quarta-feira, 19 de novembro de 2008

58 - Impressões de Madri

Salamanca, 19 de novembro de 2008.
Só posso mesmo escrever algumas impressões, porque foi muito pouco tempo: cheguei na sexta à tarde e me mandei no domingo à noite. Gostei da cidade: é bonita, parece organizada, bem servida de transporte e com uma vida cultural repleta. Além disso, o movimento é enorme, as ruas do centro estão sempre cheias, a vida noturna é muito agitada e peculiar (pelo que vi, o espanhol típico se amarra nos seus "tapas", "chupitos", "tascas" e "copos", saindo de um bar para outro, junto com seus amigos, pela noite afora). As avenidas são grandiosas, assim como os edifícios, o metrô é muito bom, mas dá para cobrir boa parte da região central da cidade a pé. Bem, vamos aos fatos: cheguei na Estação Chamartín, peguei o metrô e fui para o hotel. Larguei as coisas lá e fui andando até a Biblioteca Nacional, não via a hora de botar a mão no manuscrito do Tetrabiblos. Já estava escurecendo, então a minha visibilidade era limitada, mas tudo bem, porque a noite tem a sua própria luz. Cheguei ao meu destino e tive que enfrentar o maior sistema de segurança que vi até agora em bibliotecas (esta já é a décima-segunda que piso em terras estrangeiras): para entrar, tive que dar uma satisfação na recepção; depois, passei por um detector de metais como o dos aeroportos, e a minha bolsa na esteira; em seguida, outra recepção, agora para me encaminhar aos armários (para deixar a minha bolsa) e ao guarda-roupas (para deixar o casaco), e para inspecionar o bloco e os documentos (tive que levar documentos para fazer a carteira de pesquisadora, só com isso poderia ter acesso aos manuscritos, que ficam numa área reservada) que ia levar para dentro da biblioteca. Pois bem, a burocracia para fazer a carteira até que foi rápida (já tinha me informado para saber os documentos necessários), em alguns minutos já estava com a carteira na mão. Voltei ao armário, para deixar lá os documentos, e tive que passar novamente pelo processo de inspeção todo, tanto para sair quanto para entrar de novo. Quando finalmente consegui entrar na sala de reservados, novamente me pediram a carteira de pesquisadora e inspecionaram o meu bloco, e sempre que entrava e saía tinha que fazer o mesmo. Fala sério! Bem, depois disso tudo, só me restava uma hora e meia antes de a biblioteca fechar. Foi o suficiente. Pedi o manuscrito, e alguns minutos depois lá estava ele sobre a mesa, ou melhor, sobre um almofadão em cima da mesa, para facilitar o seu manuseio e evitar danos. Valeu o esforço, a chatice, a burocracia e tudo o mais que eu tive que enfrentar: lá estava eu com um manuscrito do Tetrabiblos traduzido no século XV para o castelhano: "Aqui começa o livro que é chamado Tetrabiblos, composto por Ptolomeu, que é dividido em quatro partes." Folheei um pouco das suas 250 páginas, escritas numa belíssima letra, e enriquecidas por comentários, esquemas e desenhos feitos por aqueles que leram esse texto sabe-se-lá quando, onde ou como. Claro que a fantasia corre solta, e não pude me furtar de viajar borgianamente no tempo e no espaço, imaginando astrólogos de outrora, com seus candeeiros de azeite, debruçados sobre esse manuscrito, sofrendo com os dissabores do frio ou do calor, quiçá escondidos... Devaneios à parte, depois disso, só um La Rioja para comemorar! Saí da biblioteca e fui me encontrar com a Elena no marco zero de Madri, a Puerta del Sol. Andamos um pouco pelas ruelas da parte antiga da cidade, passamos pela grandiosa Plaza Mayor e paramos para uns "copos" e "tapas" num barzinho descolado da La Latina. Foi muito bom, detonamos uma garrafa de La Rioja botando o papo em dia e, depois, ela me chamou para encontrar com seus amigos em outro lugar. Lá fomos nós pela maratona tipicamente espanhola. Quando vi, estava em outro bar, tomando outro vinho, comendo outros tapas e resolvendo os problemas do mundo com um francês, um colombiano e um monte de espanhóis e espanholas. Muito divertido! Lá pelas tantas, eles resolveram ir para outro lugar, mas eu, que já estava morta de cansaço, entrei num taxi e me mandei para o hotel. Elena me disse depois que eles ficaram lá até umas cinco da matina. Haja disposição! No dia seguinte, fui novamente à biblioteca, que ficava aberta até às 14 horas. Depois de passar pelo esquema de segurança, lá estava eu novamente com o Tetrabiblos nas mãos. Pedi o microfilme, fiz umas cópias no papel, mas não fiquei satisfeita com a qualidade. De qualquer maneira, copiei os primeiros capítulos para garantir. Depois, fui me informar sobre como era para digitalizar o manuscrito. Impagável evidentemente. Depois de muito sofrimento fazendo contas e tentando escolher o que copiar, decidi então mandar fazer a digitalização só dos primeiros capítulos, que espero cheguem sãos e salvos pelo correio até o fim do mês. Oxalá dê tudo certo! Saí da BN meio chateada com isso, mas paciência. Novamente fui encontrar com a Elena na Puerta del Sol, mas dessa vez de máquina em punho, fotografando tudo pelo caminho. Tomamos um copo num bar antes de irmos almoçar (outro hábito do espanhol), caminhamos mais um pouco pela cidade, Elena me mostrando vários lugares e contando histórias de Madri, até que a fome apertou e fomos comer. Depois de uma bela massa regada a um bom vinho, a noite mal dormida no dia anterior pesou, e voltei para o hotel, onde acabei ficando, apesar do convite da Elena de repetirmos a dose do dia anterior. Sem condições, eu tinha que descansar. Até porque estava frustradíssima de não ter tido forças de ir ao museu ou ao parque, que eram as coisas que eu tinha planejado fazer em Madri. Mas depois de uma noite muito bem dormida, o domingo foi glorioso, pois aproveitei-o muito bem. Fui cedo ao Reina Sofía, onde testemunhei, entre outras coisas inesquecíveis, a dolorosa beleza do Guernica. Passei duas horas de encanto neste museu. Saí de lá e fui comer o famoso "bocadillo de calamares", que no dia anterior tinha visto todo mundo comer nos arredores da Plaza Mayor. Depois, passeei e descansei um pouco no enorme Parque do Retiro, que realmente é incrível, além de ser ao lado do Prado, onde mais uma vez pude desfrutar de alguns momentos de puro deleite, vendo, com esses olhos que a terra há de comer, coisas como As Meninas, do Velasquez, O Colosso e Saturno, do Goya, muitas obras do El Grego, que não é muito o meu gosto, mas para o qual há que se tirar o chapéu, além de várias obras de vários tempos/espaços diferentes, que infelizmente numa só visita não se pode apreciar. Ademais, havia lá também uma exposição temporária do Rembrandt (que delícia o seu auto-retrato!) e uma outra chamada "Deuses e Homens", com várias estátuas gregas e romanas. Foi bárbaro! Saí do museu, novamente encontrei a Elena, que me levou no Ateneu, um espaço cultural com uma biblioteca e um teatro incríveis, que foi recém-recuperado e do qual ela é sócia, e depois tomamos um copo antes de eu embarcar de volta para Salamanca, conversando, entre outras coisas, sobre os problemas e soluções de Rio, Lisboa e Madri. Muito giro!

Um comentário:

Anônimo disse...

Realmente, filhotinha, ler suas impressões é emocionante.(já te disse isso).Quando você está com o Tetrablibos, finalmente, e msuas mãos, ou melhor, no almofadão e a sua viagem ao passado, imaginando o lugar e as pessoas que tiveram ele nas mãos, me lembrou um livro que lí há pouco: "As Memórias do Livro".
mami