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| Caricatura que se encontra na biografia do Pessoa. Não tem os créditos, imagino que seja do próprio autor, Richard Zenith. |
"Sê plural como o universo!", diz Pessoa num papel encontrado no famoso baú anos depois da sua morte. Sim, sabemos dos seus heterônimos, da sua "automultiplicação", desse "fenómeno de autoria estilhaçada", mas eu não sabia - ou não tinha registrado - que eram tantos (mais de 100!), a maioria desconhecidos, autores de pequenos textos ou de projetos de textos. Dessa centena de criaturas autorais, cerca de 30 assinaram pelo menos uma obra significativa, e os mais conhecidos, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, são também os heterônimos plenamente desenvolvidos. Bernardo Soares, autor do Livro do desassossego, destaca-se sobretudo por ter escrito o livro em prosa mais importante de Pessoa, que trata de tudo e mais um pouco, mas são ambos, heterônimo e livro, incompletos, incertos, fragmentários. A incompletude, a incerteza e o fragmentarismo, no entanto, acabam sendo um ótimo exemplo do próprio autor e da sua vasta, rica e complexa obra.
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| Caricatura no site da Sociedad de Filosofía Aplicada |
Numa busca de conectar tudo o que penso, lembro, sonho, leio, estudo e contemplo, ou seja, tudo o que vivo, acho que esse pluralismo pessoano tem tudo a ver com o mergulho no pluralismo de Feyerabend que temos feito no nosso GP de Science Studies da UEM. Olhem só o que o Zenith diz, no prólogo do livro: que o Pessoa "queria ver tudo a partir de todos os pontos de vista possíveis", ainda que incorresse em inconsistências (p. 30). Isso sem falar da famosa revelação do mestre Caeiro: "A Natureza é partes sem um todo". Assim como Feyerabend, o biógrafo se aproxima um bocado das questões da física contemporânea, falando que os heterônimos são como "partículas de um campo quântico" (p. 24), colocando em destaque o seu caráter de incerteza.
Também faço uma ligação com os meus estudos de escritas e reescritas do Tetrabiblos, com toda aquela discussão sobre autoria, original e fidelidade, que é tão cara aos estudos da tradução. Tudo bem que estou aqui aquecendo para preparar a aula de história da tradução que vou dar na PUC no dia 21, mas acho que não estou vendo coisas. Quando o Zenith nos fala do Livro do desassossego, que só foi publicado em 1982 com cerca de 300 fragmentos, lembra não só do seu caráter fragmentar e de "diário semificcional", mas também da história de como ele foi desencavado, decodificado (a letra do Pessoa era um horror) e, a cada edição, alterado. Nesses 40 anos desde a primeira edição, os editores não concordam sobre o que realmente pertence ao livro. Isso é maravilhoso, mais pessoano impossível! Não há um original ao qual os editores devam ser fiéis, então não é possível uma edição definitiva.
De quebra, ainda tem a pegada mística do Pessoa, a sua "busca espiritual", sua ligação com a teosofia (ele traduziu Blavatsky!), sua amizade com o Aleister Crowley e, claro, a sua relação com a astrologia. Segundo Zenith: "os heterônimos eram um meio para transformar alquimicamente o ser" (p. 31). Acho que o Jung ia gostar... Então tintim com mais um vinho verde:





2 comentários:
😍
As ligações que você faz são incríveis, queria assistir essa aula do dia 21.
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