No fim do dia, saí da biblioteca e fui à cinemateca, coisa que também costumava fazer muito há três anos. Assisti a um filme do Werner Herzog que conta a história de um lendário bandido brasileiro do século XIX metido com tráfico de escravos que vai parar na África: Cobra Verde, de 1987. Parece título de ficção científica, mas não é, trata-se simplesmente do último filme da parceria Herzog-Kinski, penúltimo do Klaus Kinski, que morreu alguns anos depois. Até o José Lewgoy participa da película no papel canalha de um senhor de escravos. O filme é forte (pois mostra atrocidades escravocratas), tem suas bizarrices (como a dublagem e o fato de todo o mundo falar inglês), mostra um homem que vive no limite entre a pura potência e a autodestruição, mas tem também belas cenas (como a das mulheres africanas cantando no final) e boas tiradas históricas (como a hipocrisia das relações entre países que já haviam abolido a escravidão e os que ainda eram escravocratas) e existenciais (como a consciência que o Cobra Verde tinha de que o que fazia não era certo ou errado, mas sim um crime). Tem uma hora, quando o seu destino já está mais ou menos traçado, que ele fala algo como: "finalmente alguma coisa diferente vai acontecer". Até então, ele tinha se imposto sem dificuldade, transformando-se no mal encarnado; agora, o "diferente" é que aqueles que foram explorados e estavam sob seu mando, serão os responsáveis pelo seu fim, assim como ele havia feito no início da construção da sua lenda.
A viajante navega na Caravela Cruzeiro do Sul rumo a mares nunca dantes navegados, ou até já navegados, mas sempre inusitados. Aqui se encontra o seu diário de bordo.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
119 - Voltando à Biblioteca Nacional de Portugal
Hoje voltei à BNP depois de quase três anos. Durante o meu estágio doutoral em 2008, a maior parte do meu trabalho foi feita nessa biblioteca. Tive apenas que renovar o cartão de leitora e rapidamente lá estava eu novamente sentada naquela ampla e confortável sala de leitura com cinco livros à minha volta. Mais uma viagem no tempo. Só não foi repeteco total porque hoje não estava à cata de nenhuma tradução do Tetrabiblos nem de nenhum outro texto astrológico antigo. Fui procurar o Livro da Montaria, de D. João I, rei de Portugal entre 1385 e 1433. Nesse livro é mencionado um personagem importante sobre o qual vou falar na próxima quarta-feira no congresso em Coimbra: o astrólogo João Gil, que suponho ter traduzido a versão castelhana do Tetrabiblos que encontrei na Biblioteca Nacional de España (BNE) há três anos. Falei desse texto do D. João na minha tese, mas não cheguei a ver o livro. Hoje fui completar esse trabalho, vasculhando cada página da obra para ver todas as referências que me interessavam. Encontrei um bom material em que o rei dá uma aula de astrologia, aparentemente com base no Tetrabiblos. Amanhã volto lá para copiar isso e analisar melhor o conteúdo. Depois coloco aqui a versão final da apresentação, caso alguém queira ver.
No fim do dia, saí da biblioteca e fui à cinemateca, coisa que também costumava fazer muito há três anos. Assisti a um filme do Werner Herzog que conta a história de um lendário bandido brasileiro do século XIX metido com tráfico de escravos que vai parar na África: Cobra Verde, de 1987. Parece título de ficção científica, mas não é, trata-se simplesmente do último filme da parceria Herzog-Kinski, penúltimo do Klaus Kinski, que morreu alguns anos depois. Até o José Lewgoy participa da película no papel canalha de um senhor de escravos. O filme é forte (pois mostra atrocidades escravocratas), tem suas bizarrices (como a dublagem e o fato de todo o mundo falar inglês), mostra um homem que vive no limite entre a pura potência e a autodestruição, mas tem também belas cenas (como a das mulheres africanas cantando no final) e boas tiradas históricas (como a hipocrisia das relações entre países que já haviam abolido a escravidão e os que ainda eram escravocratas) e existenciais (como a consciência que o Cobra Verde tinha de que o que fazia não era certo ou errado, mas sim um crime). Tem uma hora, quando o seu destino já está mais ou menos traçado, que ele fala algo como: "finalmente alguma coisa diferente vai acontecer". Até então, ele tinha se imposto sem dificuldade, transformando-se no mal encarnado; agora, o "diferente" é que aqueles que foram explorados e estavam sob seu mando, serão os responsáveis pelo seu fim, assim como ele havia feito no início da construção da sua lenda.
No fim do dia, saí da biblioteca e fui à cinemateca, coisa que também costumava fazer muito há três anos. Assisti a um filme do Werner Herzog que conta a história de um lendário bandido brasileiro do século XIX metido com tráfico de escravos que vai parar na África: Cobra Verde, de 1987. Parece título de ficção científica, mas não é, trata-se simplesmente do último filme da parceria Herzog-Kinski, penúltimo do Klaus Kinski, que morreu alguns anos depois. Até o José Lewgoy participa da película no papel canalha de um senhor de escravos. O filme é forte (pois mostra atrocidades escravocratas), tem suas bizarrices (como a dublagem e o fato de todo o mundo falar inglês), mostra um homem que vive no limite entre a pura potência e a autodestruição, mas tem também belas cenas (como a das mulheres africanas cantando no final) e boas tiradas históricas (como a hipocrisia das relações entre países que já haviam abolido a escravidão e os que ainda eram escravocratas) e existenciais (como a consciência que o Cobra Verde tinha de que o que fazia não era certo ou errado, mas sim um crime). Tem uma hora, quando o seu destino já está mais ou menos traçado, que ele fala algo como: "finalmente alguma coisa diferente vai acontecer". Até então, ele tinha se imposto sem dificuldade, transformando-se no mal encarnado; agora, o "diferente" é que aqueles que foram explorados e estavam sob seu mando, serão os responsáveis pelo seu fim, assim como ele havia feito no início da construção da sua lenda.
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