domingo, 9 de outubro de 2011

106 - O choro por Lorca

O que eu não chorei no Pátio dos Leões na Alhambra (como a minha amiga Elena, a española loca), eu chorei hoje na casa do Lorca. Entrar na casa do poeta, onde ele escreveu tanta coisa, onde se refugiava no verão e onde estava pouco antes de ser detido e assassinado brutalmente logo no início da guerra civil espanhola (1936) realmente me tocou. Tive que me controlar para não chorar copiosamente, porque a visita à Casa-Museu Federico García Lorca é guiada, então, além do guia, havia umas 10 ou 15 pessoas. Assim que entrei na casa fiquei comovida, depois só foi piorando. Na cozinha então eu tive que me conter. Apesar da emoção, descobri um monte de coisas, como os desenhos que ele fazia para as suas peças e também algumas pinturas moderníssimas, que causariam inveja a Picasso ou a seu amigo Dalí (dizem que eles tiveram um caso). Descobri também que ele era encantado com a Alhambra e promovia concursos de flamenco, eventos de música, poesia e teatro lá. Muito ligado à vida cultural de Granada, trabalhava com outros artistas da cidade, como o Manuel de Falla, compositor clássico com influência flamenca que é conhecidíssimo por aqui mas de quem eu nunca tinha ouvido falar. Além disso, Lorca dirigia suas peças e tocava piano. Dizem que toda essa presença andaluz aparece na sua obra, mas eu ainda não sei, só li algumas poesias dele que adorei, além de um pouco sobre a sua curta vida.

O lugar se chama Huerta de San Vicente, que hoje se encontra dentro do Parque Federico García Lorca. O parque é maravilhoso, um ótimo lugar onde os granadinos passeiam, correm, trazem suas crianças, pedalam, tomam um café, botam o papo em dia, tomam sol espalhados pelo gramado ou simplesmente coçam o saco. Olhem só o "verde que te quiero verde" (primeiro verso do poema "Romance Sonámbulo", no livro Romanceiro Gitano, escrito em 1928 por Lorca):






Não sei se vocês conseguem perceber nas fotos acima, mas esse trecho do parque tem uns labirintos de cerca viva que me lembraram imediatamente as ruas granadinas, e também córregos artificiais como os que se encontram na Alhambra.

Há vários caminhos arborizados e agradáveis, como estes:




Flores e frutas também:






Oops... Flor ou fruta?


E finalmente a casa do moço (de vários ângulos externos, lá dentro não pude tirar fotos):








E um pouco do que ele via (sem os prédios ao fundo evidentemente, e acho que também sem essas árvores; o guia disse que era tudo campo mesmo, um grande sítio com horta, pomar etc.):




É isso aí. E segundo o Lorca (1933): "es ahí, en mi Huerta de San Vicente, donde escribo mi teatro más tranquilo".


Na volta para a residência, passei na rua onde supostamente ele foi preso:


Onde hoje há vários bares e restaurantes, inclusive El Rincón de Lorca:


De qualquer modo, não se sabe exatamente o que aconteceu com Lorca. Há várias lendas sobre isso na cidade, inclusive uma que diz que ele não morreu com os tiros que levou dos fascistas, mas perdeu a memória, foi encontrado por uma pessoa que não sabia quem ele era, que o ajudou a se recuperar, e essa pessoa, anos depois, apresentou uma foto onde aparece o suposto Lorca. O fato é que no ano passado abriram a sua cova e ele não estava lá... Mistérios...

A professora de histórias e lendas granadinas, a Mari Paz, disse que tem um documentário sobre isso: La luz prodigiosa. Lembro que vi um filme americano sobre ele há anos, o Andy Garcia que faz o Lorca.

Além desse Museu-Casa que conheci hoje, que é onde ele e sua família passavam o verão, há também o Museu Casa Natal Federico García Lorca, que é onde ele nasceu, em Fuente Vaqueros, uma aldeia aqui perto. O site oficial é: www.museogarcialorca.org.

Para finalizar, mais um pouco de Lorca (que tem a ver com o que estou vivendo), agora do "Romance del Arlequim" em Romances del Teatro (1924-1935):

El Sueño va sobre el Tiempo
flotando como un velero.
Nadie puede abrir semillas
en el corazón del Sueño.

[...]


Y si el Sueño finge muros
en la llanura del Tiempo,
el Tiempo le hace creer
que nace en aquel momento.





2 comentários:

Leyla disse...

Adorei este passeio por Sevilha. Já não sei se gosto mais dos "pormenores" ou dos "pormaiores". TUDO É MAGNÍFICO.Aliás, tenho que lhe dizer que suas fotos parecem postais( depois comento isto).Suas "caras de felicidade", estão absolutamente de acordo com tudo isto que estou vendo. Aquele abraço.....

Odete disse...

É flor, com certeza! A mais linda
do jardim.
beijo