Como diziam os aventureiros das Descobertas, cantadas pelos aedos Camões e Pessoa: “navegar é preciso, viver não é preciso”. A propósito, a nave capitânia desta expedição chamava-se Infante Dom Henrique. Bom sinal. A nave aportou na Jangada de Pedra no dia 5 de agosto pela manhã, a tripulação estava moída porque não foi possível dormir naquela poltrona desconfortável (nível de ônibus interestadual brasileiro comum). No entanto, correu tudo bem e isso é o que importa. Vale registrar que a bóia (jantar e desjejum) era somente razoável, mas o vinho português servido no jantar era DOC (denominação de origem controlada), ou seja, a tripulação se esbaldou, pois nunca tomara nada igual. Estupendo! Boa dica da Tânia: “tome o vinho que servem na TAP, vale a pena”. Agora eu realmente acredito: estou em Lisboa!!! Ao contrário do que li no jornal e do terror que algumas pessoas me pintaram, não enfrentei fila nenhuma na chegada, simplesmente mostrei meu passaporte com o visto e pronto. Exatamente como a Márcia previu. O cara da imigração só se deu ao desfrute de perguntar o que eu vinha estudar por aqui. Aí eu disse. A bagagem demorou um pouquinho, tipo meia hora, e depois saí para o abraço na Lídia (prima da Julia) e sua amiga Rosa, atenciosíssimas. Elas me trouxeram de carro até a residência, mas o lamentável foi que a alça da mala que a Julia me emprestou (justamente a que estava mais pesada), quebrou ao sair do carro, então trouxe o peso no muque, o que me rendeu dores musculares nas costas e nos braços, pois tive que subir escadas... Ontem mesmo andei vendo preço de mala, pois não vai dar para seguir com esta. Acho que consigo comprar algo semelhante por menos de 50 euros. O alojamento é numa área residencial, com pouquíssimo comércio, mas numa rua de movimento, Alameda das Linhas de Torres, perto da estação Campo Grande (do metro, assim sem circunflexo mesmo, pois é como se fala por aqui), que tem uma saída perto da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, justamente onde fica o Ricardo, o meu orientador (com quem ainda não encontrei, só falei por e-mail). O quarto é de lado para a rua, então o barulho não me incomoda. O casario é antigo, com piso de madeira, escadaria e grandes banheiros. Bem legal (ou giro, como se diz por aqui)! O ambiente é calmo, limpo e vazio, só vi mais duas hóspedes, com quem troquei simpáticos bons dias, boas tardes e boas noites. As duas pessoas que me receberam: dona Rosa (que me chama de doutora, hábito que já tinha percebido na novela portuguesa que andei assistindo no Brasil para me ambientar, é mais ou menos equivalente ao nosso senhor/senhora, mas eles dizem assim: “a doutora isso, a doutora aquilo”, na terceira pessoa do singular) e a moça que faz a arrumação (lamentavelmente já me esqueci o nome dela, tenho que perguntar de novo). Ganhei da dona Rosa um passe 7 colinas, que serve para o metro e o autocarro (ônibus), basta carregar, como fazemos com os nossos no Rio. Carreguei na papelaria que tem aqui em frente. O cara que me atendeu (talvez o dono) parece um indiano e foi bastante simpático com as perguntas básicas da estrangeira que acabou de cair por aqui de pára-quedas: como eu faço para usar o passe?, onde é o metro?, onde posso escanear um documento? etc. Depois, como ele não sabia onde eu poderia escanear, fui na loja ao lado, que carrega tinteiros (cartuchos de impressora). O dono também foi bastante simpático e me disse que talvez eu conseguisse escanear na estação do metro, numa lojinha de fotografias. Ele perguntou de onde eu era, aí ele disse que morou 21 anos no Pará e voltou para a terrinha há 6 anos. Fui até o metro e finalmente consegui escanear o bilhete para mandar para a Capes na tal lojinha. A moça que trabalha lá é brasileira, do Mato Grosso, chama-se Ana Paula, está aqui há 6 anos e o pai dela trabalha em Furnas. Fala sério! A viajante provou a salada de frutas de uma lanchonete no metro: tem abacaxi, mamão, kiwi, maçã, uva e pêssego em calda. Tomou café expresso (igual ao nosso) numa cafetaria (é assim mesmo que eles escrevem por aqui), na cantina da universidade e num restaurante onde almoçou tarte de carne com salada (alface, tomate, cenoura e cebola). Comeu croquete com imperial (chope) no Martinho da Arcada, bar/restaurante na Praça do Comércio que, se não me engano, é onde a Julia disse que eles deixam uma mesa reservada esperando o Pessoa aparecer a qualquer momento. Não é bárbaro? A viajante só se tocou disso quando viu as várias gravuras e quadros que eles têm do Pessoa. Tenho que confirmar essa informação com a Julia. Ah! Lá tem uns pastéis de nata deliciosos, que foram levados para serem comidos na alcova. Foi lá também que a viajante se encontrou com a tripulação da nau que veio das terras do norte (Gypsie e Pedro), que estão de passagem por aqui. As duas tripulações saíram de lá depois de um chope, porque o lugar fechou cedíssimo, e foram andando pelas ruas da Baixa, onde todas as pastelarias (não é onde se vende pastel, mas sim doces e salgados de todos os tipos; tem milhares dessas por aqui, cada coisa deliciosa, pelo menos com cara de ser deliciosa), ao contrário do boteco, estavam abertas, o que pareceu bizarro, afinal, o boteco onde se toma chope é que deveria ficar aberto até mais tarde... Enfim, coisas da terrinha... Hoje também a viajante trouxe pastéis de nata feitos no restaurante onde almoçou, que se chama Pastelaria Dourado. Após comê-los com alegria, pode-se dizer que são muito bons, a massa é igual à dos pastéis de ontem, folhada crocante, mas o recheio é mais amarelo (deve ter mais ovo) e mais doce (parece feito com leite condensado) Realmente as ruas brilham à noite, é incrível. Já tinha ouvido falar, mas não conseguia imaginar como seria. O legal é que é pedra portuguesa, tipo as que temos também no Rio, mas o material deve ser diferente, parece que tem cera, dando a impressão de piso molhado. Mas a primeiríssima coisa mesmo que fiz foi pegar o metro até o Cais do Sodré para ver o Tejo. Achei que, apesar de estar muito cansada, esta era uma experiência fundamental. Valeu! O que me chamou a atenção foi a brisa. Apesar do sol esturricante (viva o filtro solar!), senti o rio na pele antes de realmente vê-lo. Uma sensação muito boa e revigorante. Fui até a estação fluvial, para tentar uma visão mais próxima, mas há uma série de obras na área e vi tudo meio picotado. Bem, este foi um primeiro contato, muitos outros ainda virão, pretendo atravessar o rio de barca, como o Pedro e a Gypsie sugeriram, e também evidentemente vê-lo de cima, afinal, estou na cidade das sete colinas. Andei pelas ruas da Baixa, encontrei uma primeira livraria – Alcalá – que é uma livraria espanhola, com livros novos e usados. A dona da loja foi muito solícita e simpática, disse que adorou o discurso que o Lula fez por aqui, elogiou também o FHC e ama Villa-Lobos. Ela se parece muito com a minha orientadora, a Márcia. Nessa mesma caminhada, entrei numa exposição no Museu Nacional da Imprensa: “José Saramago segundo Agostinho Santos – pintura e desenho”. Não gostei muito dessa “leitura pintada do Saramago”, mas valeu por algumas citações: “As diferenças não são muitas entre as palavras que às vezes são tintas, e as tintas que não conseguem resistir ao desejo de querer ser palavras”, do Manual de pintura e caligrafia, “O sonho é pensamento que não foi pensado como devia”, do Evangelho segundo Jesus Cristo, e “No mar estamos, o mar nos leva, para onde nos levará o mar”, do Jangada de pedra. Muito legal também é ver o bonde pelas ruas da cidade, dá uma impressão de Santa Teresa estendida, ou seja, um charme só. Ainda não vi baratas nem mosquitos, mas acompanhei o rápido trajeto de uma mosca varejeira (ou similar) que entrou e saiu enquanto eu estava vendo meus e-mails, só ouvi o zumbido e acompanhei seu movimento. Ah! Entrou aqui também um inseto que parece uma mini-mosca. Estamos no verão por aqui, só escurece lá pelas 9 da noite (horário de verão), mas à noite dá uma boa refrescada, ontem vi marcar 20 graus, cheguei a ficar com frio enquanto andava na Baixa com Pedro e Gypsie. Que bom que levei casaco. De dia, calor de verão do Rio. Ou seja, num mesmo dia, a temperatura variou como do verão ao inverno carioca... Por enquanto só andei de metro. Talvez amanhã pegue o autocarro ou o elétrico (bonde), pois vou ao Belém, ver um dos possíveis quartos que alugarei a partir de setembro. Estou louca para conhecer essa região, é onde fica a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerônimos, o marco dos descobrimentos, um centro cultural e, evidentemente, os famosos pastéis... Ah! Hoje no almoço testemunhei uma cena ligeiramente tensa com um casal de supostos ciganos dentro do restaurante. Ela foi ao banheiro (por aqui se chama casa de banho) e o homem começou a puxar papo com uma criança que estava com a avó. Lá pelas tantas, a avó falou alguma coisa para ele, e ele foi embora resmungando alto. Enquanto isso, a mulher não saía do banheiro, acho que os garçons pensaram que ela estivesse se drogando lá dentro, sei lá. Um deles foi até lá, bateu na porta e convidou-a a se retirar. Ela também saiu reclamando, falando que era cliente como os outros e que ia dar queixa etc. e tal. Acho que amanhã vou tentar achar um dos restaurantes vegetarianos da minha lista... Por enquanto, poderia dizer que Lisboa reúne o que há de bom no Rio, em Sampa e em Curitiba. A parte histórica dessas três cidades brasileiras, com seus casarios antigos, montes de igrejas, praças e bares tradicionais, a brisa fresca e o céu azul do Rio, o cosmopolitismo de Sampa (o metro também é parecido) e a sensação de segurança de Curitiba e de se estar numa grande cidade com um certo clima de pequena. Outra coisa que também me lembrou Curitiba foi o clima do campus, amplo, limpo, seguro... totalmente diferente do Fundão, por exemplo, que, apesar de também ser amplo, é rodeado de favelas e esgotos por todos os lados...
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