Porto, 16 de agosto de 2008.
Antes de embarcar, almocei a feijoada da Maria, acompanhada de muitos legumes e do vinho da casa. Mais uma deliciosa refeição na Vivenda Martins, embalada por boa conversa sobre Portugal, Brasil, problemas em comum, questões regionais etc. Percebe-se claramente o orgulho que essa gente tem por ser fruto dessa região. Há rixas locais evidentemente, que, na ocasião das festas, viram desejo de superar a outra aldeia no quesito decoração ou organização. Chamou-me a atenção especialmente a conversa sobre imigrantes, que me lembrou o filme American History X. Complicadíssima situação de solução nada fácil. Este é um problema com o qual não estamos acostumados no Brasil. Valeu essa experiência rural em Jorjais. Na casa da Alice e do Samuel, há criação de galinhas, porcos e coelhos. Eles têm também um bezerro enorme. Além disso, plantam de tudo, inclusive vinhas (a região do Alto Douro é uma região vinífera demarcada), têm uma cozinha tipicamente campesina, com forno à lenha, que aquece a casa toda, panelas enormes de pedra, barro e ferro, uma adega improvisada nas telhas. Aprendi um pouco da geografia política da região também. Vila Real é uma cidade da região de Trás-os-montes e Alto Douro, que tem algumas freguesias, dentre elas a de Mouçóis, que tem várias aldeias. Jorjais, onde fiquei, é uma delas. Uma outra aldeia próxima, Aboboleira, é onde a Julia (mãe do Pedro), a Maria e a Elisa nasceram. As aldeias me pareceram um pouco com os clãs irlandeses e escoceses, é como uma extensão do núcleo familiar, ou seja, uma organização do espaço público bastante tradicional. Tirei fotos de todos para guardar uma lembrança dessa família tão gira que me recebeu em sua casa: Samuel e Alice, que, além de trabalhar em sua casa na Aldeia, têm uma papelaria em Vila Real!; e as filhas Soraia (que, apesar dos 10 anos e de querer ser médica, sabe tudo da história de Portugal, sobre a qual batemos um papo hoje de manhã, debruçadas em livros de história; ela me contou em detalhes a famosa lenda medieval sobre D.Pedro e D.Inês de Castro: sinistra!) e Vânia (com quem fiquei de me encontrar em breve em Lisboa).
Cheguei hoje ao Porto e não sei se por causa do eclipse (que vi lá da Baixa) ou por qualquer outro motivo, mas achei a cidade sinistra. Aqui também está tudo meio vazio, mas, além disso, acho que as construções são soturnas e os pássaros noturnos me chamaram a atenção (talvez estivessem ensandecidos por causa do eclipse). Tudo bem que só vi um pouco da cidade, e à noite, mas esta foi a primeira impressão. Na verdade, só corroborou a chegada, que foi num terminal tão pequeno quanto o de Vila Real (acho que aqui não há rodoviárias como no Brasil) e, como está tudo meio morto, não consegui achar um táxi logo, tive que andar um pouco. E isso foi ainda durante o dia, tipo 6 da tarde, ou seja, o sol ainda estava forte. E olha que o Porto é a segunda maior cidade de Portugal! O hotel é o Ibis São João, pertíssimo do pólo universitário, praticamente dentro de um shopping center (aqui eles chamam de centro comercial) e ao lado de uma estação do metro. A propósito, o metro aqui é algo de outro mundo, moderníssimo. Acho até que a tripulação acabou calotando sem querer, pois se esquecera de validar o bilhete. Ao contrário de Lisboa (onde também se valida o bilhete, mas num equipamento parecido com as roletas do nosso metrô), aqui se valida o bilhete numa maquininha que fica na estação, mas é perfeitamente possível embarcar sem validar (acho que se alguém é pego sem o bilhete validado, rola uma multa). Na estação perto do Ibis, a tripulação viu a maquininha, mas na dos Aliados, onde pegou o metro para voltar, não viu a tal maquininha e, quando se tocou, já estava dentro do comboio... Bizarro! Se isso fosse no Brasil, ninguém ia validar nunca o bilhete. Cheguei na Baixa tarde, tipo 9 da noite, andei um pouco e entrei no restaurante/lanchonete A Brasileira. Estava rolando o jogo Porto X Sporting (quando saí o Sporting estava ganhando por 2 a 0) e eu pedi a tal francesinha, que o Little Boy (cuja família é da região do Porto e com quem eu devo me encontrar amanhã ou depois) já havia me sugerido há algum tempo (“já comeu a francesinha?”, disse ele), acompanhada de um fino (=chope, imperial). Bem, sinceramente, não gostei muito, acabei deixando a metade. Fala sério! É coisa de Jorge mesmo (conhecido como little boy ou ogro)! Para horror das minhas amigas vegetarianas, a parada leva carne, presunto, salsicha e sabe-se-lá-mais-o-quê. Tudo isso entre dois pães de fôrma e coberto por queijo derretido (esta foi a melhor parte da tal francesinha). Além disso, o prato é acompanhado de batatas fritas (que estavam nadando no óleo). Não recomendo, prefiro o meu tour vegetariano.
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