Não é novidade para ninguém que Lisboa e Pessoa, além de rimarem, se confundem. É um daqueles casos de mescla entre escritor e cidade. É nesse clima que foi filmado o curta do João Botelho, Oh, Lisboa meu lar!, que passou na cinemateca semana passada, junto com dois outros curtas que também fazem essa ligação do cinema com outras artes, Anquanto la lhéngua fur cantada e La valse.
Oh, Lisboa meu lar! é um filme de 23 minutos no qual viajamos no elétrico 28 (Graça-Prazeres) por espaços da cidade caros ao poeta. Vemos e ouvimos as pessoas nos dias de hoje (o filme é de 2010) e, ao mesmo tempo, como se fosse um quebra-cabeças, sobrepõem-se imagens de Pessoa e recitações de trechos da sua obra que cabe a nós dar sentido. Parece que o diretor, João Botelho, quis destacar o caráter poético dessa Lisboa pessoana. Como diz Caeiro:
Saber ver sem estar a pensar
Saber ver quando se vê
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa"
Os dois outros curtas da sessão nada têm a ver com Pessoa ou Lisboa, mas me surpreenderam deveras.
Anquanto la lhéngua fur cantada, de 2012, é um giro por Miranda do Douro com um acordeonista, Gabriel Gomes, e uma cantora, Catarina Wallenstein, que canta em mirandês, a segunda língua oficial de Portugal (pasmem!). É uma viagem no tempo e no espaço, pois parece que estamos nas imediações de uma aldeia medieval. Eles andam pelo campo, ajudados por um burrinho, e vão tocando, cantando e encontrando pessoas que também cantam naquela língua aparentemente muito próxima do galego-português, eternizada nas Cantigas de Santa Maria de D. Afonso X, que tive o prazer de ouvir algumas vezes incorporada pelo Grupo de Música Antiga da UFF. Belíssimo filme! Ele está inteirinho no youtube, mas segue aqui um clipe:
E agora as palavras iniciais do filme, ditas por Amadeu Ferreira (1950-2015), escritor e pesquisador do mirandês:
"Uma língua nasceu-me: comi-a em merendas e bebi-a em fontes e riachos. A outra veio de uma guerra de muitas batalhas. Agora tenho duas línguas comigo e não passo sem as duas."
O último filme, La valse, de 2014, tem um quê de ficção, porque começa recontando a história dessa valsa de Ravel, composta entre 1919 e 1920, que pretendia ser um "poema coreográfico". A valsa foi repudiada como balé, e o cara que recusou, Sergei Diaghilev, desafiou Ravel para um duelo, que parece não ter rolado. Na sequência, vemos uma linda execução de La valse em quatro atos que evocam os quatro elementos, pela Companhia Nacional de Bailado. Espetáculo maravilhoso! Segue o trailer:


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