Ontem foi muito giro, porque, depois de um dia cheio de despedidas (desde o livreiro do alfarrábio perto da BN até o Ricardo, passando pelo pessoal do MegaVega) e caminhadas por uma Lisboa com cara de São Paulo (garoando o dia inteiro), que me trouxeram um estado anímico um tanto melancólico, fechei a noite no chamado fado vadio (fado de improviso, que rola nas ruas ou em lugares informais) da Tasca do Chico, point lisboeta que já queria conhecer desde que cheguei por aqui em agosto. Ao contrário das casas de fado para turista ver, a Tasca é tipo um pé sujo onde a gente pode assistir ao fado da porta (que foi o nosso caso ontem, porque o lugar estava abarrotado). Até tomamos uma cerveja ali mesmo, mas não há consumação mínima, dá para chegar, ver o fado e cair fora, se for o caso. Pois bem, saí da Paz com a nova residente brasileira, a Flaviane, que chegou por aqui na semana passada. Mais uma filha brasileira da Dona Rosa! Ela já esteve aqui no doutorado, e agora está começando um pós-doc na Unicamp, para o qual tem um trabalho de um mês aqui na terrinha. Sua área é linguística, mais precisamente fonética e fonologia, as diferenças entre o português brasileiro e o português europeu. Muito gente boa a nova integrante da tripulação tupiniquim da Residência Paz. Pois bem, seguimos para o Museu da Ciência, onde eu tinha combinado com a nau lusitana, Teresa e Marisa, que já vinham acompanhadas de mais um tripulante brasileiro, o Luís Felipe, amigo da Marisa. Assim como ela, ele é historiador e está aqui fazendo uma pesquisa relacionada às profecias em Vieira. Muito legal. Depois desse pit stop, a nau luso-brasileira saiu andando pela Rua da Escola Politécnica, passou pelo Príncipe Real e atingiu o Bairro Alto na Rua da Rosa, onde começou a descer em ziguezague, batendo papo pelas vielas e pequenas ruas simpáticas da região. Quando chegamos na Tasca do Chico, percebemos que ali não rolava jantar, só petiscos, e caros, então fomos a um restaurante ali do lado e desfrutamos de uma boa refeição com ótima conversa. Saímos dali e voltamos à Tasca, onde o fado já estava comendo solto, com gente saindo pelo ladrão. Ficamos ali na porta e tivemos a oportunidade de, junto com os locais, desfrutar do fado vadio de Lisboa, considerado mais popular que o de Coimbra (fado acadêmico, erudito, dos doutores conimbricenses), e que, em alguns momentos, me fez lembrar o nosso choro (talvez seja viagem minha). O lugar é pequeno, a galera participa animadamente e o clima é muito informal. Gostei. Saímos dali subindo a Diário de Notícias e, quando passamos num lugar simpático, onde estava rolando um jazz, Teresa propos: "Vamos entrar?" Beleza! Fechamos a noite num barzinho que só rola jazz (mas não ao vivo), batendo mais um papo animadíssimo. Valeu a noitada luso-brasileira no Bairro Alto!
A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
87 - Noitada luso-brasileira no Bairro Alto
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
85 - Metade da minha alma é feita de maresia
O título desta postagem foi tomado de empréstimo da Sophia Andres, cujos versos se encontram por toda parte no Oceanário de Lisboa, onde fui hoje com a Katia. O lugar é simplesmente incrível. Valeu cada cêntimo do caríssimo bilhete (quase 10 euros para estudante, que tem um desconto de menos de 2). Parece que é um dos maiores do mundo, com uma quantidade enorme de espécies de todos os oceanos. O tanque central é gigantesco, e foi feito de uma tal maneira que, ao me aproximar bem, eu tinha a impressão de estar no fundo do mar. Uma experiência muito gira, pois os tubarões, arraias e outros bichos marinhos passavam praticamente no meu nariz. Adorei! Havia lá também pinguins, polvos, caranguejos gigantes, medusas, corais, uma exposição sobre monstros marinhos e, o que eu mais gostei, as lontras marinhas. Segundo a dona Rosa, elas foram apelidadas de Amália e Eusébio, e são umas fofas, pois estavam na maior preguiça se mostrando para quem quisesse vê-las - e claro que eu fiquei vendo! - tomando banho, dando cambalhota, coçando as patas e até esfregando a cabeça como se estivessem lavando o cabelo. Fiquei extasiada com aqueles bichos peludos e simpáticos. Quem quiser saber mais do oceanário, dá uma sacada em http://www.oceanario.pt/.
84 - Ano novo chinês imperdoável
Ontem começou o ano chinês, que é organizado pelo calendário lunar, e não solar como o nosso; então rolou uma festividade no Instituto Confúcio, onde trabalham os tripulantes da nau chinesa aqui da Residência. Fui lá prestigiar, assisti à palestra do Michael, falei com a Helena (a Connie não foi porque estava gripada), conheci o reitor da universidade (ele também falou algumas palavras, e eu fiquei bem impressionada, o cara parece arrojado), mas o lugar foi tomado por uma multidão tão ávida pela boca livre que nem consegui provar os quitutes típicos. Saí à francesa e fui para a Cinemateca, onde está rolando um festival Clint Eastwood, como já disse outro dia. Só que ontem foi dia de Unforgiven, aqui traduzido como Imperdoável, mas confesso que é mais interessante a nossa tradução no plural - Os imperdoáveis -, afinal, quem não é imperdoável? As fotos não ficaram muito boas, mas registram o momento:
domingo, 25 de janeiro de 2009
83 - Temporalidade, relógio e botões
Ontem fui ver o aclamadíssimo Benjamin Button, filme do David Fincher, baseado num conto do Fitzgerald e com os impecáveis Brad Pitt e Cate Blanchett. Filmaço! Dá para rir, chorar e pensar na existência. Dá para simplesmente contemplar a beleza de uma fantástica história de amor contada em imagens. Uma história de amor que, como qualquer história de amor, está sujeita à realidade da sua pluralidade de facetas e impermanência - da nossa impermanência -, quer o relógio ande de frente para trás ou de trás para frente. A gentileza e a sutileza dos detalhes desse encontro em cada fase são comoventes, como o momento em que eles se conhecem (mais ou menos a mesma idade, mas ele com aparência de velho e ela de criança), o momento em que eles de fato se encontram, no auge da vida de ambos, e depois, seguindo o fluxo desse encontro tão particular (como qualquer outro), quando, já na velhice, ela o ajuda a dar conta da sua senilidade na forma de criança. Claro que há uma série de outras coisas interessantes, mas não vou falar mais para não cortar o barato de quem ainda não viu. Divirtam-se!
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
82 - Dia de chuva em Lisboa...
Bom para se enfurnar no Mosteiro dos Jerónimos e no Museu de Arqueologia... E foi isso que eu fiz! Fui de metro até a Figueira e lá peguei o 15. Desembarquei nos Jerónimos, onde tive o prazer de, além de desfrutar da beleza manuelina do monumento, assistir, no claustro do mosteiro, a uma apresentação de teatro do Auto da Barca do Inferno. Muito giro! O lugar me lembrou um pouco Salamanca, especialmente a nave, que se parece com a sinistra catedral salmantina, e o claustro, que me fez voltar no tempo/espaço, até novembro, naquele belíssimo Edifício da Universidade. Acho que a chuva e o cinza que cobriram Belém hoje colaboraram para o clima brumoso que me conduziu a essa viagem... Bem, saí dali e fui ao vizinho Museu de Arqueologia, onde vi várias pequenas exposições: Religiões da Lusitânia, Antiguidades Egípcias, Tesouros da arqueologia portuguesa, Impressões do Oriente de Eça de Queirós a Leite de Vasconcelos e Sit tibi terra levis. Neste último, que traduzindo dá mais ou menos "Que a terra te seja leve" (fórmula evidentemente pagã, pois pressupõe a existência subterrânea; porque a cristã é: "descanse em paz", pois pressupõe a ressurreição, a vida eterna etc.), descobri que Fraga é o nome de uma necrópole (sinistro!) lá no norte. Sabia disso, Pedro? Pois é... As exposições eram bem simpáticas, gostei especialmente das Religiões da Lusitânia (muito interessante a sobreposição de camadas religiosas desde antes de os romanos chegarem por aqui no século I a.C.) e das Impressões do Oriente, com fotos sacadas pelo próprio Leite de Vasconcelos (fundador do Museu) no Cairo, em Jerusalém etc., quando ele esteve lá em 1909. Valeu a tarde em Belém, devidamente arrematada com o melhor pastel de nata do mundo.
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