quinta-feira, 21 de agosto de 2008

10 - Universidade de Coimbra

Coimbra, 20 de agosto de 2008.
Hoje eu trabalhei! No meio da minha vida de viajante encantada com tudo (ou quase tudo) - tirando fotos, andando devagar, sorvendo cada instante -, eu dei andamento às minhas pesquisas. De manhã saí do hotel com o intuito de subir para a região da Universidade e dos monumentos (é como ir do Catete a Santa, mas deve ter algum autocarro, eu é que preferi ir a pé); no entanto, no caminho, entrei na Almedina, fiquei umas duas horas vendo tudo (que maravilha!) e acabei levando um dicionário de espanhol e um livro do Garin sobre o Renascimento e a Idade Média, ambos pela bagatela de 16 euros. Já tenho o livro dele sobre a astrologia na Renascença, mas este também tem um capítulo só sobre a astrologia. Lembrei do Edil! Deixei as aquisições no hotel e subi. O caminho é incrível, cheio de vielas, arcos, pastelarias, lojas de lembranças (o lugar estava cheio de turistas), ruas de pedra... Um clima muito giro. Passei pela Sé velha (uma construção de 1162!) e segui andando em busca da Universidade. Achei o prédio da "coordenação acadêmica" e perguntei se estava na direção certa. Estava. Lá pelas tantas, parei num "mirante" cuja vista era justamente o parque onde passeei ontem. Tudo muito lindo. Segui mais um pouco e avistei o arquivo da universidade. Pensei: "estou perto da biblioteca". Mais um pouco e lá estava ela: a Biblioteca Geral, a famosa Biblioteca da Universidade de Coimbra, num prédio grandioso, cheio de enormes estátuas dando as boas-vindas e, à entrada, uma série de relevos, dois muito interessantes. Em frente, do outro lado do "pátio", num prédio igualmente grandioso, a Faculdade de Letras (que, assim como em Lisboa, também abriga a Filosofia). Fechando o "U" desse "pátio", a chamada Porta Férrea, esta sim é a entrada nobre do Pátio da Universidade, que, ao cruzá-la, oferece um espetáculo, não tenho palavras para descrever. Só sei que num dos cantos há a Biblioteca Joanina, onde um bando de turistas se aglomerava esperando a hora de abrir. Essa biblioteca é um dos monumentos da cidade, foi construída em 1717, em estilo barroco e contém cerca de 250 mil obras (quando me sentei depois para fazer a pesquisa bibliográfica, pude ver todo o acervo, inclusive o dessa biblioteca, cujas obras têm que ser solicitadas um dia antes). Postei-me no centro do pátio, olhando para o céu e imaginando quantos já não me antecederam nesse movimento... Quando deu duas horas, fui até a Biblioteca Geral, pois já tinha me informado que o acesso ao catálogo (aqui não temos acesso ao acervo propriamente dito) só reabriria nesse horário. Entrei e fiquei quase duas horas pesquisando. Achei algumas coisas interessantes (inclusive edições antigas do Pedro Nunes e do Ptolomeu em latim, que ainda pretendo ver pessoalmente), mas me detive numa, que solicitei na sala de reservados, de um autor que desconhecia completamente (Alfonso de Fuentes), mas o título do livro me chamou a atenção: Summa de Philosophia Natural: astrulogia, astronomia e otras sciencias. Edição do século XVI, assim como a tradução latina do Tetrabiblos e a obra do Pedro Nunes. Como essas duas últimas eu tenho certeza de que há também em Lisboa, pedi para ver o livro do Fuentes, sem acreditar que eu ia botar a mão em obra tão antiga. Pois bem, nessa sala de reservados só havia mais três pessoas, sendo que duas delas estavam usando luvas e fotografando um livro manuscrito. Fiquei pensando se eu teria que usar luvas também, mas ninguém disse nada, acho que fica a critério do pesquisador. Logo em seguida chegou o livro pelas mãos da bibliotecária, eu já estava sentadinha conforme me mandaram. Lá estava ele, olhando para mim. Levei alguns segundos para conseguir abri-lo, olhando para os lados para ver se tinha alguém vendo o meu mico. Inacreditável! Lá estava eu folheando um livro de quase 500 anos... O que mais eu posso dizer? Fiquei um tempo folheando, vi que se tratava de um diálogo. Lá pelas tantas, o assunto se aproximou mais da astrologia ptolomaica, abordando temas que evidentemente constam no Tetrabiblos, inclusive o Ptolomeu é citado textualmente, entre vários outros autores clássicos, especialmente o Firmicus. O livro tem algumas gravuras também. Fiz algumas anotações, mas o tempo estava passando e a biblioteca já ia fechar (horário de férias). Resolvi então fotografar algumas partes, mas logo na primeira a pilha me deixou na mão. Deixei essa tarefa para amanhã. Antes de sair, a bibliotecária pediu que eu assinasse uma declaração sobre o que eu fotografei. Eu disse que ia voltar para continuar amanhã, então ela achou melhor deixar para fazer isso amanhã também. Saí dali sem acreditar no que tinha acontecido. Fui descendo pelos becos e vielas de pedra, descobrindo novos caminhos no labirinto que liga a Universidade à Baixa. Depois disso, resolvi ir à feira de livros da Bertrand, sobre a qual tinha lido pela manhã no jornal de Coimbra, que estava disponível na recepção do hotel. Peguei o comboio e fui até a estação do Estádio de Coimbra, onde se encontra o shopping Dolce Vitta. Era lá a feira. A região é totalmente diferente, uma área mais moderna, com cara de qualquer outra cidade. Tomei um gelado (sorvete) e fui espiar os livros. Saí de lá com 3 embaixo do braço: um quadrinho bem-humorado sobre a história de Portugal, um livro da Helena Avelar e do Luís Ribeiro (os astrólogos portugueses que o Fernando já tinha mencionado, acho que até já escreveram na Constelar) sobre os mapas das famílias reais portuguesas (uma bela pesquisa!) e um livro do Eduardo Bueno sobre a viagem do descobrimento (estava uma pechincha, não pude resistir). Paguei 11 euros. Depois desse dia tão produtivo, fiquei um tempo lendo na estação, esperando o comboio para voltar, e, quando saltei, fui ver o pôr-do-sol no rio, continuando a minha leitura...

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