Lisboa-Salamanca, 1 de novembro de 2008.
De trás para frente, vou tentar narrar as últimas emoções, e que emoções! Estou no comboio para Hendaye, o mesmo que peguei para Paris, só que agora para Salamanca e na segunda classe (para Salamanca não rola a primeira, então são cabines coletivas). Há aqui na minha frente um gajo salmantino que parece um duende, mas que se mostrou bastante amigável. Bem, voltando a fita, encontrei finalmente com o meu amigo de infância, Júnior, que veio à Santa Apolônia me encontrar antes de eu embarcar. Como já tinha visto fotos recentes dele, reconheci-o logo, mas ele está bem mudado, para além dos cabelos brancos, pois lembrava dele gordinho e de aparelho nos dentes. Entretanto, como outrora, ele é muito gente boa, virou jornalista e corredor nas horas vagas, participando de corridas locais. Sua mulher se chama Cristiane, e eles moram em Lisboa há quase 4 anos, mas agora em dezembro/janeiro eles se mudam para a Irlanda. Foi muito giro esse encontro, ele também me levou a famosa cópia em CD de uma entrevista que fizemos em 1979 (deuses!) com o dream team do Flamengo. First thing em Salamanca: conferir esse CD. Nem acredito que vou ouvir a minha voz transportada no tempo e no espaço. Ai, ai, ai... Foi bom que ele me ajudou a embarcar e ficamos de nos ver em dezembro. Falando em ajudar com as malas, voltando mais um pouquinho no tempo, ainda na residência, quando estava saindo, encontrei o Michael, e ele me ajudou a ir até o táxi. Obviamente ofereci-lhe uma carona e fomos falando sobre viagens no caminho curtíssimo da residência até o Instituto Confúcio (no campus da universidade), onde ele trabalha. Apesar de bater portas, o camarada chinês é gente boa. Desenrolando mais um pouco para trás, hoje passei o dia terminando de arrumar as malas (o chato desta vez foi que tive que liberar o quarto, então preparei mala para trazer e mala para ficar; Dona Rosa sugeriu isso, assim poderia deixar as coisas lá, mas não teria que pagar o mês) e me despedindo das novas amigas (Elena, la española loca, disse que me liga na semana que vem para nos encontrarmos em Madri, e Teresa, com quem tomei café e almocei na copa da residência batendo aquele papo sempre agradável, comprou pão e me ofereceu para eu fazer meu sanduba de viagem; ah! e tem também a Dona Rosa, indo e vindo, sempre muito querida, facilitando em tudo o que é possível a nossa vida). Hoje também consegui “estar presente” via skype no momento em que o Pedro recebeu o presente de aniversário que lhe enviei pelo correio. Haja coração! Bem, realmente esta semana não faltaram emoções. Comecei a semana me despedindo da mamãe também pelo skype (acabou sua licença e ela voltou para Blumenau; até então estava lá em casa, então nos víamos quase todos os dias), o que foi difícil. Aliás, tem sido cada vez mais difícil esse ritual de despedida. A gente faz isso várias vezes por ano. Enfim, a choradeira do início da semana só arrefeceu mesmo quando meti a cara no trabalho e com o apoio das amigas. Também fui duas vezes à cinemateca, assisti Tristana, do Buñuel, e O passado e o presente, do Manoel de Oliveira. Gostei de ambos. Tristana, com Catherine Deneuve (versão anos 60), é considerado por alguns como a obra-prima de Buñuel. O nome do personagem de Deneuve (Tristana) só é ultrapassado em estranhamento pelos da dupla Saturno/Saturna (mãe e filho). Eu diria que o tema do filme é o amor com suas estranhas facetas, bem como o do filme do Oliveira, onde as bizarrices amorosa e estética chegam ao paroxismo. Infelizmente, a semana também acabou em choro, porque tive que ir parar no dentista menos de 24 horas antes de embarcar para Salamanca... Lamentável! E eu fui tão cuidadosa todos esses anos com os meus dentes! Até troquei uma obturação velha antes de viajar, para evitar problemas. Mas isso não foi suficiente: do outro lado, uma outra obturação jurássica resolveu me deixar na mão... Em suma, vou ter que fazer um tratamento de canal (eles chamam aqui de desvitalização), mas o dentista providenciou um paliativo, que espero que suporte até a minha volta para Lisboa. Oxalá tudo dê certo! Apesar do incômodo, foi legal pois consegui ir ontem mesmo ao dentista que a Dona Rosa me recomendou, que fica bem pertinho da residência. Como ela mesma disse: quem tem amigos tem tudo. Apesar de o dentista ser um velhinho simpático e muito bom profissional, acabei chorando que nem criança enquanto estava lá de boca aberta. Ele perguntou se estava doendo, eu disse que não (aliás, nem senti a anestesia, que magia braba é esta?), mas quem disse que eu conseguia parar de chorar. Dei uma de Clarice Lispector e chorei por tudo e por todos. Claro que detesto dentista (deve ser trauma de infância), e o fato de estar ali me incomodava, na mão de um dentista que não é o meu, numa terra que não é a minha, longe da minha casa e dos meus entes queridos, depois de já ter tido um desgaste emocional no início da semana, na maior expectativa em relação à viagem para Salamanca, sem ter conseguido falar com o Pedro no dia do aniversário dele... Enfim, acho que isso é motivo suficiente... Pelo menos botei tudo para fora, fui chorando até a residência, e quando cheguei lá, Elena foi muito legal comigo e me deu o maior apoio. Depois bateu na minha porta e disse: “Vamos a celebrar el cumpleaños de Pedro!”, e eu disse: “Demorô!”... Fomos ao Chiado, subimos para o Bairro Alto, tomamos um copo no Pavilhão Chinês (legal, apesar de over), conversando animadamente, especialmente sobre cinema, e depois fomos ao Hot Clube, onde rolou um concerto da Paula Oliveira, cantora alternativa e badalada de Portugal, com um trabalho interessante, uma super voz (cantou até Chico Buarque e Edu Lobo, o que me emocionou sobremaneira, apesar da forma muito peculiar, eu diria que à portuguesa), mas nada a ver com jazz. No entanto, o programinha foi legal, boa música, boa conversa, bom vinho português. Parabéns para o Pedro!!! Faltou dizer que, na quarta, Elena e eu combinamos de sair, mas antes compramos uma pizza e um vinho para comer na residência, sob os olhares satisfeitos e participações especiais de Dona Rosa, que se amarra na gente e gosta de ver essa integração. Lá pelas tantas chegou a Teresa, e o papo foi indo, foi indo, que, quando vimos, já era quase meia-noite, e o nosso programa tinha rolado ali mesmo, no improviso, na copa da residência Paz. Muito giro!
De trás para frente, vou tentar narrar as últimas emoções, e que emoções! Estou no comboio para Hendaye, o mesmo que peguei para Paris, só que agora para Salamanca e na segunda classe (para Salamanca não rola a primeira, então são cabines coletivas). Há aqui na minha frente um gajo salmantino que parece um duende, mas que se mostrou bastante amigável. Bem, voltando a fita, encontrei finalmente com o meu amigo de infância, Júnior, que veio à Santa Apolônia me encontrar antes de eu embarcar. Como já tinha visto fotos recentes dele, reconheci-o logo, mas ele está bem mudado, para além dos cabelos brancos, pois lembrava dele gordinho e de aparelho nos dentes. Entretanto, como outrora, ele é muito gente boa, virou jornalista e corredor nas horas vagas, participando de corridas locais. Sua mulher se chama Cristiane, e eles moram em Lisboa há quase 4 anos, mas agora em dezembro/janeiro eles se mudam para a Irlanda. Foi muito giro esse encontro, ele também me levou a famosa cópia em CD de uma entrevista que fizemos em 1979 (deuses!) com o dream team do Flamengo. First thing em Salamanca: conferir esse CD. Nem acredito que vou ouvir a minha voz transportada no tempo e no espaço. Ai, ai, ai... Foi bom que ele me ajudou a embarcar e ficamos de nos ver em dezembro. Falando em ajudar com as malas, voltando mais um pouquinho no tempo, ainda na residência, quando estava saindo, encontrei o Michael, e ele me ajudou a ir até o táxi. Obviamente ofereci-lhe uma carona e fomos falando sobre viagens no caminho curtíssimo da residência até o Instituto Confúcio (no campus da universidade), onde ele trabalha. Apesar de bater portas, o camarada chinês é gente boa. Desenrolando mais um pouco para trás, hoje passei o dia terminando de arrumar as malas (o chato desta vez foi que tive que liberar o quarto, então preparei mala para trazer e mala para ficar; Dona Rosa sugeriu isso, assim poderia deixar as coisas lá, mas não teria que pagar o mês) e me despedindo das novas amigas (Elena, la española loca, disse que me liga na semana que vem para nos encontrarmos em Madri, e Teresa, com quem tomei café e almocei na copa da residência batendo aquele papo sempre agradável, comprou pão e me ofereceu para eu fazer meu sanduba de viagem; ah! e tem também a Dona Rosa, indo e vindo, sempre muito querida, facilitando em tudo o que é possível a nossa vida). Hoje também consegui “estar presente” via skype no momento em que o Pedro recebeu o presente de aniversário que lhe enviei pelo correio. Haja coração! Bem, realmente esta semana não faltaram emoções. Comecei a semana me despedindo da mamãe também pelo skype (acabou sua licença e ela voltou para Blumenau; até então estava lá em casa, então nos víamos quase todos os dias), o que foi difícil. Aliás, tem sido cada vez mais difícil esse ritual de despedida. A gente faz isso várias vezes por ano. Enfim, a choradeira do início da semana só arrefeceu mesmo quando meti a cara no trabalho e com o apoio das amigas. Também fui duas vezes à cinemateca, assisti Tristana, do Buñuel, e O passado e o presente, do Manoel de Oliveira. Gostei de ambos. Tristana, com Catherine Deneuve (versão anos 60), é considerado por alguns como a obra-prima de Buñuel. O nome do personagem de Deneuve (Tristana) só é ultrapassado em estranhamento pelos da dupla Saturno/Saturna (mãe e filho). Eu diria que o tema do filme é o amor com suas estranhas facetas, bem como o do filme do Oliveira, onde as bizarrices amorosa e estética chegam ao paroxismo. Infelizmente, a semana também acabou em choro, porque tive que ir parar no dentista menos de 24 horas antes de embarcar para Salamanca... Lamentável! E eu fui tão cuidadosa todos esses anos com os meus dentes! Até troquei uma obturação velha antes de viajar, para evitar problemas. Mas isso não foi suficiente: do outro lado, uma outra obturação jurássica resolveu me deixar na mão... Em suma, vou ter que fazer um tratamento de canal (eles chamam aqui de desvitalização), mas o dentista providenciou um paliativo, que espero que suporte até a minha volta para Lisboa. Oxalá tudo dê certo! Apesar do incômodo, foi legal pois consegui ir ontem mesmo ao dentista que a Dona Rosa me recomendou, que fica bem pertinho da residência. Como ela mesma disse: quem tem amigos tem tudo. Apesar de o dentista ser um velhinho simpático e muito bom profissional, acabei chorando que nem criança enquanto estava lá de boca aberta. Ele perguntou se estava doendo, eu disse que não (aliás, nem senti a anestesia, que magia braba é esta?), mas quem disse que eu conseguia parar de chorar. Dei uma de Clarice Lispector e chorei por tudo e por todos. Claro que detesto dentista (deve ser trauma de infância), e o fato de estar ali me incomodava, na mão de um dentista que não é o meu, numa terra que não é a minha, longe da minha casa e dos meus entes queridos, depois de já ter tido um desgaste emocional no início da semana, na maior expectativa em relação à viagem para Salamanca, sem ter conseguido falar com o Pedro no dia do aniversário dele... Enfim, acho que isso é motivo suficiente... Pelo menos botei tudo para fora, fui chorando até a residência, e quando cheguei lá, Elena foi muito legal comigo e me deu o maior apoio. Depois bateu na minha porta e disse: “Vamos a celebrar el cumpleaños de Pedro!”, e eu disse: “Demorô!”... Fomos ao Chiado, subimos para o Bairro Alto, tomamos um copo no Pavilhão Chinês (legal, apesar de over), conversando animadamente, especialmente sobre cinema, e depois fomos ao Hot Clube, onde rolou um concerto da Paula Oliveira, cantora alternativa e badalada de Portugal, com um trabalho interessante, uma super voz (cantou até Chico Buarque e Edu Lobo, o que me emocionou sobremaneira, apesar da forma muito peculiar, eu diria que à portuguesa), mas nada a ver com jazz. No entanto, o programinha foi legal, boa música, boa conversa, bom vinho português. Parabéns para o Pedro!!! Faltou dizer que, na quarta, Elena e eu combinamos de sair, mas antes compramos uma pizza e um vinho para comer na residência, sob os olhares satisfeitos e participações especiais de Dona Rosa, que se amarra na gente e gosta de ver essa integração. Lá pelas tantas chegou a Teresa, e o papo foi indo, foi indo, que, quando vimos, já era quase meia-noite, e o nosso programa tinha rolado ali mesmo, no improviso, na copa da residência Paz. Muito giro!
2 comentários:
Nesse eu quase chorei contigo, Cristina. Pqp, teus relatos estão muito giros.
Como é que eu não lí antes? Mas, relembrando com calma percebi que foi justamente quando voltei para Blumenau e as vezes que tive acesso ao computador, foi tudo muito rápido e mal tinha tempo de ler alguma coisa.Não fazia ideia do seu sofrimento.Ainda bem que não foi tão grave né?
mami
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