no sono, mas aí começou a roncar... Ai, ai, ai, ninguém merece... Mas tudo bem, voltei a Lisboa - última parada antes de a Caravela Cruzeiro do Sul retornar ao seu porto seguro -, fui recebida de braços abertos por Dona Rosa, que conseguiu organizar as coisas por aqui para eu ficar no meu quarto quentinho, e também já estou louca para comer pastéis de nata (tinha esquecido completamente deles, como sou volúvel, troquei-os facilmente pelo chocolate com churros). De fato, aqui me sinto muito bem, pois Lisboa é a cara do Rio, e na residência levo uma vida mais parecida com a minha vida real. Não que as coisas em Salamanca não fossem muito boas também, mas era diferente. Além da língua - que nem é tão diferente assim, pois conseguia conversar sobre tudo que se possa imaginar com todo mundo, especialmente com a Luisa (a Dona Rosa de lá), tanto é que saí de Salamanca também com um carinhoso abraço (ela fez questão de acordar às 4 da matina para se despedir de mim), e ela dizendo que eu posso contar sempre com uma amiga em terras salmantinas -, a minha vida lá era de filhinha de mamãe, ou seja, fazia todas as refeições em casa, com horário predeterminado, ela que servia a gente, aí eu tinha aula a manhã toda, até uma da tarde, depois do almoço, às duas, rolava uma sesta e, em seguida, para mim, muito trabalho nas bibliotecas, livrarias e copiadoras da universidade (trabalhei tanto este mês de novembro que acho que agora vou tirar uma semana de férias, só lendo Proust e coçando o saco). Foi muito bom, experiência nota 10, aproveitei o máximo que pude, conheci muita gente legal (outras nem tanto), nunca vou esquecer este um mês que morei em Salamanca, mas confesso que acabou na hora certa, já estava precisando da minha vida de volta, ainda que aos poucos, primeiro com essa parada de mais dois meses por aqui, onde quero aproveitar para escrever pelo menos um capítulo da minha tese, antes de partir para o abraço já na minha terrinha brasilis. Ah! Hoje também rolou o primeiro café feito por mim na jangada de pedra. É que agora a residência tem uma máquina maneiríssima (antes de eu viajar rolava só uma máquina de ferver água, ou seja, só rolava um capuccino instantâneo), então ontem comprei um café especial e hoje fiz um no capricho. Lá na Espanha tomava café todo dia, mas era a Luisa que fazia. Muito giro! Legal também que quando eu estava na copa, chegou o novo residente, um indiano (não me lembro mais o seu nome, tenho que perguntar de novo), e começamos a conversar (foi difícil soltar o inglês agora, depois de um mês falando espanhol, ontem senti o mesmo quando encontrei o Michael, o camarada chinês). Ele está fazendo um pós-doc em biologia, trabalha direto no laboratório estudando alguma coisa a ver com pólen de flores. Falei para ele também um pouco da minha tese, depois enchi o camarada de perguntas. Queria saber sobre as línguas faladas na Índia, sobre o incidente em Bombaim, sobre religião (ele é muçulmano ortodoxo, mais um monte de perguntas!), astrologia... O cara é biólogo, mas saca muito de história, então a conversa foi bastante esclarecedora.

Eis a Luisa, a fadinha espanhola que cuidou de mim nas terras frias e brumosas de Salamanca. Foto das pentelhas que compartilharam o teto comigo nem pensar... :-)

2 comentários:

Daniela do Carmo disse...

Cristina, você nem sabe o quanto eu te entendo.
Que bom que você já está de volta à casa. Esprema esses meses que faltam ao máximo, que o gosto ruim da boca vai passar.
Beijo.

Anônimo disse...

Adorei o texto!!
Quando estava em Londres tb fiquei louca de vontade de voltar para Friburgo, a casa da gente é o melhor lugar do mundo né? Mas tô doida pra sair daqui e girar por aí, até sentir saudade de novo!!
Beijo grande da amiga saudosa de vc!! :)