quarta-feira, 5 de novembro de 2008

48 - Vida de estudante

Salamanca, 5 de novembro de 2008.
Hoje estou começando a entrar na rotina. De manhã, duas horas de aula de língua e uma de mundo árabe na península (cancelei as outras duas, porque não vim aqui para fazer maratona; ontem tentei fazer tudo, mas foi muito cansativo, sem falar que quase morri de fome, pois foram 5 horas seguidas e em edifícios diferentes), e, agora à tarde, vou me enterrar na biblioteca. Hoje, ao falar da arte muçulmana na Andaluzia, a professora, que se chama Paz, mencionou Averróis e Maimônides, prometendo falar deles mais adiante. No programa, há um item sobre traduções e outro sobre ciência, ou seja, perfeito. Hoje mesmo já tirei algumas dúvidas com ela, falei sobre o filme O destino, e ela me disse que o filme é muito bom, mas que historicamente juntou duas fases distintas numa só, a dos almorávidas e a dos almôadas (sobre as quais ela falou hoje, o que me foi muito esclarecedor; por mais que se leia sobre o assunto, nada melhor do que assistir a uma aula e poder construir a coisa ali aos poucos). A aula de história, que cancelei, era sobre história contemporânea. Muito interessante, mas tenho que ser prática e me ater somente ao que de fato me interessa. A professora, Carmen, é a cara da tia Dulce, só que mais nova e de cabelo preto. A outra que cancelei foi sobre cinema, também muito legal, mas não aporta nada (aliás, descobri que há um cinema alternativo bem pertinho daqui, onde está passando uns filmes giros; vou tentar ir lá conferir). Com esse esquema, tenho aula de 9 às 11 num dos prédios históricos da universidade, justamente onde se encontra a famosa obra "El cielo de Salamanca", de Fernando Gallego (século XV), que, numa abóboda, representa parte das constelações zodiacais (de leão a sagitário) num belíssimo fundo azul. Depois, posso sair com calma, comer qualquer coisa (o café rola às 8 da manhã, então às 11, 11 e meia já estou com fome), caminhar tranqüilamente, atravessar a Plaza Mayor e a Calle Toro, até chegar para a aula das 12:10, que é no Edifício San Boal, outro prédio da universidade. Terminada essa aula por volta da uma da tarde, volto andando e chego calmamente bem antes do almoço, que rola por volta das 14:30, quando as outras chicas chegam. Aliás, sinceramente, haja paciência para aturar duas meninas (a inglesa especialmente) ricas, mimadas e desmioladas. Hoje, a Lucy, no alto da sua arrogância, resolveu soltar que as universidades inglesas são as melhores do mundo, porque o governo dá muito dinheiro etc. e tal, com aquela cara de quem se acha superior (sequer entrou na universidade, e só vai entrar porque o papaizinho rico vai pagar, assim como está pagando a estadia dela em Salamanca; aqui só eu sou bolsista, as outras duas são filhinhas de papai). Notas dissonantes à parte, está tudo a contento. Na segunda, depois da prova de nivelamento, fiquei na Biblioteca Geral (que também é um espetáculo à parte) e já fiz a minha primeira pesquisa bibliográfica. Numa primeira abordagem, já vi que vou ter muito trabalho por aqui, pois há muita coisa sobre astrologia e Ptolomeu. Depois do almoço (um cozido madrilenho) e da sesta (aqui quase tudo fecha das 14 às 17!), fui até a biblioteca da faculdade de letras (aqui eles chamam de filologia) e fiquei lá destrinchando a tradução italiana do Tetrabiblos e um livro da Salama-Carr que é referência obrigatória para estudar a tradução em Bagdá no período abássida. Ambos estavam muito difíceis de encontrar, mas agora já tenho mais esses dois coelhos na cartola.

2 comentários:

Daniela do Carmo disse...

Só você pra escrever "fiquei lá destrinchando a tradução italiana do Tetrabiblos e um livro da Salama-Carr que é referência obrigatória para estudar a tradução em Bagdá no período abássida" sem parecer que está de sacanagem com a nossa cara chula e monga por não ter entendido nada! Hahahahahah. Márcio tb ficou passado e dobrado com o "abássida" e ambos mandamos beijos!!

A viajante disse...

Beijos para vocês também!
O período abássida (ou abácida) começou no século VIII, quando o império árabe tornou-se também muçulmano, e foi um dos mais produtivos em termos de tradução (do grego e/ou siríaco para o árabe), daí o livro da Salama ser referência obrigatória para quem estuda história da tradução. Morô?