domingo, 25 de setembro de 2022

Casa Fernando Pessoa e o jogo do desassossego


Na última morada de Fernando Pessoa (Rua Coelho da Rocha 16, primeiro direito, Campo de Ourique), onde ele viveu os 15 últimos anos da sua vida - de 1920 a 1935 -, reside hoje uma casa-museu, a Casa Fernando Pessoa. Há lá uma exposição permanente sobre a vida e a obra do poeta, além de uma biblioteca especializada no moço e em poesia mundial, bem como espaço para eventos, uma lojinha com livros e lembranças, e um restaurante. Vale lembrar que a biblioteca particular do Pessoa - considerada a pérola do seu espólio - faz parte da exposição permanente e foi totalmente digitalizada para a alegria dos pesquisadores de outras geografias. Clique aqui para ver o catálogo.



Já estive lá em outras ocasiões: 

Em 2008 se comemoravam os 120 anos de nascimento do poeta



Em 2017 fui lá para um evento sobre Machado de Assis. A entrada ainda era pela porta onde se encontra o mapa astral do Pessoa, agora é pela lateral.


Este ano, desde o aniversário dele em 13 de junho, está rolando uma comemoração dos 40 anos de publicação da primeira edição do Livro do Desassossego, já tão mencionado aqui em outras postagens:

Primeira edição do Livro do Desassossego em dois volumes, publicada quase 50 anos depois da morte do poeta pela editora Ática

Para celebrar, eles fizeram uma exposição temporária gira: Jogo do Desassossego, que, além do jogo-instalação, conta também com um material multimídia sobre o livro e, claro, um expositor com a primeira edição.


São 234 peças de acrílico com trechos do livro impressos para a gente ler e combinar como quiser, refletindo bem o próprio livro, que a cada edição muda, tendo em vista que seu autor, Fernando Pessoa-Bernardo Soares, deixou apenas fragmentos soltos.


É claro que brinquei um bocado nesse "labirinto do que realmente sou", depois de fazer o tour completo pela imperdível exposição permanente, que foi deveras emocionante por conta dessa leitura que estou fazendo da sua biografia. 

Depois disso, só um tintim regado a um tinto do Douro, que costumo deixar de lado por conta dos alentejanos, mas que não fez feio não...









sábado, 24 de setembro de 2022

Mais jazz na Penha de França

 Hoje o evento de jazz no meu quintal teve continuidade, e evidentemente fui lá conferir:

Numa praça a três quadras daqui rolou primeiro um trio simpático de jovens músicos, baixo-teclado-batera, Luis Lélis, Gonçalo Maia e Miguel Fernandez, todos estavam ontem no Lusitano da Penha de França:

Depois veio um grupo mais complexo, tocando e cantando as músicas do novo disco, "Em terra alheia sei onde ficar", do guitarrista João Espadinha, que também estava lá ontem no Lusitano. Amei este som, segue aqui um pequeno clipe na praça:

O último lance do evento foi num outro cafofo lisboeta bem giro, Penha Sco, aqui do lado. O que vi não foi exatamente jazz, mas foi uma performance musical bastante exótica, divertida e inusitada do grupo Trincket Knick-Knack Bauble. Acho que dá para sentir no pequeno vídeo que fiz:

Muito bom curtir um programinha de jazz no quintal de casa!



sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Jazz na Penha de França


Hoje, Angélica e eu almoçamos no Psi, restaurante vegetariano que eu queria conhecer desde 2008, e que entrou para o rol dos melhores de Lisboa, ganhando dos Tibetanos por conta do ambiente. Fica no meio de uma praça aprazível, há mesas na parte de dentro, mas o melhor é o clima de quintal charmoso das mesas do lado de fora, ou esplanada, como dizem por aqui:


À noite, depois de uma boquinha no Tati, um boteco simpático aqui na rua ao lado, fomos prestigiar o jazz no bairro. Foi só subir quatro quadras e lá estávamos no glorioso Clube Lusitano da Penha de França:

Foi lá que rolou o primeiro dia do evento Penha Jazz:


Foi muito giro, a malta estava toda lá, e o clima é totalmente de clube social mesmo. O inusitado é que o espaço é quase todo no subsolo, coisa que aqui é bem comum, constituindo literalmente um cafofo lisboeta, onde as pessoas se encontram, convivem e cultivam as artes. Aliás, o clube foi fundado em 1953, tem uma história interessante e reflete uma atividade viva de bairro, que aqui se chama freguesia e que elege seus representantes, o que aproxima a política do cotidiano das pessoas. Depois do concerto de baixo-batera-teclado, começou a rolar uma jam session, e o improviso correu solto entre os músicos que estavam na audiência. 




quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Aula de história da tradução científica

Ontem dei uma aula remota na disciplina de História da Tradução que a minha ex-orientadora, a gloriosa professora Marcia Martins, ministra no curso de mestrado e doutorado em Estudos da Tradução da PUC-Rio. Foi giro retornar ao material da minha tese estando aqui em Lisboa. Veja a capa dos slides e, se quiser ver o resto, clique aqui ou na imagem:



terça-feira, 20 de setembro de 2022

Desassossego

 

Desassossegada, hoje vi como é possível "filmar o infilmável", como o próprio diretor definiu o desafio. Seguindo o Ciclo João Botelho da cinemateca, hoje foi o dia do Filme do desassossego (2010), baseado no Livro do desassossego de Fernando Pessoa, sobre o qual já falei um pouquinho em postagem anterior.


Assim como nos outros filmes do diretor, a palavra é o foco. Diz ele que:

"o futuro do cinema é cada vez mais a palavra. O cinema, para mim, tem que ver com a verdade e a imagem é ilusória. A palavra está cada vez mais perto da verdade, é uma gravação que é transmitida, não é a ilusão de nada. O cinema tem de respeitar a palavra."

O filme está inteirinho neste link do Youtube, mas segue abaixo um dos trailers:


O filme é uma experiência ímpar. Basicamente são trechos do livro na forma de monólogos e diálogos entre pessoas nos dias de hoje nos mais variados contextos, e começa justamente com o encontro entre Fernando Pessoa e Bernardo Soares num boteco lisboeta do século XXI, que acaba com o Soares passando o manuscrito do livro para o Pessoa. A cena final retorna ao boteco mas só com o Pessoa e o manuscrito do livro, que ele diz que não é dele. Maravilhoso! Nem preciso dizer que chorei várias vezes pelo Pessoa-Soares, pelo desassossego, por Lisboa, e saí do cinema chorando pelas ruas de Lisboa das quais já consigo prever a saudade que vou sentir... 

Outro elemento que percebi nos outros filmes do Botelho é a sua visita a outras formas de arte, especialmente a música, que aparece aqui em várias facetas, incluindo Caetano Veloso, ópera, fado etc. Segue abaixo um trecho que acaba com um coro de crianças cantando uma das cantigas de Santa Maria de D. Afonso X:


Segue um pequeno documentário sobre o livro na RTP:




segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Lisboa-Pessoa e outros espaços

Não é novidade para ninguém que Lisboa e Pessoa, além de rimarem, se confundem. É um daqueles casos de mescla entre escritor e cidade. É nesse clima que foi filmado o curta do João Botelho, Oh, Lisboa meu lar!, que passou na cinemateca semana passada, junto com dois outros curtas que também fazem essa ligação do cinema com outras artes, Anquanto la lhéngua fur cantada e La valse.


Oh, Lisboa meu lar! é um filme de 23 minutos no qual viajamos no elétrico 28 (Graça-Prazeres) por espaços da cidade caros ao poeta. Vemos e ouvimos as pessoas nos dias de hoje (o filme é de 2010) e, ao mesmo tempo, como se fosse um quebra-cabeças, sobrepõem-se imagens de Pessoa e recitações de trechos da sua obra que cabe a nós dar sentido. Parece que o diretor, João Botelho, quis destacar o caráter poético dessa Lisboa pessoana. Como diz Caeiro: 

"O essencial é saber ver
Saber ver sem estar a pensar
Saber ver quando se vê
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa"

Os dois outros curtas da sessão nada têm a ver com Pessoa ou Lisboa, mas me surpreenderam deveras. 


Anquanto la lhéngua fur cantada, de 2012, é um giro por Miranda do Douro com um acordeonista, Gabriel Gomes, e uma cantora, Catarina Wallenstein, que canta em mirandês, a segunda língua oficial de Portugal (pasmem!). É uma viagem no tempo e no espaço, pois parece que estamos nas imediações de uma aldeia medieval. Eles andam pelo campo, ajudados por um burrinho, e vão tocando, cantando e encontrando pessoas que também cantam naquela língua aparentemente muito próxima do galego-português, eternizada nas Cantigas de Santa Maria de D. Afonso X, que tive o prazer de ouvir algumas vezes incorporada pelo Grupo de Música Antiga da UFF. Belíssimo filme! Ele está inteirinho no youtube, mas segue aqui um clipe:


E agora as palavras iniciais do filme, ditas por Amadeu Ferreira (1950-2015), escritor e pesquisador do mirandês: 

"Uma língua nasceu-me: comi-a em merendas e bebi-a em fontes e riachos. A outra veio de uma guerra de muitas batalhas. Agora tenho duas línguas comigo e não passo sem as duas."

O último filme, La valse, de 2014, tem um quê de ficção, porque começa recontando a história dessa valsa de Ravel, composta entre 1919 e 1920, que pretendia ser um "poema coreográfico". A valsa foi repudiada como balé, e o cara que recusou, Sergei Diaghilev, desafiou Ravel para um duelo, que parece não ter rolado. Na sequência, vemos uma linda execução de La valse em quatro atos que evocam os quatro elementos, pela Companhia Nacional de Bailado. Espetáculo maravilhoso! Segue o trailer: