Salamanca, 22 de novembro de 2008.
Além de aguentar brumas e peruas, esta semana que passou também fiz coisas interessantes: prestigiei o festival de cinema brasileiro e assisti a uma palestra sobre acaso e tempo. A palestra foi muito legal, o cara - Miguel Casado - parece que é um bambambam da crítica literária, além de ser também um tradutor renomado por essas bandas. A abordagem dele foi entre a poesia e a ciência. Falou de Mallarmé, Prigogine, Bergson, Hackin e Feyerabend, entre muitos outros. Gostei muito, especialmente da discussão que rolou depois, já que tinha gente de literatura, filosofia e ciência participando. Ele encadeou idéias como as de tempo preexistente, e conseqüente desaparecimento das noções de regularidade, causalidade e determinismo, com as de duração, desaparecimento do presente e dos conceitos de obra pura e autor. Falou em "derramamento incessante da linguagem", "acaso em conserva" (Mallarmé) e "ciência como escuta poética da natureza" (Progogine). Saí de lá pensando em Heráclito... Filosofia à parte, a maratona cinematográfica rolou de terça a quinta, e os filmes foram: Os desafinados, Maré e Deserto feliz. O mais curioso é que, só de ver as imagens do Rio e ouvir as músicas brasileiras logo no início dos dois primeiros filmes, já desandei a chorar copiosamente. O que não faz uma TPM fora de casa! Fora isso, diria que o que mais gostei foi o Maré, da Lucia Murat. Os desafinados também é um filme bom, super produção, rola muita música, inclusive um jazz muito legal, além da bossa nova evidentemente, mas é filmão comercial, não aporta grandes coisas. Já o Maré, para além de suas pretensões políticas, é também poesia na forma de imagem e movimento (rola muita dança e canto, às vezes parece até um musical), apesar da violência e dramaticidade da situação abordada (um Romeu e Julieta na Favela da Maré). Muito bom! Já o Deserto feliz se enquadra no rótulo "realidade nua e crua do nordeste brasileiro", com o agravante de mostrar personagens que me parecem vazios, que vão sendo levados por suas vidas de merda, mergulhados no tédio (o olhar de "sem sentido" da protagonista é igual ao da protagonista de um outro filme desse tipo que vi há tempos, O céu de Sueli; aliás, a atriz que fez a Sueli também participa do Deserto feliz), fazendo o que se apresenta e não conseguindo transformar a vida à sua volta, ou seja, cumprindo a previsão. Como ando, junto com os hermanos, dispensando a previsão nos últimos tempos, isso realmente me incomoda um pouco.
O velho e o moço
Los Hermanos
Deixo tudo assim. Não me importo em ver a idade em mim, ouço o que convém. Eu gosto é do gasto. Sei do incômodo e ela tem razão quando vem dizer que eu preciso sim de todo o cuidado. E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria? Ah, tanto faz. Que o que não foi não é. Eu sei que ainda vou voltar... Mas eu quem será? Deixo tudo assim, não me acanho em ver vaidade em mim. Eu digo o que condiz. Eu gosto é do estrago. Sei do escândalo e eles têm razão quando vêm dizer que eu não sei medir nem tempo e nem medo. E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? Ah, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão! Ah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser aceito a condição. Vou levando assim que o acaso é amigo do meu coração quando fala comigo, quando eu sei ouvir...
Para ver e ouvir essa música do Los hermanos:
Além de aguentar brumas e peruas, esta semana que passou também fiz coisas interessantes: prestigiei o festival de cinema brasileiro e assisti a uma palestra sobre acaso e tempo. A palestra foi muito legal, o cara - Miguel Casado - parece que é um bambambam da crítica literária, além de ser também um tradutor renomado por essas bandas. A abordagem dele foi entre a poesia e a ciência. Falou de Mallarmé, Prigogine, Bergson, Hackin e Feyerabend, entre muitos outros. Gostei muito, especialmente da discussão que rolou depois, já que tinha gente de literatura, filosofia e ciência participando. Ele encadeou idéias como as de tempo preexistente, e conseqüente desaparecimento das noções de regularidade, causalidade e determinismo, com as de duração, desaparecimento do presente e dos conceitos de obra pura e autor. Falou em "derramamento incessante da linguagem", "acaso em conserva" (Mallarmé) e "ciência como escuta poética da natureza" (Progogine). Saí de lá pensando em Heráclito... Filosofia à parte, a maratona cinematográfica rolou de terça a quinta, e os filmes foram: Os desafinados, Maré e Deserto feliz. O mais curioso é que, só de ver as imagens do Rio e ouvir as músicas brasileiras logo no início dos dois primeiros filmes, já desandei a chorar copiosamente. O que não faz uma TPM fora de casa! Fora isso, diria que o que mais gostei foi o Maré, da Lucia Murat. Os desafinados também é um filme bom, super produção, rola muita música, inclusive um jazz muito legal, além da bossa nova evidentemente, mas é filmão comercial, não aporta grandes coisas. Já o Maré, para além de suas pretensões políticas, é também poesia na forma de imagem e movimento (rola muita dança e canto, às vezes parece até um musical), apesar da violência e dramaticidade da situação abordada (um Romeu e Julieta na Favela da Maré). Muito bom! Já o Deserto feliz se enquadra no rótulo "realidade nua e crua do nordeste brasileiro", com o agravante de mostrar personagens que me parecem vazios, que vão sendo levados por suas vidas de merda, mergulhados no tédio (o olhar de "sem sentido" da protagonista é igual ao da protagonista de um outro filme desse tipo que vi há tempos, O céu de Sueli; aliás, a atriz que fez a Sueli também participa do Deserto feliz), fazendo o que se apresenta e não conseguindo transformar a vida à sua volta, ou seja, cumprindo a previsão. Como ando, junto com os hermanos, dispensando a previsão nos últimos tempos, isso realmente me incomoda um pouco.
O velho e o moço
Los Hermanos
Deixo tudo assim. Não me importo em ver a idade em mim, ouço o que convém. Eu gosto é do gasto. Sei do incômodo e ela tem razão quando vem dizer que eu preciso sim de todo o cuidado. E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria? Ah, tanto faz. Que o que não foi não é. Eu sei que ainda vou voltar... Mas eu quem será? Deixo tudo assim, não me acanho em ver vaidade em mim. Eu digo o que condiz. Eu gosto é do estrago. Sei do escândalo e eles têm razão quando vêm dizer que eu não sei medir nem tempo e nem medo. E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? Ah, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão! Ah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser aceito a condição. Vou levando assim que o acaso é amigo do meu coração quando fala comigo, quando eu sei ouvir...
Para ver e ouvir essa música do Los hermanos:
2 comentários:
Mete bronca aí. O acaso é amigo.
Termina logo aí.
Tô te esperando. Beijo.
Lembro que quando lí da primeira vez ouvi a música dos los hermanos, mas não escrevi nenhum comentário.É sobre os filmes que você viu. Deles só assistí "Os desafinados" e compreendo você ter se emocionado com a visão do Rio de Janeiro e as músicas muito lindas.
mami
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