Além de bonito, o moço era bom. E, segundo o professor, nos seus 18 anos de literatura (ele morreu com 38), Lorca publicou algumas obras consideradas emblemáticas do século XX, sobretudo pela sua capacidade de criar metáforas. Como já disse, eu li algumas poucas poesias dele, mas o suficiente para me encantar com as suas imagens. Segundo o Juanfe, sua obra é popular, pois é uma homenagem a todos os perseguidos (principalmente o Romanceiro gitano), que, no caso andaluz, vão desde os mouros e judeus até os ciganos, gays, esquerdistas e artistas, mas também um exemplo de forma e estilo para literato nenhum botar defeito. Ele era gay, artista e esquerdista, apesar de nunca ter se filiado a nenhum partido, e crescera no meio de ciganos. A mescla cultural, portanto, é sua matriz existencial e poética. Em suas próprias palavras: "Yo creo que el ser de Granada me inclina a la comprensión simpática de los perseguidos. Del gitano, del negro, del judío... del morisco que todos llevamos dentro."
Justamente por esse caráter popular, seus amigos Salvador Dalí e Luis Buñuel o rechaçaram, pois estavam em busca de algo diferente do ponto de vista estético, estavam à frente de um novo movimento artístico, o surrealismo. Aliás, dizem que Lorca é o cão andaluz do filme homônimo de Buñuel e Dalí. Curiosamente, depois desse rechaço - que foi também sexual, pois Lorca queria uma relação com Dalí, e este parece que não sabia o que queria -, o poeta rumou para Nova York, onde, segundo o meu professor, escreveu o seu melhor livro de poesia: Um poeta em Nova York. Ironicamente, trata-se de um texto surrealista, decerto uma resposta a seus amigos.
Lorca e Buñuel
Lorca e Dalí
Ademais, Lorca era apaixonado por Granada, mas pela Granada moura do século XIV (que nem eu!), e não pelos granadinos de seu tempo, que ele considerava muito conservadores (em A casa de Bernarda Alba, por exemplo, seu último livro, ele fala de uma mãe autoritária e suas duas filhas - o que também pode ser entendido numa perspectiva política, afinal, estava começando a Guerra Civil Espanhola). Para ele, 1492 foi um ano terrível, representou o fim de uma rica cultura. Por isso declarou que a Alhambra estava morta.
Outra coisa legal que ele fez foi o grupo de teatro La Barraca, que era itinerante e levava o teatro clássico espanhol para o interior. Ele atuava e dirigia:
Também dedicou um livro a Mariana Piñeda, uma heroína andaluz do início do século XIX (tem uma praça aqui em sua homenagem). Ela foi presa por ir contra as atitudes despóticas da monarquia e depois se recusou a dedurar seus companheiros. Por isso foi morta na Porta Elvira, aquela pela qual passei no dia em que subi ao Albaicin.
O moço estudou Direito para agradar o pai e na Faculdade de Filosofia e Letras por vocação. Por acaso, estive ontem lá:
Mas na época dele a Faculdade era em outro lugar, curiosamente no belo prédio do Hospital Real (século XVI), que hoje abriga a biblioteca histórica, onde também estive ontem (é lá que estão guardados os livros antigos de Granada, quem sabe um dia venho conferir):
E no prédio da atual Faculdade de Tradução e Interpretação, que já havia encontrado outro dia no meio do caminho para a escola:
Coincidências da vida...




Um comentário:
Tanta coisa dese moço...mas só conheço o poema "Canción de Jinete
Córdoba.
Lejana y sola.
Jaca negra, luna grande,
y aceituna en mi alforja.
Aunque sepa loscaminos
yo nunca llegará a Córdoba.
etc etc... dos tempos dos estudos de literatura espanhola.
beijo
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